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Clóvis Marques

Nosso 'produto musical'

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O grande público brasileiro está musicalmente condicionado à mesmice? A quem interessa o produto musical difundido pelos meios de comunicação? Em nome das liberdades do mercado, será que estamos abrindo mão de nossas identidades culturais, da competitividade nacional e sobretudo do prazer e do poder libertador da diferença e da curiosidade? São perguntas que perpassam a reflexão que a compositora Silvia de Lucca desenvolve há anos em torno de uma saudável indignação com determinado estado de coisas: a estandardização da difusão comercial, para as massas, de um repertório limitado de gêneros, estilos e tendências designados comumente sob a etiqueta 'pop'; e as falácias de que vivemos num mundo aural/sonoro/musical múltiplo, diversificado e aberto, e de que existe uma livre circulação de cultura musical popular muito rica e variada que se contrapõe a horizontes elitistas (outros) que o povo não escolhe.

Minha atenção para a questão foi atraída pelo artigo O Produto musical transmitido no Brasil publicado por De Lucca no número 24 (dezembro de 2006) da revista 'Brasiliana', da Academia Brasileira de Música. Leitura recomendável e imperdível para quem sabe que, por antipática ou elitista, justamente, que pareça, essa preocupação reflete um estado de coisas muito concreto que tende a ser considerado natural, livre, leve e solto, mas na realidade representa um tacão comercial perante o qual a cidadania e o Estado parecem ter renunciado a qualquer vontade.

A militância – é esta a palavra – de Silvia de Lucca quer conduzir justamente a uma organização e mobilização, primeiro, da sociedade civil, para posterior convencimento dos eleitos. Em 2002, já, ela apresentou no Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade de São Paulo uma dissertação de mestrado intitulada O produto musical nas rádios brasileiras e aspectos de sua influência – Um panorama atual paulistano, dissecando o material musical veiculado (…) pelas rádios da cidade de São Paulo e imediações, como exemplo de limitação e padronização impostos pela indústria cultural.

Há alguns anos, Silvia de Lucca escreve uma coluna em torno dessas e outras questões do fazer e do fruir musical – do sintoma musical nacional – no site www.lucianopires.com.br Seus arrazoados podem dar a impressão de uma reação algo paranóica. Afinal, dirão os céticos, trata-se apenas de música, da liberdade que cada um tem de ouvir o que queira, e não se pode negar que a oferta musical, ainda mais com o suporte da Internet, nunca foi tão grande e variada… etc.

Mas os elementos arrolados por ela no artigo em 'Brasiliana' são patentes: repertório na verdade limitado, homogêneo e repetitivo; falsa sensação de escuta musical livre, mascarando aos ouvidos leigos o embotamento sensorial, perceptivo, intelectual e comportamental via repetição da mesma estrutura e da mesma essência a inexperiência sonora e a falta de parâmetros por falta de diversificação das oportunidades levando, no universo da música vista como entretenimento, a um consumir sem pensar e a um comprar compulsivo; a sugestão, pela mídia, de que o gosto ou preferência pelo que é tido simplesmente como 'diferente' conota (…) inadaptação e a omissão de um sistema educativo exclusivamente pragmático, para a sustentação econômica da nação, na premissa de que a música é atividade fútil, supérflua e, por conseguinte, elitista. Silvia de Lucca respondeu a algumas perguntas para Opinião e Notícia:

– A maioria das pessoas provavelmente considera que a oferta musical nos meios eletrônicos é farta e variada. Mas você identifica estandardização e repetição. Como ela se caracteriza?

Silvia de Lucca: Somente os ouvintes cujo referencial musical está limitado à programação habitual da maior parte das nossas rádios e TVs (canais abertos) – e aí estamos falando da maioria de nossa população – é que podem considerar a difusão desses veículos como farta e variada. Além de não oferecerem outros parâmetros, alguns desses veículos têm sintomaticamente como mote a afirmativa de que apresentam músicas variadas, ou seja, é uma estratégia importante de marketing, mas uma propaganda enganosa. Quando constatamos que, entre as 48 estações de rádio de São Paulo e imediações que analisei – incluindo as AM, FM, comerciais, educativas, religiosas, comunitárias e piratas –, existe uma forte inclinação estatística para determinados padrões, estamos falando em grande limitação.

– Apresente um pouco os 'fatos' neste sentido, constatados na pesquisa para sua dissertação e na observação que vem desenvolvendo ao longo desses anos.

S. L.: Só para citar três exemplos entre os 25 critérios que orientaram o meu trabalho: Duração: 97% das músicas que gravei têm entre 2' e 6'. A limitada duração entre 3'30 e 4'30 corresponde a 54%. No cômputo geral, a média é de 4'20. O fato é que cada região, etnia, cultura, compositor e intérprete tem o seu tempo próprio de duração, necessário, habitual, visceral. É fácil supor que os mais de 280 países do planeta não encaixam suas variadas expressões musicais necessariamente dentro desses compartimentos estanques (que podem ser chamados de faixas de disco). Compasso: Nenhuma das músicas analisadas apresentou pulsação ternária (mais rapidamente identificada nas valsas). Se imaginarmos que geralmente as músicas ocidentais apresentam pulsações binárias, ternárias e quaternárias, o fato de um terço desses compassos mais comuns não serem representados de modo algum é muito significativo.Idioma do texto: Somente 2,2% das músicas analisadas não têm texto, ou seja, são músicas instrumentais. Isto explicaria em parte por que o grande público pede que se cante uma música (como se todas pudessem ser assim representadas) ou pergunta surpreso: Não tem letra? Como assim???!!!

– Que padrões de empobrecimento musical ou pura e simplesmente auditivos e acústicos você tem constatado na produção sonora consumida em maiores proporções pela população?

S. L.: Os três exemplos citados (duração, compasso e idioma do texto) podem sugerir um empobrecimento somente quantitativo, mas as limitações e interferências comandadas pelas leis de mercado vão além. Não raro, e com muita habilidade, elas ocorrem de forma mais ou menos sutil, e talvez por isso se mantenham e provoquem efeitos tão intensos também no que podemos chamar genericamente de qualidade. Logo, o que acarretaria prejuízos dessa ordem normalmente não se dá em esferas macro, como por exemplo na limitação dos gêneros musicais mais comuns atualmente (MPB, rock, sertanejo, samba, pagode, axé, forró, reggae e rap), mas sim, e principalmente, nos arranjos do que está sendo difundido. É nos arranjos que a grande diferença se faz, inconsciente para a grande parte dos ouvintes. Para estes, o termo é absolutamente desconhecido, tanto que nenhum arranjador foi citado em todas as rádios que analisei. E como entender esse desconhecimento? Simplesmente porque, via de regra, arranjos não tratam de melodia e texto, e assim não tratam da figura mitificada do cantor, nem de seu carisma e aparência física. Arranjo compreende, porém, todos os outros elementos musicais como harmonia, contraponto, instrumentação, etc., só identificáveis pelos familiarizados. Por meio desse enfoque no papel do arranjo é que se poderia justificar, por exemplo, que há sambistas e há sambistas, enfraquecendo o argumento de que determinados gêneros são os únicos vilões de um considerado empobrecimento. Por outro lado, podemos alegar que há determinados gêneros musicais que favorecem o aparecimento de um arranjador tipo 'linha de montagem', que dá o mesmo tratamento (normalmente o tempero pop), a tudo que lhe aparece à frente. Podemos afirmar, inclusive, que há gêneros que indicam ter nascido com a finalidade de ser estandardizados, podendo assim abdicar da função do arranjador (portanto, uma produção menos onerosa), uma vez que este trabalho supõe o mínimo de criatividade.

– Fale um pouco do caráter 'formador' da presença maciça dos meios eletrônicos na vida dos brasileiros, sobretudo talvez urbanos, desde a mais tenra idade. Por exemplo, como essa presença, que se pode dizer avassaladora, ocupa um vazio deixado pela ausência de outras formas mais enriquecedoras de formação.

S. L.: No que se refere ao caráter educativo, podemos considerar três aspectos – modelo, repetição e aceitação social – como metodológicos, na seguinte síntese: só podemos conhecer o que nos é apresentado ou aquilo de que temos oportunidade de nos aproximar e relacionar. Só podemos usufruir, apreciar, habituarmo-nos e desejar o que nos é familiar, e para isso é preciso vivenciar a experiência repetidas vezes. E só seremos estimulados a continuar nos envolvendo com algo se nos sentirmos aceitos e valorizados por isso. É fácil concluir que – diferente da maior parte das nossas escolas, que não apresentam repertório musical diferenciado, e se o apresentam não repetem, e se repetem não seduzem – a grande mídia se especializou muito bem nesses três aspectos, ao apresentar o repertório musical que interessa ao mercado, ao repetir esse repertório à exaustão e ao apregoar quão adequado ele é para o seu ouvinte.

– Do ponto de vista da sua sensibilidade e experiência pessoais, o que alguém 'formado' no empobrecimento das linguagens, especialmente musicais, está perdendo? Quais os prazeres e horizontes que você gostaria de compartilhar?

S. L.: Novamente procuro enfatizar, por meio de um exemplo, como o processo 'formativo' ocorre de modo sutil. Valho-me de uma prática muito interessante que envolveu cerca de 74% da amostra que analisei: o locutor da rádio ou algum artista convidado (normalmente um cantor) faz interferências exatamente durante a transmissão da música: verbalizações várias, vinhetas, slogans, cantarolas, efeitos sonoros especiais. No entanto, o que há de mais sintomático a ser observado nisso é que elas ocorrem sempre junto à parte instrumental, e nunca junto à melodia que carrega o texto. Isto, que parece algo inofensivo, é suficiente para que o grande público estabeleça uma rígida hierarquia de valores entre a execução instrumental e a vocal, ou seja, entre o instrumentista e o cantor, nos seguintes moldes: o que o primeiro faz não é importante, pode-se inclusive interferir, ignorar, mas quando o segundo se coloca, atenção, silêncio, ora de atenção e respeito. Este exemplo serve para mostrar o quanto o ouvinte habituado a essa prática perde por não ouvir e assim não considerar o todo que envolve o canto, mas que também é música.

– Como encaminhar na escola vias de formação musical?

S. L.: Eu não consigo imaginar nenhuma forma de educação, ensino e informação musical nos dias de hoje que não considere a diversidade estilística que de fato existe como fruto de toda e qualquer expressão artística em qualquer parte do mundo; diversidade, aliás, fácil de ser difundida pelo avanço tecnológico dos últimos anos. Mas isto só é possível através da consciência da existência, da aproximação e da familiaridade com uma parte de tudo que há e houve enquanto música, para que cada um tenha chance de captar aqui, ali e acolá um tipo de lógica artístico-cultural que lhe faça sentido, que possa aproveitá-la a seu modo, a seu gosto, quando e como lhe convier.

Todas as vezes que minha sobrinha vem à minha casa, não se esquece de pedir para usar minha maravilhosa caixa de lápis de cor Caran d´Ache com 80 tonalidades distintas. Embora desde novinha goste especialmente da cor rosa e algumas outras, ela nunca deixa de usar outras cores quando as tem à disposição. Dependendo do dia e do desenho, usa algumas determinadas no momento. Diferente disto, os ouvintes – principalmente crianças e jovens – estão oferecendo cada vez maior resistência àquilo a que não estão acostumados, para não dizer viciados. É normal que se interessem especialmente pelo que parece imbuído de um tipo de valor que lhes confere status, para que se sintam aceitos e valorizados pelos seus pares e por si mesmos, conforme indicou a grande mídia ao relacionar beleza, riqueza, modernidade, liberdade, força, dinamismo, etc. com o produto musical que interessa para movimentar o mercado segundo os moldes atuais.

Mas essa resistência pode ser quebrada de algumas maneiras especiais, e neste sentido eu aponto com ênfase o papel do educador consciente, preparado, apaixonado, curioso. Todos sabemos que o aspecto humano na relação aluno-professor é capaz de ocasionar verdadeiros milagres. Quem não viveu a experiência de passar a gostar de uma matéria por causa unicamente do professor, ou vice-versa? E além do aspecto humano, do exemplo, da sinceridade e honestidade de intenção, existem os métodos. Há melhores e piores. Simplesmente colocar um CD diferente para tocar em aula e esperar com isso que os alunos digam que maravilha é um ledo engano. O imaginário do disco está repleto de considerações pré-concebidas muito bem trabalhadas pelo marketing. É preciso ir muito além dessa prática, o que requer força de vontade, ação, esforço, imaginação, coragem, etc., e às vezes recursos financeiros, como a compra de instrumentos musicais. É um imenso desafio preparar adequadamente os profissionais para voltarmos a ter no Brasil o ensino de música nas escolas, contar com educadores capazes de atender dentro do possível a nossas tantas necessidades sócio-educativas-culturais. É a maior arma que teríamos para lutar contra os abusos da indústria cultural.

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