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Música Clássica

O Trovador em quadrinhos

Veja nossa coluna semanal de Música Clássica com Clóvis Marques

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As emoções básicas e a música sensacional do Trovador, de Verdi, voltaram ao palco do Teatro Municipal do Rio com um plantel de vozes de belo formato e uma produção caprichosa que honram a reinauguração, sem transcender as limitações da casa.

Ensaio da ópera "Trovador" (Fonte: Destak)

Ensaio da ópera "Trovador" (Fonte: Destak)

A estreia neste sábado, dia 29, ainda traía a necessidade de alguns ajustes na carpintaria teatral, o que se refletiu num ritmo um pouco mais dolente que o desejável no primeiro ato, por exemplo. O maestro Silvio Viegas tampouco empolgou a orquestra com a vibração e o matizamento requeridos pela partitura.

A concepção cênica de Bia Lessa se beneficia de uma audácia conceitual que não destoa do fundo melodramático da obra. Muito atenta à beleza visual (e nisso ajudada em especial pelos figurinos de Kalma Murtinho), optando por uma frontalidade algo uniforme dos elementos, Lessa salpicou o palco de cores primárias como os sentimentos do drama – que começa com um bebê atirado na fogueira e acaba com a morte por envenenamento de uma apaixonada – e sapecou legendas gritantes que puxam a peripécia para a esfera mental dos quadrinhos.

Mas em meio às insistentes sugestões simbólicas desse esquemático storyboard faltou uma encenação propriamente – e sobretudo uma direção dos cantores. Em sua semi-imobilidade, além disso, o coro, incumbido aqui e ali de representações gestuais algo naïves, contradizia a sanguínea volubilidade das emoções de que é presa a multidão.

Essa placidez algo chapada tirou um bocado do elã e empuxo do drama e deixou os cantores na mão. Entre eles, o barítono brasileiro Rodrigo Esteves (o conde de Luna) foi para mim a grata revelação. Voz verdiana natural e bem posta, timbre atraente e messa di voce generosa sem ter um volume espetacular, ele canta como um grande, num diapasão de autonomia expressiva e intimidade com a música que lhe permitiu, por exemplo, ornamentar sua ária no primeiro ato.

Chiara Taigi (Leonora) tem na voz um metal de italianidade encantadora e não se exime de colori-lo com o vigor e o ímpeto requeridos, justamente, de um soprano lírico spinto. Tentou dar vida ao personagem, inclusive modulando seu registro médio e o grave, generosos e variados, mas com uma certa instabilidade tímbrica que já se mostra um pouco ingrata, às vezes, no agudo, nunca propriamente flutuante.

O vibrato da mezzo russa Anna Smirnova (Azucena), parecendo esquivar o centro das notas, comprometeu um pouco a beleza de várias zonas da sua voz e o empenho evidente da interpretação. No papel de Manrico, o tenor coreano Alfred Kim, com um timbre de indistinção e anonimato que eu arriscaria dizer orientais, uma emissão dura e uniforme, projeta com heroísmo estentóreo avesso à nuance.

***

Dias antes, a reinauguração do Teatro Municipal atraíra o presidente da República, o governador, o prefeito, patronos e patrocinadores, o mundo artístico e social. Da justificada celebração, ante a cara (R$ 75 milhões), necessária e caprichosíssima recuperação de uma jóia tão importante para nós, ficaram-me dois comentários do presidente Lula. O primeiro: “Não sei quanto custa manter um teatro como este…”

Circularam informações de que a secretária de Cultura do estado, Adriana Rattes, se empenha em incluir no seu orçamento uma verba com esta finalidade – o que aparentemente indica que ela ainda não é prevista! Taí uma boa oportunidade de ficarmos sabendo quanto custa a dita manutenção e, sobretudo, de cuidar dela.

O outro comentário de Lula era mais uma manifestação da habitual necessidade distorcida dos políticos brasileiros de botar alguma culpa em alguém – de outro partido, claro: ele fez alusão a algo como um “criminoso desleixo” de anteriores administrações (sempre elas) no trato do Teatro Municipal.

So, what? Não é de culpados que precisamos, mas de cuidados. Pior que o desleixo com a carcaça física, eu diria, é o desprezo pelas necessidades artísticas, que aparentemente ainda não foi superado.

Tomara que a reforma do corpo imbua os responsáveis do desejo de também reformar a alma (será que os diretores das grandes empresas patrocinadoras da reforma têm ideia do que é programar uma temporada de ópera?).

Tomara que o trabalho feito não seja perdido no tempo.

Tomara que o Teatro Municipal do Rio de Janeiro possa dispor de uma gestão artística independente, a longo prazo, de ingerências políticas e emperramentos burocráticos e corporativistas. E que possa dispor de grana!

Tomara que possamos ter oito ou dez óperas por ano planejadas com três ou quatro anos de antecedência e elencos à altura dessa arte transcendente…

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A acústica do Municipal do Rio

Teatro Municipal do Rio após reabertura

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  1. Jesuina Noronha Passaroto disse:

    Prezado Clóvis Marques
    Ficarei restrita a comentar sobre seu penúltimo e último parágrafos de seu artigo, pois todos os outros são de livre gosto de cada um, e como se diz, gosto não se discute, lamenta-se.
    Quanto os últimos parágrafos, tenho que fazer uma algumas correções:
    A gestão artística independente poderia ser cobrada no sentido de termos um diretor artístico único e exclusivo do TM, um diretor que valorizasse mais este templo e não um diretor que é diretor de outra orquestra e marca um concerto desta outra orquestra no mesmo dia e no mesmo horário da estréia da ópera da casa onde ele trabalha e é pago pelo governo do estado, desprestigiando totalmente o evento da reabertura.
    Concordo quando voce fala de ter uma gestão menos corporativista, infelizmente este corporativismo não vem dos servidores da casa, vem do nosso diretor artístico para com outra orquestra.
    As ingerências políticas e burocráticas costumam acontecer quando não se tem o devido planejamento com bastante antecedência em relação às temporadas, novamente nada ligado ao servidor que não possui autoridade para fazer qualquer tipo de programação, novamente cabe a competência e a vontade dos diretores.
    Deixo uma sugestão de pesquisa nos idos de 1998 a 2001, procure buscar nestas datas o quantitativo de programação apresentado pelo TM, não só de ópera mas de ballets e concertos.
    Enquanto não entenderem, que a programação própria do Theatro Municipal do Rio de Janeiro não pode entrar nos espaços das programações de aluguel, teremos uma temporada pobre de óperas e ballets.
    Mais uma vez, depende única e exclusivamente de seus diretores.
    Agora só um aparte sobre a estréia da ópera, é muito curiosa a divergência das opiniões, para mim, que estava tocando e para o púlico que assistiu a récita de abertura, me pareceu que tanto os solistas como o coro, a orquestra e principalmente o maestro foram super aplaudidos, nós músicos gostamos muito da récita em questão, talvez a falta de empolgação sentida pelo senhor tenha sido causado por problemas de acústica ainda não resolvidos pelas modificações no fosso da orquestra. Tem sido reclamação geral de quem vai assistir os espetáculos.
    Um grande abraço.

  2. David Ramos disse:

    A montagem do Trovador em cartaz no Teatro Municipal do Rio de Janeiro é um desastre, uma das piores da história recente do teatro. Só não é um desastre total porque cantores, coro e orquestra dão conta de seu papel. Cenários, figurinos e direção teatral descaracterizam a ópera tornam o espetáculo uma comédia de erros.

  3. Laura Rónai disse:

    É muito bom a gente constatar (mais uma vez!) que o Rio de Janeiro pode se gabar de ter um crítico de música competente, culto e apaixonado por música. A sua crítica faz exatamente o que é necessário (e difícil!): dá uma idéia clara do que é a produção, quais seus méritos e seus defeitos e se vale ou não a pena sair de casa para ver o espetáculo. Justo o que a gente (público) precisa. E aos artistas, indica — sem papas na língua, mas também sem acidez ou agressividade — aquilo que falta aperfeiçoar (Justo o que a gente (músicos) precisa!

  4. Markut disse:

    De todo esse comentário do Clovis resalta como ainda esquálida a nossa atividade cultural, no que depender destes nossos gestores petralhas.
    A melancólica frequência com que Clovis usa a palavra “tomara” pinta bem o panorama atual, onde, infelizmente, prevalecem o corporativismo e a pobreza mental dessa gente. Enfim, como diz Clovis, falta a alma vibrante e necessária para sentir que temos um nivel de primeiro mundo, nas nossas atividades artísticas.
    E as que ocorrem , ocorrem apesar de… e não graças a …