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Maria Gasolina

MPB em finlandês?

Confira a entrevista com a líder da banda finlandesa 'Maria Gasolina'. Por Hugo Souza.

MPB em finlandês?
Lissu Lehtimaja, ao centro, e seus companheiros de Maria Gasolina (Foto: divulgação)

Imagine se um dia clássicos da música popular brasileira como “Feijoada completa”, de Chico Buarque, “Xote das meninas”, de Luiz Gonzaga, e “País Tropical”, de Jorge Ben Jor, poderiam ressoar na noite da capital da Finlândia, Helsinque, em bom… finlandês!

MPB em finlandês? Sim, isso existe, e os responsáveis pela proeza são os oito finlandeses da gema que compõem a banda Maria Gasolina, cuja especialidade é essa mesmo: transformar versos como “tá cada vez mais down o high society” em “tää menee ihan down tää high society”.

Os três álbuns lançados pela banda

A ideia partiu de Lissu Lehtimaja, moça simpática que veio fazer intercâmbio no Brasil quando ainda era uma colegial, nos anos 1990, apaixonando-se perdidamente pelas letras e músicas do nosso país.

Eles fazem um grande sucesso na Finlândia, onde fundaram uma gravadora própria – a Gasolina Records – e já lançaram três CDs. Nessa entrevista feita por email, Lissu conta um pouco sobre o trabalho da banda e diz que a Maria Gasolina pode se apresentar no Brasil ainda em 2010.

Conte um pouco sobre sua estadia no Brasil e sobre como surgiu a ideia de criar uma banda para tocar MPB em finlandês.
Lissu: Eu tinha 16 anos e fui fazer um ano de intercâmbio no Brasil. Estudava em um colégio e morava na casa de uma família brasileira. Aprendi o português com a galera, e até hoje falo a gíria do começo dos anos 1990. Fui conhecendo a cultura, e tinha um grande interesse pela música popular. Gravava fitas dos discos dos pais dos meus amigos. Curtia muito o tropicalismo, a MPB, essas coisas. Quando voltei para a Finlândia, tocava as músicas da MPB para os meus amigos daqui, e fiquei decepcionada quando percebi que as músicas que mais me impressionavam não chegavam a ter o mesmo efeito nos meus amigos, que não entendiam as letras. Aí resolvi traduzir algumas daquelas canções. Adorava as músicas do Caetano Veloso, e traduzi algumas letras dele para minha professora de poesia e literatura. A professora quis ouvir as músicas, e aí eu montei uma banda com alguns colegas só para tocar essas músicas na escola. Mas isso foi tipo há 10 mil anos. Acho que foi pelo menos uns cinco anos mais tarde que retomamos esse projeto do colegial e resolvemos montar uma banda de verdade.

Por que o nome “Maria Gasolina”?
L.: Nós escolhemos esse nome para a banda porque precisávamos decidir algum nome para botar na capa de um CD, onde tinha uma versão meio punk da música “Carro Velho”, da Ivete Sangalo. Eu de repente pensei nessa gíria, e nós achávamos um nome engraçado. Os finlandeses, é claro, não souberam o que significava, mas era fácil de pronunciar, escrever e lembrar, e tinha um som exótico e humorístico para o ouvido finlandês. Muita gente aqui não entende o que significa o nome da banda, acham que é meu nome mesmo. Às vezes vêm perguntar pra mim se eu sou a Maria Gasolina. A própria mesmo, hein? (risos).

As dificuldades são grandes para adaptar as letras das músicas brasileiras para o finlandês?
L.: Pois é. A língua finlandesa é bem diferente. As palavras são extremamente compridas. Em vez de preposições, nós colocamos mais e mais extensões no fim das palavras. Não tem artigos, não tem nem feminino ou masculino. A ordem das palavras dentro da frase é diferente. Que mais? Às vezes uma palavra pode proporcionar uma associação completamente diferente para o ouvinte independente do significado dela. Ou pode ser que a palavra mais linda tenha um som feio em outro idioma. E o que faz mais diferença quando você canta em finlandês é que o peso da palavra é sempre na primeira sílaba.

Às vezes parece que eu conheço a versão original da música tão bem de coração que acabo cantando palavras da língua finlandesa no ritmo da pronúncia brasileira, sem perceber. Mas às vezes eu também mudo um pouquinho o ritmo da melodia para encaixar melhor com a tradução finlandesa. Depende. Mas, antes disso, procuro bem no vocabulário finlandês para achar algum jeito de passar a frase naturalmente, no mesmo ritmo.

Tem tantos fatores para pensar quando se faz uma tradução. Mas como para mim a letra é mais importante, eu às vezes até mudo a melodia ou o ritmo um pouquinho para eles encaixarem nas líricas. É claro que às vezes a letra também tem que fazer um compromisso. Uma canção é como se fosse um matrimônio de letra e música, os dois tem que dar as mãos para fazer um belo compromisso. Mas, no fim das contas, com cada música é preciso valorizar o fator que faz dela o que ela é. Entendeu? Tipo: em algumas músicas a letra é a coisa mais importante. Tem outras músicas onde é um certo ritmo das rimas, ou a brincadeira com as palavras, ou o som das palavras, ou os detalhes, as escolhas de certas palavras. Varia muito, e cada vez tem que pensar qual é a coisa nessa música da qual não abro mão. Mas eu tento ser tão fiel quanto possível ao original.

Você poderia nos dizer quais músicas brasileiras vocês pretendem traduzir nos seus próximos trabalhos?
L.: Impossível dizer. Pode ser que eu vá tentando e tentando traduzir algo, mas a tradução não cai bem e eu tenho que abrir mão de alguma música bem legal. Algumas vezes nem pensei em traduzir algo, mas de repente vou acordar no meio da noite com a letra pronta na cabeça. Na semana passada, uma amiga que ia fazer um exame de canto profissional me perguntou, por SMS, se por acaso eu tinha a tradução para a música “Agora só falta você” [de Rita Lee e Luiz Sérgio], que ela ia cantar no exame dela. Respondi que não tinha. Quinze minutos depois, mandei um outro torpedo com a tradução pronta.

Quando vocês vêm tocar no Brasil?
L.: Se tudo der certo, ainda no fim desse ano. Já fomos convidados para a fazer um show aí, mas é bem caro e complicado fazer uma turnê no exterior com uma banda de oito integrantes. Espero que nós possamos nos ver logo!

Ouça a MPB em finlandês da Maria Gasolina

Publicado originalmente no site Penedo Blog

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7 Opiniões

  1. Carlos Lopes disse:

    A Finlândia tem, sim, uma estranha e deliciosa conecção com o Brasil. Escrevi uma matéria sobre as Escolas de Samba Finlandesas em: http://www.omartelo.com/.

  2. Markut disse:

    Que maravilha a babel linguística!.E não deixamos de nos comunicar através da palavra, por mais extranha e incompreensivel que ela se revele.
    Isto nos dá a sensação de que somos mais iguais do que parece.
    Pena esse lado luminoso da natureza humana ter,como contrapartida, o lado escuro e sombrio, que tambem nos acompanha irremediavelmente.

  3. Halph disse:

    Eu adoro tudo que ponha o Brasil no seu devido lugar. A entrevista é muito boa.

  4. Helio (Rio de Janeiro) disse:

    Excelente escolha de Lissu e seu grupo finlandes. Não tem erro. Música é talvez o que exportamos de melhor.

  5. Pedro Tavares disse:

    Estou louco para ouvir essa moça cantar por aqui. Maria Gasolina vai emplacar! Lissu Lehtimaja, tem uma casa enorme de Shows aqui em Fortaleza chamada “Siará Hall”. Onde é que você vai se apresentar, moça? Traga essa banda toda e apareça no programa do Jô Soares!

  6. Rafael Inacio disse:

    Nossa… Muito legal…
    Estou louco para ouvi… mas não consigo acessar o Myspace deles… Deve ser incrível!!!

  7. Pedro Tavares Nicodemos Filho disse:

    Haloo haloo marsilainen
    http://vimeo.com/9498057

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