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Música Clássica

Música nas escolas

Veja nossa coluna semanal de música clássica com Clóvis Marques

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
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O anuário VivaMúsica! acaba de publicar extenso dossiê sobre os preparativos em escala nacional para que o ensino musical esteja em 2012 nas escolas brasileiras, atendendo a 43 milhões de crianças e adolescentes matriculados no ensino fundamental e médio, conforme a lei aprovada em agosto de 2008, por iniciativa da sociedade civil corroborada pelo parlamento nacional e sancionada pelo presidente da República.

Nas questões a serem decididas e que estão sendo debatidas – formas e modelos da educação musical, reforço e qualificação do corpo docente – não se parte do zero: resquícios de musicalização persistiram nas últimas décadas em forma de “educação artística” (unindo à música a dança, o teatro e as artes visuais), adotada na reforma do ensino promovida no início da década de 1970.

Mas na formulação de currículos, formatos e alternativas será preciso adaptar ambições e possibilidades aos novos tempos, nos quais a diversidade e mesmo a heterogeneidade constituem fatores que não podem ser desprezados na formação dos jovens. Como interessar e fazer vibrar a juventude com esse instrumento sem igual de integração da personalidade e enriquecimento pessoal, de sensibilização e abertura de capacidades e horizontes e também de socialização que é a música? Como preparar os educadores e levar em conta as múltiplas possibilidades locais?

Algumas questões avultam no debate: os currículos e práticas a serem adotados; a necessidade de formar os professores e reforçar o quadro de didatas habilitados; a importância do trabalho com a música grafada e da prática musical – da “produção do som” pelos alunos.

Um dos temas mais discutidos é o fato de ter sido vetada pelo presidente da República, por recomendação do ministro da Educação, a proposta original de confiar a missão a professores com formação específica para ministrar educação musical. Optou-se pela convocação de professores com formação pedagógica, a licenciatura.

Os setores voltados para a questão continuam mobilizados, agora sob a liderança dos Ministérios da Educação e da Cultura, que criaram um Conselho Consultivo incumbido de fazer um levantamento da situação, analisar a legislação vigente e propor um documento-base a ser discutido pela sociedade. Integrado por representantes da Associação Brasileira de Educação Musical, do Conservatório Brasileiro de Música, do Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, da Unirio e da Escola de Música Villa-Lobos, esse conselho tem entre seus membros o diretor da Sala Cecília Meireles, compositor João Guilherme Ripper, e o compositor Felipe Radicetti, um dos mentores desde 2006 do Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música, e mais adiante da campanha “Quero educação musical nas escolas”, movimentos no centro do processo que levou à nova legislação.

Tendo participado de recente debate promovido pelo VivaMúsica! na Livraria da Travessa do Shopping Leblon, no Rio, retransmitido no último sábado, dia 31, pela rádio CBN, Radicetti explica ao Opinião e Notícia que, considerando-se o veto e a escassez de professores habilitados, “um dos aspectos propostos pelo Conselho Consultivo foi o de prover, aos músicos que sejam temporariamente contratados para atender à demanda de professores, uma formação pedagógica condizente”. Ele acrescenta: “Na medida em que se deseje um acesso universalizado à educação musical hoje, é preciso considerar os erros do passado e adotar uma flexibilização das contratações que considere, no futuro, uma formação continuada para a habilitação de professores.”

Confira a seguir o depoimento do compositor João Guilherme Ripper.

Também participante do mencionado debate, João Guilherme Ripper desenvolve abaixo, a convite do Opinião e Notícia, o tema da importância da familiarização com a escrita musical no processo educativo. Seu depoimento:

João Guilherme Ripper

1 – Por que a música foi escolhida como componente curricular obrigatório? A música tem na escrita sua grande vantagem sobre outras formas de expressão artística. O registro escrito da composição, a reprodução da música a partir desse registro, a veiculação da mensagem expressiva do compositor, a flexibilidade interpretativa de acordo com a técnica e a emoção do intérprete são alguns dos predicados que qualificam a música como linguagem.

2 – A escrita não surgiu da vontade de compositores registrarem suas obras para a posteridade, mas da necessidade vinda da prática da música em conjunto, sobretudo a partir da criação da polifonia. A música, ao contrário da dança ou artes plásticas, pode ser realizada em conjunto a partir da partitura. Ao ser integrada à educação básica, a música traz benefícios como integração, socialização, elevação da autoestima, cooperação, etc. São valores inerentes à prática musical. Por isso, sou favorável à leitura, escrita e à prática de conjunto (canto e/ou instrumento) como alguns dos objetivos do programa da educação musical. Sem essas metas, a educação musical, que terá a duração total de doze anos, poderá tornar-se uma mera atividade recreativa.

3 – Nesse sentido, o veto ao Art. 2 da Lei 11.769 de 18 de agosto de 2008 preocupa, pois abre a possibilidade de que professores não especializados se ocupem das aulas. Acredito que haverá um período de seis a oito anos durante o qual será necessária a contratação de professores generalistas sem formação específica e músicos sem formação pedagógica. No entanto, é necessário que as universidades e institutos superiores de educação ofereçam formação profissional para essa imensa área que se abre.

4 – Haverá uma grande demanda por bibliografia, gravações, programas de computador e material pedagógico para utilização em sala de aula.

5 – A educação musical traz como benefícios indiretos o desenvolvimento do raciocínio abstrato, simbólico e matemático. O sistema de escrita do ritmo musical é matemática aplicada.

6 – As obras musicais, como outras obras de arte, são traços e marcos do desenvolvimento da civilização. A educação musical fornece ao aluno a chave para revelar o sentido, a beleza, a diversidade, a universalidade das obras musicais e o contexto histórico em que foram criadas.

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11 Opiniões

  1. Nueli Medeiros disse:

    Ora viva!!
    Até que enfim uma notícia para ser aplaudida em pé.
    Acabei de responder a respeito da palmada, a música voltando a vida escolar e doméstica, para quem as palmadas? Podem ter certeza só vão restar as palmas…
    Tenho um filho violinista, um clarinetista e uma filha organista, só deixei de dar-lhes palmadas, quando se entregaram à música, uma mãe zelosa que embala os pequeninos e os adultos. Sim, porque ela é a arte de manifestar os diversos afetos da nossa alma mediante o som e, é, linguagem universal.
    Nessa hora até quem toca de ouvido, no meu ponto de vista… Tem mais valor em uma entidade qualquer que os nossos pequeninos precisem frequentar, do que um doutor sem a sensibilidade de entender o que é a música.
    No ventre eles já conhecem o som de qualidade!!

  2. andre becker(Santos/SP) disse:

    cresci com aualas de artes e musica
    so que nao haviam na escola instrumentos.
    recebiamos uma folha com desenhos dos instrumentos e nas aulas teoricas de partitura cantavamos tá-táa, e assim por diante
    nao havia um cenario para as artes cenicas nunca houve nada
    e isso foi na epoca dos militares.

    hoje sequer os alunos sabem ler.

    mas o ensino é mentido como tendo um aumento sgificativo de qualidade
    mentiras como o atual governo.

    nossas escolas nao tem nada os professores quando nao estao apanhando dos alunos “di menor”

    se dedobram para tentar eninar ao meio da balburdia aqueles que querem ler e escrever.

    so com voto nulo mudaremos isso na historia do Brasil

    vamos anular

  3. Markut disse:

    Creio que educação musical se enquadra perfeitamente no esquema pedagógico que vise formar cidadãos aptos a valorizar o capital humano de uma nação.
    O problema, no nosso país, é que isso está ainda muito distanciado das dramáticas e urgentes necessidades da alfabetização competente, nem de longe supridas no estado catastrófico em que se encontra o nosso ensino básico.
    O problema não é só do Rio , ou São Paulo, mas de todo este imenso país, de quase 200 milhões de habitantes ,em que mais de 50% dos eleitores,que são 140 milhões, aproximadamente, ou são francamente analfabetos, ou são supostamente alfabetizados, mas não escrevem e se lêm, não entendem o que lêm.
    É esta tragédia nacional é que teria que ser priorizada.
    Temos razões suficientes em não acreditar que isso se resolva por demagógicas canetadas, assinadas em Brasília, enquanto não houver um consenso de que é indispensavel uma cruzada nacional de ensino básico competente.
    Coreia do Sul, Irlanda, Chile são exemplos de que, havendo apetite político e cívico do topo do poder, consegue-se o milagre de forjar o país com cidadãos esclarecidos dos seus direitos e deveres.

  4. Mary Muniz Pereira disse:

    Parabéns! A escola, com a música, vai ter o encantamento de outras épocas. É inacreditável que tenha demorado tanto.

  5. Vera Paixao disse:

    Graças a Deus, eles poderão entender que esse tal de Funk e cia não são música, poderão melhorar até os sentimentos, ai de mim se não fosse a música!

  6. clodomildo da silva disse:

    Quero me congratular com Cloves Marques,por ter uma idéia tã brilhante. parabéns.

  7. Helio (rio de janeiro) disse:

    Tomara a música volte às escolas. Gostei da lembrança do leitor de países como Chile, Coréia do Sul e Irlanda que investiram seriamente e com sucesso em Educação. Não precisamos seguir uma carreira musical ou esportiva para adquirirmos esse importante conhecimento na nossa formação.
    Qunado vejo Cieps desocupados no período da tarde me pergunto porque ali um professor não reune jovens para o canto coral ou para a prática de esportes que todos já conhecem as regras. Projetos fora das escolas como o do AffroReggae e do MVBill, com ensino de instrumentos, ou projetos como o Dançando para não dançar são disputadíssimos. Existem uma série de iniciativas fora da escola que devem ser incorporadas pelo Estado.

  8. Helio (rio de janeiro) disse:

    Todas essas boas idéias precisam de verba. A atual é inacreditavelmente mínima. O ministro da Cultura, Gil, queixou até quando no cargo. Continuou dando shows porque o salário segundo ele era pouco. Ganho mal na Saúde, a metade do salário de um médico em São Paulo, cujo sindicato protesta. Gosto da profissão que escolhi. Mas reconheço que o meu hospital, federal, não tem verba, não tem médico suficiente. Na Saúde o Serra foi revolucionário. Tomara seja na área mais importante que é a Educação, e com a música nas escolas!

  9. helio (rio de janeiro) disse:

    O leitor Alamankut fez uma pergunta intrigante, a que se refere o “C” do Mec, já que a cultura tem um ministério próprio?

  10. ferdinando Raimundo Silva Barata disse:

    Prezados Senhores,
    Essa é uma idéia louvável. Se formos observar perdemos aquele romantismo, que hoje faz falta na música popualar brasileira. Creio que a escola pode resgatar esse gigante adormecido que elevou a música brasileira a ser recohecida internacionalmente.A educação brasileira tem deixado muito a desejar por falta de iniciativa como essa.Não é só ler e escrever mas descobrir talentos pra música, poesia e outros. As escolas agradecem. Ferdinando Barata. Juruti-Pará.

  11. alaides lirio disse:

    Palmas para esse projeto, espersmos que realmente se concretize. A cultura é pouco ou quase nada difundida nas escolas. Principalmente publicas, esse pode ser um dos fatores que faz do povo Brasileiro analfabetos culturais. Grande parte da populaçao nao sabe o que é um concerto de musica, nunca foram a um teatro,nao gosta de musica classica.Esse “nao gostar” é compreensivel pois esta vinculado ao fato de nao conhecer.A incorporaçao de praticas simples nas escolas, podem trazer beneficios que sao capazes de mudadr a vida de uma criança ou adolescente. Pode despertar dons, sonhos e empenho para tornar tais sonhos em realidade.

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