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Música Clássica

Que ensino musical?

Está na mesa do presidente da República, para sanção, a lei promulgada no Congresso restabelecendo o ensino de música nas escolas brasileiras. Como será este ensino?

Depois da campanha capitaneada pelo Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música com o apoio de dezenas de instituições e milhares de pessoas que assinaram um manifesto, o restabelecimento do ensino musical no nível fundamental foi aprovado sucessivamente pelo Senado, em 2007, e pela Câmara dos Deputados, este ano.

É uma aspiração que se poderia dizer óbvia. Os poderes de formação, sensibilização e enriquecimento pessoal da música pertencem à esfera do senso comum. Sua presença na vida de todos e de cada um fala por si mesma.

A sanção do presidente Lula não deve demorar mais que poucas semanas, na avaliação dos envolvidos no processo. Mas agora virá uma etapa delicada, algo complicada e provavelmente prolongada: o debate para saber como será o ensino de música nas escolas.

Ele já vinha sendo encaminhado nas etapas anteriores, e agora deveria tender para a formulação de programas, idéias, currículos, formatos, alternativas. O ministro da Educação, Fernando Haddad, propôs-se em abril a criar uma comissão mista com esta finalidade, mas aparentemente não o fez.

Os setores da sociedade civil voltados para a questão intensificam sua mobilização. As correntes de pensamento são as mais variadas nessa área. Não faltam educadores, profissionais e especialistas acadêmicos que se aprofundam no tema. E tampouco faltam, ao que parece, dúvidas, divergências e perplexidades.

O ensino de música na escola fundamental deve seguir práticas já conhecidas como a do canto orfeônico? Cabe passar aos instrumentos? Quem serão os profissionais incumbidos de transmiti-lo? Como prepará-los? Que músicas utilizar? Como dar o devido espaço à diversidade? Trata-se apenas de educar a escuta ou de introduzir mais nas práticas?

Uma pesquisa aberta ao público em geral é proposta no site do Grupo de Articulação Parlamentar Pró-Música: “Como acha que deve ser a educação musical no Brasil?”.

Com a ajuda de profissionais e especialistas do ramo, elaborei um questionário para contribuir para o esclarecimento dessas questões e contrapor pontos de vista e tendências. A seguir, as respostas da professora Enny Parejo, doutora em Educação pela PUC de São Paulo, bacharel em piano pela Faculdade Paulista de Arte e especialista em Pedagogia Musical, autora de Musicalizar – uma proposta para vivência dos elementos musicais (São Paulo, 1987) e Estorinhas para ouvir – Aprendendo a escutar música (São Paulo, 2007); e do professor e maestro Nicolau Martins de Oliveira, idealizador e diretor do projeto “Volta Redonda Cidade da Música”, fundado em 1974, e que hoje beneficia 4 mil alunos de 26 escolas da rede municipal desta cidade do estado do Rio de Janeiro.

Que acha da maneira como vem sendo conduzida a questão da re-introdução do ensino de música nas escolas? Como levar adiante o debate sobre a maneira como será implantado?

Enny.: Penso que essa questão foi conduzida de forma pouco refletida e impetuosa. Se tivesse havido um diagnóstico realista da situação da música no Brasil, se perceberia que a revitalização do ensino médio de música em conservatórios ou escolas livres seria a solução, tanto para elevar o nível cultural e musical da população como para resolver a questão da formação de professores para atuar com música na rede pública. Essa formação poderia se dar através dos cursos técnicos — vamos dizer assim uma espécie de “curso normal de pedagogia musical”. Penso também que a retirada do curso normal de cena foi um erro; esse curso de nível médio cumpria bem sua finalidade de formar professores alfabetizadores nas disciplinas iniciais da educação geral.

Nicolau: Não há como pensar no ensino de música nas escolas, sem, primeiramente, entender os elementos que constituem a música. A música é constituída por três elementos: melodia, ritmo e harmonia. Musicalizar é vivenciar estes três elementos. Quando a criança chega à escola, já traz de casa uma vivência familiar que, entre outras habilidades, desenvolveu nela a fala. A professora dará continuidade com a alfabetização. Assim também deveria ser na musicalização. Para a criança iniciar o estudo de música, tem que ser antes musicalizada. Tenho conhecimento de que na Suíça a criança é musicalizada antes de ser iniciada na alfabetização. Para dar continuidade ao debate sobre a implantação do ensino de música nas escolas, é necessário realizar um levantamento sobre a existência de trabalhos sérios e bem sucedidos nessa área que estejam sendo desenvolvidos em escolas no Brasil. A partir das experiências apresentadas, abrir um amplo debate, estabelecendo aquilo que é viável para ser implantado. Mas não devemos incorrer no erro de confundir o trabalho de música dentro da escola com o realizado nas escolas de música. São dois trabalhos bem distintos.

Estabelecida a obrigação do Estado de viabilizar o ensino de música, ela deve ser estendida a todos os alunos? Ou deveria haver para cada aluno a possibilidade de optar?

Enny: O estado é obrigado a cuidar da educação e da formação da população, e portanto, também da formação musical, que faz parte dessa formação integral do ser humano. Caso o aluno pudesse optar pelo ensino de música ou de artes, deveria também poder optar pelo ensino de matemática, português, ciências ou de qualquer outra disciplina imposta no currículo. A formação, como vimos, não é uma opção, é uma obrigatoriedade para qualquer criança, no tipo de cultura na qual estamos inseridos.

Nicolau: Por sua importância, a musicalização deveria abranger todas as crianças, iniciando-se na mais tenra idade. Mas o ensino de música nunca deveria ser de caráter obrigatório. Deve ser dado ao aluno o direito de optar. Através desse aluno voluntário, envolve-se a família e a comunidade. A música deveria ser uma atividade complementar no currículo, e não uma disciplina obrigatória. Engana-se quem pensa que introduzindo música na matriz curricular estará formando músico, estará fazendo música, estará formando público e estará fazendo bem à música.

Considerando-se a diversidade do panorama musical no país e no mundo, como contemplar nos currículos a questão da escolha dos repertórios sobre os quais trabalhar?

Enny: A melhor forma de fazer isto é escutando as pessoas que estão na base: o professor, os alunos, as famílias, descobrir como pensam, que significados atribuem às tradições, quais são seus valores, e, a partir disso, conceber uma estrutura curricular flexível que possa incorporar as manifestações musicais das diversas regiões do país. A solução é muito antiga: democracia e dar voz a todos no processo.

Nicolau: Todo material para repertório escolar tem que ser produzido de acordo com a metodologia adotada, o que ainda não ocorreu no Brasil, no que se refere ao ensino de música na escola. A definição da metodologia e a criação do material (repertório), de possível aquisição para todos, antecede ao trabalho que será desenvolvido nas escolas.

Como tratar a questão do ensino, que é oneroso, de instrumentos musicais?

Enny: Antes haverá que perguntar-se: que trabalho com instrumentos? Seria um instrumento que o aluno tocaria para seu prazer pessoal e de forma individual, seria uma prática coletiva, e antes ainda, quais são as condições das escolas de abrigar esse trabalho? Penso que a educação musical na escola deve partir do que é intrínseco ao ser humano: a escuta, a voz, o corpo e a criatividade.

Nicolau: Reafirmo a necessidade de uma prévia definição de objetivos e fins no tocante ao ensino de instrumentos musicais. Só a partir dessa definição é possível estabelecer prioridades e vencer os obstáculos, inclusive o financeiro. Quero crer que o governo federal, ao sancionar uma alteração desta envergadura na Lei 9394/06, oferecerá também os meios para a sua implantação e manutenção.

Sobre o ensino da grafia musical, como justificar sua importância ou sua exclusão?

Enny: Isso depende de muitas coisas, na ótica de formação humana que defendo para a música na escola pública. Talvez aprender a escrever música nunca chegasse a ser necessário, mas, caso chegássemos a isso, existem formas lúdicas e criativas para fazê-lo de forma rápida e eficiente, não mecanicista, sem aborrecer as crianças. Em todo caso, escrever música só faz sentido depois de vivências musicais muito ricas e duradouras. A meu ver seria uma das últimas coisas a se fazer.

Nicolau: A grafia musical é relevante para quem quer estudar música, tornando-se ou não profissional ou para tocar um instrumento, porém, para a musicalização, ela não é indispensável.

Quem serão os profissionais incumbidos do ensino de música? Músicos (práticos ou acadêmicos; de qual especialidade)? Didatas (unicamente com especialidade em “educação musical”)?

Enny: A música pode ser trabalhada pelo professor polivalente de sala de aula, desde que seja devidamente preparado para isso. Atualmente, essa disciplina não é contemplada de forma séria na formação inicial superior, nos cursos de pedagogia e no normal superior. Isto deveria ser incorporado às práticas. No caso da música como disciplina curricular, precisamente a questão pela qual se luta na atualidade, esse professor deveria ser um especialista da área de música, também devidamente preparado para isso. O ensino específico da música é coisa para profissionais, ainda que sejam de nível técnico, assim como o ensino da matemática, do português, da história e de qualquer outra disciplina.

Nicolau: O projeto de lei nº 330/06 já definiu quem serão os profissionais incumbidos do ensino de música, pois prevê no § 7º do artigo 26 que “o ensino da música será ministrado por professores com formação específica na área”, estabelecendo, desta forma, o profissional que poderá trabalhar com o ensino de música na escola. Embora a definição seja feita de forma lacônica, ao menos não permite que leigos ministrem as aulas.

Que tipo de formação musical propor, considerando-se sua inserção na formação e desenvolvimento humanos como um todo?

Enny: A função da música na escola pode ser muito ampla e de muita aplicabilidade na melhoria das condições de vida da população e de sustentabilidade do planeta. Através da música, é possível trabalhar valores como o silêncio, a contemplação, o auto-conhecimento; é possível conscientizar sobre a preservação ambiental; é possível formar seres humanos sensíveis, com demandas estéticas diferenciadas. Tudo isto seria um enorme ganho para todos nós. Ocorre que esse caminho é mais difícil, por isso mesmo dificilmente será o escolhido. É o caminho da consciência.

Nicolau: A música é um veículo na formação do ser humano. A opção da criança pela profissionalização, quando acontece, é uma conseqüência do trabalho realizado com ela, mas não deve ser o objetivo inicial. A finalidade deveria ser, antes de tudo, desenvolver o ser humano na sua totalidade. Musicalizar a criança significa facilitar sua vida em vários aspectos, proporcionando-lhe uma melhor percepção e utilização de todos os seus sentidos. Ao expandir os seus limites através da música, a criança estará mais bem preparada para vencer os obstáculos que surgirem no decorrer de sua vida.

Veja aqui aprogramação completa para o Rio de Janeiro e São Paulo.

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4 Opiniões

  1. Arlon Borges disse:

    Pelo jeito ninguém se entende. Cada um tem uma opinião, essa lei é capaz de acabar não "pegando", como soe acontecer em nosso país. Ou então vai virar uma salada mista, cada professor faz o que quer. Não posso concordar com o "especialista" acima que fala qué é preciso consultar a sociedade sobre o que é para ensinar. No Rio vai prevalecer o sambão vagabundo tipo Zeca Pagodinho, em áreas de interior a música sertaneja barata, no nordeste o forró. Isso é cultura? Quando eu era jovem, nos anos 50, ainda peguei o ensino obrigatório de música. A matéria se chamava "canto orfeônico", mas na verdade é o que se chama no ensino musical "teoria e solfejo". Ou seja, aprender a ler música. Era chatíssimo, inútil e difícil. Em 4 anos, ninguém aprendeu nada.

    Embora seja amante da música, acho que nosso ensino é tão deficiente que era preciso concentrar os esforços em ler e escrever, matemática e um pouco de história. O resto é supérfluo.

  2. Armando disse:

    Achei bastante informativa a matéria, e sem duvida que a inclusão da musica no currículo escolar, em todos os níveis, é de vital importância para a formação dos nossos jovens.
    Ajudaria, inclusive, em canalizar a atenção deles em uma atividade mais saudável (assim como o esporte, se fosse mais valorizado), estimulando a disciplina, a sensibilidade, etc., e afastando-os de outros estímulos perniciosos, como video-games, o envolvimento com drogas, etc.

  3. Ivo Roberto Vincenzi disse:

    Na minha opinião a escola deberia realizar uma base musical preparatoria, com desenvolvimento de coros, iniciação músical com flauta, desenvolver apresentações didáticas nas escolas como eu trabalho, etc. Tudo isso incentivando aos alunos ao estúdo da música seriamente, então assim realizar um nexo com os conservatorios que cumplem o trabalho de ensenhar música.

  4. Jorge Wellington disse:

    .O ensino de musica é muito úil, entretanto, o que vejo de aulas que só ensinam o básico e ficam por isso mesmo.
    .Em relação aos alunos que apresentarem alguma habilidade- nada extraordinário mas não menos importante- saberá o professor aproveitar para um bom desenvolvimento do mesmo ou terá para onde encaminhar?
    .O que vemos de aulas que não passam do básico e aqueles que se despertam para algo ou fica por isso mesmo ou se viram sozinhos.

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