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Durante sua palestra na quarta edição do evento Porto Musical, esta semana em Recife, Nelson Motta fez declarações capazes de gerar bastante discussão, que foram publicadas no Globo Online na última segunda-feira e podem ser lidas também no site do evento. Entre outros comentários, o produtor musical e jornalista afirmou que 90% da música brasileira produzida hoje é “porcaria”. O Opinião & Notícia procurou ouvir algumas opiniões sobre o assunto e traz o tema para o debate, convidando os leitores a opinar.
“Do jeito que a declaração chegou, parece que o Nelson Motta está generalizando. Mas temos de lembrar que ele é um sujeito, historicamente, bem informado sobre música brasileira”, afirma Julio Daio Borges, editor do site Digestivo Cultural. “Se estiver falando do que toca no rádio, acredito que tem razão. Mas não por causa da música em si e, sim, por causa das crises dos meios de comunicação, que não divulgam como antes. A boa música está mais na internet do que nunca; saiu do antigo hit parade”, complementa Julio.
O crítico Jamari França, que mantém um blog no Globo Online, acredita que Motta — muito engajado na música brasileira, conforme ele enfatiza — tenha sido motivado por dois fatores ao emitir essa opinião: desabafo e provocação. “Se olharmos a lista das 20 músicas mais tocadas computada toda semana pela empresa Crowley Broadcast Analisys do Brasil (multinacional especializada em monitoramento eletrônico de rádio), observamos uma ausência crônica de boa música.” Jamari critica o que estaria por trás dessa falta de qualidade. “Como a execução está atrelada aos contratos comerciais, leia-se jabá, as gravadoras investem apenas em canções de fácil assimilação por artistas populares”, afirma, complementando que “música de qualidade teria poucas chances nesse modelo.”
Segundo Jamari, os números citados por Nelson Motta não procedem. “Não acho que seja possível dizer a sério que 90% da música feita no Brasil atualmente é um lixo, até porque temos uma enorme quantidade de artistas anônimos de boa qualidade que não chegam ao conhecimento nem de quem trabalha com música. E uma quantidade enorme de artistas com boa produção que não têm a menor chance no mainstream, tanto conhecidos quanto menos conhecidos. Nas vezes em que fui a alguns dos festivais de rock que acontecem em diversas partes do país, vi bandas que poderiam estar fazendo sucesso mas estão restritas a este circuito.”
Oliver Bastos, professor de música e compositor da banda Malibu, destaca que músicos contemporâneos muitas vezes nem mesmo têm como objetivo principal sair do circuito do qual Jamari fala. Grupos musicais que têm um determinado número de fãs preferem fazer shows para esse público, onde vendem CDs e DVDs a preços acessíveis, e disponibilizam suas músicas na internet para que o público tenha facilidade de conhecê-las. Bastos comenta que essas bandas provavelmente sabem que seu som não atingirá as massas, por ser mais específico e muito trabalhado, e então se dedicam mais à arte e à música propriamente ditas do que à comercialização do que produzem. Fazer shows, gravar discos e vender muito acabariam sendo consequências disso, na opinião dele.
Polêmica proposital
Na opinião do músico, compositor e tecnólogo Osmar Ricardo Lazarini, também conhecido como Sonekka, Motta fez uma declaração propositalmente polêmica. “Não consigo conceber que um cara com a experiência dele seja capaz de dizer bobagens assim e sustentá-las. Ele considera lixo tudo o que não é do seu gosto pessoal.” Lazarini levanta pontos importantes para discussão, remetendo à opinião de Jamari França. “Muita coisa ruim é feita em todas as áreas artísticas, só que os espaços são limitados e só vinga o que é bom? Errado. Só vinga na mídia o que é pago pra ser markeateado, como qualquer produto. Só o universo musical moderno tem outra dimensão.” Ainda de acordo com o músico, Nelson Motta deveria explicar o que considera ruim — “a música em geral ou a música comercial?” — porque, segundo ele, com o avanço tecnológico, muita gente passou a poder produzir e com muita qualidade, e o conceito de bom e ruim foi desmistificado.
Lazarini não é o único a afirmar que Nelson Motta fez uma declaração baseada em seu gosto pessoal, e condena a forma como as críticas de música são feitas. “Quem conhece tanto e tão profundamente a música brasileira atual para fazer uma afirmação assim?”, questiona o compositor e produtor Alexandre Lemos. “O que chama mais a atenção nisso tudo é o vazio pleno que serve de contexto para a afirmação em questão. Frase típica do jornalismo brasileiro, onde o achismo ocupa, há décadas, o lugar da crítica especializada”, complementa.
Assim como Sonekka, o jornalista e crítico musical Arthur Dapieve encara a afirmação de Nelson Motta como uma provocação. Mas Dapieve acredita que tenha sido uma provocação benvinda. “Não creio que apenas 10% da música brasileira não seja uma ‘porcaria’, mas é bom sermos lembrados de que não é tudo bom, como se pode imaginar pela leitura de parte da imprensa, muito acrítica. Porque, certamente, a maior parte (70%? 80%?) não é boa mesmo. Como, aliás, em quase qualquer tempo e quase qualquer lugar.”
Antonio Carlos Miguel, crítico de música, também compara os tempos atuais com o passado ao comentar a afirmação de Motta. “Não vejo esses números de forma negativa. Esse percentual não é um “privilégio” dos tempos atuais. O que acontece é que, muitas vezes, só lembramos de coisas boas do passado. Mas, mesmo nos gloriosos anos 1960, no auge dos festivais competitivos, é possível que 90% não prestassem.” Ele diz que “há muita coisa boa nesses 10% de hoje” e conta que o Prêmio de Música deste ano recebeu 600 discos. “Se 60 deles forem bons, já é um feito notável.”
Em sua palestra, Nelson Motta apimentou mais a polêmica ao dizer que quem se propõe a fazer música no Brasil hoje compete com músicos estrangeiros. “Outra besteira”, afirma Lazarini, complementando que “aparece quem paga e ele bem sabe que custa caro. Estamos na era do conteúdo, na qual as pessoas vão escolher o que ouvir e descartar ou conservar a seu bel prazer o que é lixo ou bom.” Jamari França aponta uma direção para a solução do problema de os músicos não alcançarem os ouvidos dos brasileiros. “Cabe a formadores de opinião do setor musical batalhar para que este quadro se reverta, mesmo que, a exemplo de Dom Quixote, estejamos investindo contra moinhos de vento.”
Caro leitor,
Qual a sua opinião sobre a declaração de Nelson Motta?
Você concorda ou discorda dospontos expostos pelos entrevistados?
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“Festa Infinita – O entorpecente dos mundos das raves“, de Tomás Chiaverini
“Superclasse“, de David Rothkopf
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