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A pianista Sonia Rubinsky voltou recentemente a mostrar suas credenciais villa-lobianas em recital no Rio de Janeiro, mas não ficou por aí. Ela nos deu também, de Ravel, um Concerto em sol ao mesmo tempo fluido e muscular, que integrou no sábado passado um dos melhores momentos do imaginoso ciclo “A Paris de Villa-Lobos” programado pela Sala Cecília Meireles.
No contexto do cinquentenário de morte do grande compositor brasileiro, a direção da Sala teve a ideia de cotejar sua música com a de outros criadores que viveram em Paris na primeira metade do século XX: Poulenc, Stravinsky, Gershwin, Roussel… E o esfuziante concerto de sábado foi todo ele de música colorística, quando não descritiva ou narrativa. Era o caso da Bachianas brasileiras nº 2, em que a Orquestra Petrobras Sinfônica, regida por Ricardo Rocha, mostrou-se particularmente precisa e expressiva.
Do saxofone de Villa, de suas fusões tímbricas inauditas, da melancolia funda do “Canto do capadócio”, do motorismo irresistível do “Trenzinho do caipira” passaríamos, na outra extremidade do concerto, à tuba (para citar outro exemplo de cor orquestral bizarra) que desenha um solo inesperado quase no fim da sacolejante e cantante suíte do Americano em Paris, de George Gershwin.
Rocha e a Opes apresentaram como cereja no alto do bolo a estreia de Biguás, breve poema sinfônico em que Ricardo Tacuchian descreve o vaivém desses pássaros que povoam a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio, com imaginação pictórica e sensorial, numa suave ambientação debussista que chega a evocar figurativamente, em dado momento, o adejar de asas.
O entendimento entre a orquestra e Rubinsky no Concerto de Ravel foi de grande delicadeza e felicidade, nos ritmos, dinâmicas e andamentos.
Rubinsky já é um nome lendário no pianismo brasileiro. Radicada na França, depois de passagens por Israel e Nova York, ela acaba de ganhar o prêmio Grammy Latino pelo oitavo e último volume de sua gravação integral da obra para piano solo de Villa-Lobos (Naxos).
No último dia 14, na mesma Cecília Meireles, ela dera um recital Villa-Lobos de impressionante força de concentração e expressão, começando com a New York Skyline Melody e culminando com o impressionante brutalismo do Rudepoema, obra monumental e difícil de que ela já dera uma versão antológica no mesmo festival há… doze anos atrás.
Desta vez, pudemos ouvir também sua rica paleta e o vigor de seu pianismo em uma versão irretocável da Bachianas brasileiras nº 4, na envolvente imantação nacional de algumas Cirandas (entre elas a notável e pouco conhecida “O pintor de Cannahy”) e na Homenagem a Chopin composta em 1949, no centenário da morte do compositor polonês.
A seguir, Sonia Rubinsky responde a nossas perguntas em sua passagem pelo Brasil.
Você dedicou anos ao aprofundamento da obra para piano de Villa-Lobos. Qual a mensagem dessa música?
Sonia Rubinsky: Villa-Lobos revela um profundo respeito ao que é nosso: ao folclore, às cantigas de roda, às nossas danças e ritmos, independentemente se são de origem africana, ameríndia, portuguesa. Ele utiliza todos esses elementos numa fusão, dando ao Brasil uma imagem sonora, com uma linguagem própria do autor. Esta mensagem de autorreconhecimento e autovalorização é extremamente importante e premente hoje.
Villa-Lobos não dominava plenamente o instrumento mas inovou a escrita para piano. Como isto se manifesta?
S. R.: A escrita para piano de Villa-Lobos é complexa. Com simultaneidade de planos sonoros, Villa-Lobos nos dá a impressão de mais de duas mãos tocando. Isto em si já é uma inovação. Adiciono a isto o uso de clusters [acordes de notas juntas], de polirritmia (Prole do Bebê II, Rudepoema), de cores inovadoras no piano, com dinâmicas muito contrastantes que se superpõem, o uso de golpes com a mão fechada (no final do Rudepoema), “pedal points” rítmicos e melódicos, “drone tones”, ostinati minimalistas (Plantio do Caboclo). No plano harmônico , ele inovou com acordes baseados em intervalos de quarta e segundas superpostas, com escalas octatônicas, bitonais, pentatônicas, modais, de tons inteiros. Villa-Lobos chegou até a utilizar efeitos de quarto de tom.
Nos seus recitais, que obras de Villa sente mais comunicativas para o público?
S. R.: O Choros nº 5 é sempre muito cativante, curto e de grande impacto. Já o hipnotizante Rudepoema impressiona por seu virtuosismo e também pela força evocativa da natureza e da alma brasileiras. Mas temos outras obras belíssimas, como Impressões Seresteiras, Poema Singelo, Hommage à Chopin. Mesmo várias peças do Guia Prático, como “Vida formosa”, “Garibaldi foi à missa”, “Nigue ninhas”, “João Cambuête”, “Fui no Itororó” e tantas outras, pela sua ingenuidade atingem o público universalmente. Não posso deixar de mencionar as Bachianas brasileiras nº 4, cujo Prelúdio inicial muitas vezes leva o público às lágrimas.
E as que você reputa mais importantes?
S. R.: Rudepoema para mim é uma das grandes peças do século XX, por sua dimensão, inovação, impacto junto ao público, virtuosismo e força de expressão.
Quais as obras para piano de Villa-Lobos que gostaria de tornar mais conhecidas?
S. R.: As Cirandas. São dezesseis peças de conteúdo folclórico em que as letras e a ambientação de Villa-Lobos contam uma estória dentro de uma estória. Esta semântica as torna particularmente geniais.
Que rumos tem dado a seu repertório ultimamente, depois da gravação da integral Villa-Lobos e dos discos dedicados a Mozart e Scarlatti?
Estou gravando a integral das Canções sem palavras de Mendelssohn. Incluirei também a Sonata opus 6 deste compositor, já precursora do romantismo tardio. Além disso, a gravação das Variações Goldberg de Bach e um disco Schumann são, no momento, os meus horizontes musicais.