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MERCADO MUSICAL

Streaming dita o ritmo do novo mercado fonográfico

Após anos sob o controle das gravadoras, o mercado musical vem se adaptando a um novo jeito de se ouvir música pela internet

Streaming dita o ritmo do novo mercado fonográfico
O mercado digital tem se mostrado responsável pela maior parte das receitas do setor fonográfico (Foto: Flickr)

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Ao longo dos anos, o mercado de produção fonográfica passou por diversas alterações que impactaram diretamente na forma de se fazer e ouvir música. Muitas dessas alterações foram provocadas pelas inovações tecnológicas. Nos dias de hoje, público, artistas e gravadoras vivem um cenário bastante dinâmico e amplo. Mas quem se beneficia diante desse cenário?

A amplitude e dinamização do mercado musical se devem muito à digitalização da música, que nos dias atuais ganha força em serviços de transmissão online de música, o chamado streaming. Esse tipo de serviço vem se popularizando no mundo, e consequentemente no Brasil.

De acordo com um relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), as receitas do mercado global de música gravada em 2015 atingiram US$ 15 bilhões, sendo as vendas na área digital responsáveis por mais da metade do faturamento com música gravada em 19 países. Somente o streaming representa 19% das receitas.

Essa tendência também se reflete no Brasil. Em 2015, as receitas do mercado fonográfico alcançaram R$ 316,5 milhões, sendo a distribuição digital responsável por 61% desse valor, informa a Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD).

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O Spotify oferece um catálogo de mais de 30 milhões de músicas para 100 milhões de pessoas no mundo (Foto: Flickr)

O que é o streaming?

O serviço consiste em uma ferramenta que possibilita ao usuário ouvir música pela internet, sem a necessidade de baixá-la, através de smartphones ou computadores. Dessa forma, não é necessário que o usuário armazene as músicas que deseja ouvir no dispositivo, mas apenas que ele tenha alguma conexão de internet. A partir daí, o usuário ganha acesso a um enorme catálogo, que muitas vezes ultrapassa 30 milhões de músicas.

No Brasil, diversas empresas disponibilizam o serviço. Entre elas está o Spotify, que transmite músicas online para 100 milhões de pessoas no mundo todo. A empresa oferece dois tipos de serviço: um gratuito, em que o usuário não tem acesso a todos os recursos e a transmissão é interrompida com anúncios; e um pago, que cobra uma assinatura mensal e dá acesso a todos os recursos, incluindo o de escolher a ordem em que quer ouvir as músicas. Outras empresas seguem esse modelo pago, como o Apple Music, e o Google Music, mas há também quem ofereça os dois serviços, como o Deezer.

O serviço pago vem ganhando a preferência do consumidor de música brasileiro. Segundo a ABPD, o faturamento dos serviços de streaming por assinatura subiu 192% de 2014 para 2015, representando 35,5% das receitas com música digital.

Mas o que possibilitou ao streaming alcançar esse patamar e qual foi o impacto que isso causou no setor fonográfico? O Opinião e Notícia conversou com Renato Edde, coordenador artístico da Rádio Transamérica do Rio de Janeiro, Anderson Engel, músico e dono do Estúdio Anderson Engel, e os integrantes das bandas Move Over e The Unknowns para traçar um panorama das principais mudanças no mercado musical brasileiro.

Edde destaca o grande avanço tecnológico dos últimos anos e a adesão do público aos smartphones. “O smartphone é o aparelho mais escolhido pelas pessoas, por conta das diversas funções que ele faz, inclusive ouvir música. Na verdade, ligar ficou em segundo ou terceiro plano”, afirma.

No entanto, a mudança não se limita ao aparelho em que se ouve música. Para Engel, a alteração se estende ao maquinário de gravação. Ele destaca que a digitalização impactou os meios de produção musical.

Um mercado mais democrático

THE UNKNOWNS

A banda The Unknows lançou um single em serviços de streaming (Foto: Reprodução/Facebook)

Engel conta que a principal diferença no mercado musical das décadas de 1980 e 1990 para o atual é sua característica mais democrática. “Antigamente era muito caro para o artista conseguir gravar uma música. O caminho ficou mais curto e o processo mais barato”, diz. “Por conta disso, artistas passaram a depender menos das gravadoras e hoje conseguem se lançar na internet”.

Esse mercado aberto e mais simplificado faz com que músicos como os integrantes da banda carioca The Unknowns tenham espaço para divulgar seu material em serviços de streaming, em um processo que, tradicionalmente, demandaria muito tempo e dinheiro. A banda, com menos de dois anos de existência, gravou o single “Basta Lutar” no Estúdio Anderson Engel e lançou em plataformas como Spotify, iTunes e Deezer.

Com isso, o barateamento é um dos pontos destacados pelo guitarrista da banda, Gabriel Fonseca. “Hoje em dia gravar uma música e lançar não é tão difícil. Já foi muito difícil. Gastamos mais dinheiro para gravar a música, mas para lançar no Spotify, por exemplo, nos custou apenas 10 dólares.”

Esse novo cenário, segundo Engel, descentralizou o controle sobre a produção musical, reduzindo o poder das gravadoras.  “As bandas estavam muito centradas na figura do produtor musical”, afirma Engel, lembrando-se de sua experiência na década de 1990 como guitarrista da banda Colapso. “Quando gravamos nosso álbum, o produtor mandou em tudo. Do repertório à roupa dos integrantes”.

Sendo assim, o mercado fonográfico abre espaço para que artistas independentes consigam mostrar seu trabalho e conquistar um público que antes não seria possível. É o que destacam a vocalista Adriane Santana e o baterista Leandro Tenório da banda paulista Move Over.

Santana diz que há uma facilidade maior para se gravar músicas, já que muitas das ferramentas necessárias estão disponibilizadas na internet. “Muita gente lança um material muito bom e que foi gravado de maneira muito simples”, explica. Tenório considera benéfico o processo mais democrático e ressalta o alcance que os serviços de streaming propiciam aos artistas. “O digital é benéfico nesse ponto, em que você consegue divulgar seu material por todo o mundo, sem depender de dinheiro ou de meios físicos. Só depende do online.”

Dessa forma, Engel considera que ao mesmo tempo que o streaming fortalece o setor independente da música, ele retira o protagonismo das gravadoras na produção musical. “Há um tempo atrás, alguns artistas eram obrigados a lançar um álbum todo ano só para cumprir exigência de gravadora. Hoje em dia não há essa obrigatoriedade”, afirma.

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O Estúdio Anderson Engel é um espaço para artistas independentes (Foto: Reprodução/Facebook)

Além disso, a venda de mídias físicas, como o CD, sofreu uma queda com o decorrer dos anos. Diante desse cenário, artistas e gravadoras passaram a se dedicar mais às vendas de bilheteria de shows. Entretanto, Edde destaca que a venda de shows não é suficiente para a gravadora se manter viva no mercado fonográfico. “As mídias digitais são a bola da vez. Elas estão dando um novo fôlego para as gravadoras, que precisam sobreviver”, diz.

O fim da mídia física?

Outro ponto que se discute em relação ao avanço das mídias digitais é a possibilidade das mídias físicas deixarem de existir. Em 2015, a venda de mídia física no mundo recuou 4,5% em relação ao ano anterior. No Brasil a queda foi ainda maior, de 19,3%.

Diante desses números, Edde prevê o fim das mídias físicas, apostando que em um espaço de dois a três anos o CD desapareça das prateleiras. Outros, no entanto, consideram que a mídia física não deixará de existir, apesar de ter seu papel no mercado fonográfico reduzido. O estudante de publicidade da ESPM e amigo da banda The Unknowns Luis Felippe Matos, por exemplo, destaca que o CD está virando artigo de colecionador. “Quem é fã, vai sempre querer ter um conteúdo exclusivo”, diz.

Tenório, da banda Move Over, ressalta que a importância do material físico é aproximar o músico do seu público e que isso acaba se perdendo nos serviços de streaming. “O artista cria conceito de capa, de encarte, a arte do CD. Ter o contato físico provoca uma sensação diferente do material digital”, explica o baterista.

Já Engel não acredita que o CD possa se tornar um artigo de colecionador. Para ele, diferentemente do que ocorre com os discos de vinil, o CD tem uma vida útil curta por conta da sua própria composição física. Além disso, ele destaca que o vinil se tornou um artigo de luxo graças à fidelidade sonora que ele mantém, enquanto o CD provoca uma alteração em uma determinada frequência sonora.

Um novo caminho para o rádio

Além das mídias físicas, há de se ressaltar o papel que o rádio exerce no mercado musical. Por alguns anos, foi um dos canais mais importantes para se ouvir música e um meio que o artista e gravadoras tinham para divulgar seu material.

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O rádio procura um novo caminho através do streaming (Foto: Pexels)

Gradativamente, o rádio foi perdendo esse papel no setor, e os serviços de streaming puseram um grande ponto de interrogação sobre ele. Desse modo, emissoras de rádio encontraram no próprio streaming um caminho a seguir para se manterem vivas.

“Hoje em dia, muitas pessoas ouvem rádio não pelo aparelho de radiodifusão. As emissoras têm uma participação muito grande via aplicativo”, destaca Edde, coordenador artístico da rádio Transamérica do Rio.

Diante dessa nova postura, ele acredita que a migração das emissoras de rádio para o streaming está próxima de se concretizar e que ela trará benefícios. “A partir do momento em que tivermos um serviço de ‘internet dedicada’ [em que ela seja mais estável], a audiência das emissoras tende a aumentar significativamente”, afirma.

Já para o baixista da banda The Unknowns, João Paulo Ribeiro, o rádio não recupera mais a sua relevância de anos atrás, por conta do leque de opções que as mídias digitais oferecem ao público consumidor de música. “A força do rádio vinha muito da falta de opções. Hoje em dia é mais prático para a pessoa escolher o que quer ouvir no celular”, explica. Essa ideia também é reforçada por Engel, que atribui a perda da relevância do rádio à preferência do público em ouvir música associada a um clipe. “A soma do áudio com o vídeo é muito forte. O rádio nesse ponto é muito estático”, diz.

 

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