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Clóvis Marques

Uma biografia brasileira de Shostakóvitch

A bibliografia musical brasileira vai ficar devendo mais uma a Lauro Machado Coelho, e não das menores: lançados dez volumes de sua ciclópica História da Ópera, o crítico e professor paulistano de origem mineira acaba de publicar um Shostakóvitch: Vida, música, tempo (Editora Perspectiva) que é a primeira obra de fôlego sobre o gênio soviético escrita no mundo latino.

Hoje colaborador do Estado de S. Paulo e das revistas Bravo! e Concerto, Machado Coelho prepara agora o lançamento de tomos centrados em Richard Strauss e Puccini, depois de dar a público, pela mesma editora, resultados tão diversos de anos de pesquisa e estudo como A ópera barroca italiana e A ópera na França ou A ópera alemã, A ópera na Rússia, A ópera italiana após 1870, A ópera tcheca ou A ópera nos Estados Unidos.

Lauro Machado Coelho

Seu estilo é deliciosamente 'conversational', sua erudição, farol e guia usado sem ostentação, e nosso autor tem na manga trunfos tão bem-vindos, no caso do volume Shostakóvitch (uso a grafia adotada por ele), quanto o fato de ser um russófilo de escol, versado na língua e na literatura. Foi por sinal a intimidade com a poetisa Anna Akhmátova que o levou na juventude aos primeiros contatos com o autor de Lady Macbeth do distrito de Mtsensk.

Como já indica o título, Shostakóvitch: Vida, música, tempo mescla o relato da vida e dos processos de criação com a contextualização histórica e na vida cultural da Rússia soviética, além da descrição e avaliação das obras, com particular atenção, claro, para as sinfonias, as óperas e a música concertante e de câmara, os quartetos em particular e as obras para piano e canto, mas sem desprezar a produção para o cinema e outras vertentes circunstanciais, nem economizar descobertas e passeios por desvãos menos conhecidos.

Figura afável de professor e erudito, jornalista experiente, ainda por cima, nos caminhos e descaminhos da política internacional do século que passou (publicou, em 1996, O fim da União Soviética: Dez anos que abalaram o mundo), Lauro Machado Coelho fala de Shostakóvitch e sua contingência:

 

– Você cita em epígrafe um elogio de uma biógrafa de Shostakóvitch que frisa a força de evocação de uma época e de uma condição histórica em sua música. Shostakóvitch está ou continua fadado a ser apreciado por ser esse espelho conflituado e contraditório?

L.M.C.: Hoje talvez menos, na medida em que a circunstância histórica já nem existe mais. Mas isso não faz decrescer o interesse pela música de DDS, que na realidade vem aumentando. Primeiro porque ele é um dos maiores sinfonistas do século XX, fundindo uma tradição que, de um lado, vem de Tchaikóvski-Borodín-Glazunóv e, do outro, de Bruckner-Mahler (este último, principalmente, a influência mais forte sobre ele). Por outro lado, acho que o ouvinte contemporâneo identifica na música dele uma capacidade de compreender, com compaixão mas sem sentimentalismo, o drama do ser humano exposto à opressão, seja de que tipo for – e essa é uma situação ainda muito presente no nosso mundo.

– O que o fascina no personagem, no homem?

L.M.C.: O contraste entre o ser público, que tinha de prestar contas a autoridades e agir da forma como se esperava que ele agisse – o homem que fazia concessões, assinava petições, lia discursos que outros tinham escrito para ele –, e o artista que se manteve sempre fiel às próprias convicções. O compositor também fez coisas de encomenda, como 'O canto da floresta' e 'O sol brilha sobre a pátria', que são peças para enaltecer o stalinismo, ou bobagens como marchas para o exército e a polícia, mas em suas obras essenciais foi íntegro e, mais que isto, ousado. No decorrer da pesquisa, tive a oportunidade – graças inclusive à ajuda de amigos – de ouvir praticamente todas as peças analisadas no livro; e essa experiência deu-me uma idéia muito clara da proporção de concessões ao regime e de obras extremamente pessoais, em que há uma visão crítica da sociedade soviética. A pesquisa me revelou também aspectos fascinantes do indivíduo, muito tímido mas ao mesmo tempo capaz de ser muito sedutor com as mulheres; tão exigente em relação aos outros quanto era consigo mesmo; mas também com o lado descontraído do torcedor fanático de futebol, que chegou, certa época, a se inscrever num curso para ser juiz (que nunca foi adiante, por causa de seus múltiplos compromissos).

O que faz a grandeza de Shostakóvitch é ele não ser um super-homem. Era um ser humano comum, capaz de sentir medo e de ter atitudes cautelosas, de auto-proteção, que lhe custaram caro, pois não faltou, dentro e fora da URSS, quem o denunciasse por isso. Mas, depois que tudo é dito e feito, que o tempo passa e você pode ter um mínimo de perspectiva, a conclusão a que se chega é de que o papel de Shostakóvitch na denúncia dos absurdos do regime é tão consistente quanto a de Soljenýtsin, por exemplo. Ele não foi um dissidente porque, no fundo – até mesmo por causa das tradições familiares, ligadas à intelliguêntsia naródnik – acreditava nos princípios do regime e denunciava apenas os seus desvios e deformações. Mas nunca foi um homem do sistema, que se beneficiasse de privilégios. Se foi muito premiado, é porque – sobretudo após a morte de Prokófiev – era o maior compositor soviético vivo.

– Interessa realmente saber, à margem da força musical da obra e frente ao rolo compressor do regime, em que grau ou em que momentos ele foi sincero no sovietismo obrigatório ou rebelde na medida do possível?

L.M.C.: Há um ponto que sempre me chamou a atenção. Há de fato algumas obras de encomenda que são visivelmente de carregação, feitas de qualquer jeito, só para cumprir o que lhe foi pedido. Mas há outras – como 'O canto da floresta' – em que, mesmo se baseando em um texto de baixíssima qualidade poética, DDS dá um jeito de ser fiel a si mesmo e escrever música que não é totalmente desprovida de qualidade. Por outro lado, há as ocasiões – como nos dois últimos movimentos da Sexta [Sinfonia] – em que ele dá um sentido extremamente sardônico à 'alegria obrigatória' que se esperava dos cidadãos.

– Sarcasmo e humor, tristeza e negrume foram armas e decorrência do entorno e das circunstâncias? Até onde dá para sentir se de qualquer maneira viriam do temperamento do compositor?

L.M.C.: O sarcasmo e o humor negro são características do homem Dmitri, que você encontra antes mesmo de Sollertínski lhe ter revelado a obra de Mahler, na qual ele vai encontrar um tom grotesco, de deformação caricatural, com o qual tem toda afinidade. Ele já está presente em obras do início da carreira, e é muito forte, por exemplo, no scherzo da Primeira Sinfonia. Talvez seja resultado das condições duras de vida na fase em que a família passava enormes necessidades e ele era obrigado a tocar piano em cinemas pulgueiro, o que detestava. Mas esse é um traço inato de sua personalidade – que explica, por exemplo, a atração que tem por Gogol – e que vai amadurecer e se refinar no contato com a música de Mahler.

– Você identifica um grande momento criador ou momentos privilegiados na obra dele?

L.M.C.: Há vários. A obra de DDS é pontuada por grandes momentos criativos: a dobradinha Quarta/Lady Macbeth; a Sexta (que, para mim, é mais importante que a Quinta); a Oitava, minha sinfonia predileta, porque é um depoimento sobre o sofrimento do povo russo comparável ao verdadeiro monumento que é o Réquiem de Akhmátova; coisas extremamente inovadoras, em termos de música russa, como a [Sinfonia] nº 14 ou os Sonetos de Michelangelo; ou depoimentos intensamente pessoais como os que você encontra em determinados quartetos ou em peças como a Sonata para Viola. E quando você tem, como eu tive, ao longo da pesquisa e da redação do livro, um contato sistemático e prolongado com o conjunto da obra, chama a atenção a sua coerência e o alto nível de realização, mesmo quando isso convive com um problema inerente à extrema facilidade que ele tinha para compor (e que ele mesmo reconhecia): uma velocidade de escrita que freqüentemente resultava no desequilíbrio da qualidade (no livro, eu o comparo a outros músicos do século XX – Milhaud, Martinů e Villa-Lobos – que apresentam essa mesma característica). Mas as cordilheiras são muito mais imponentes e freqüentes do que os vales.

– Surpresas e/ou revelações ao mergulhar na obra para escrever o livro?

L.M.C.: Surpresas e revelações sempre há. O contato mais íntimo com obras que você conhecia de forma menos sistemática – como os 24 Prelúdios e fugas – te faz perceber a sua grandeza. Descobri peças que eu não conhecia, como as Canções do Capitão Lebiádkin, sobre textos de Dostoievski, que são geniais. E reavaliei a música escrita para o cinema: há coisas que são mera composição de circunstância, mas há partituras com vida própria, que podem subsistir como peça de concerto: por exemplo, as trilhas para o Hamlet e o Rei Lear de Grigóri Kozíntsev.

– Quais as características musicais que mais o distinguem e que tornam preciosa para você a música dele?

L.M.C.: Posso te falar de uma experiência pessoal. Na casa de um amigo meu – um vizinho de apartamento, em Belo Horizonte, que tem a minha idade e é meu amigo mais antigo (nós nos conhecemos há 55 anos!) – havia um desses discos de propaganda de gravadora, com trechos variados dos títulos que ela oferecia. Ali havia o scherzo do Quinteto, e fui imediatamente conquistado pelo impulso rítmico e por uma forma de compor que me pareceu muito individualizada. Isso foi provavelmente em 1957, e foi o primeiro Shostakóvitch que eu ouvi. Depois, como eu digo no prefácio, ao descobrir a poesia de Akhmátova, encontrei várias referências à obra desse compositor, de quem conhecia tão pouca coisa. Só no início da década de 1960, quando eu já estava lá pelos 17-18 anos, fiquei conhecendo a Quinta Sinfonia, na gravação feita por Leonard Bernstein com a Filarmônica de Nova York, e ela também me surpreendeu por sua força (é curioso pensar que ainda a admiro bastante, mas ela deixou de ser uma de minhas favoritas). Sempre houve, nessa música, características que me fascinaram e me fizeram me empenhar, desde muito jovem, em conhecer a sua obra, como fizeram surgir o desejo de escrever a respeito dele – um projeto que foi sendo adiado por muito tempo, devido a meu envolvimento com a coleção História da Ópera; até o momento em que o centenário se aproximava e eu me disse: É agora ou nunca. Se a fase de trabalho braçal, de redação propriamente dita – de novembro de 2005 a abril-maio de 2006 – foi relativamente curta, é porque a fase de leitura, pesquisa, mergulho na obra, tinha sido muito longa.

– Quais suas veredas, bosques, montes e clareiras favoritos nessa floresta?

L.M.C.: Na sua relação com qualquer compositor há sempre aquela obra menos óbvia que te pega pelo pé. Em Shostakóvitch isso também acontece. A Sinfonia nº 6, por exemplo, alguns dos quartetos, um ciclo de canções como os Poemas de Blok, certos prelúdios e fugas. Acontece comigo, também, aquela atração digamos sazonal que deve acontecer com você também, em relação a seus compositores prediletos. A cada momento varia a área de sua produção pela qual me sinto atraído.

– Shostakóvitch teria composto mais óperas e música cênica, não fossem os problemas políticos?

L.M.C.: Teria, sim, se o medo provocado pela repressão não o tivesse desestimulado. As duas óperas, a opereta, os balés que ele compôs demonstram que havia nele um talento dramático inato. Os diversos projetos que não foram levados adiante mostram seu interesse pelo gênero. Mas, em compensação, ele transferiu para o domínio sinfônico todo esse senso dramático – e é isso que destaca a sua produção sinfônica no conjunto do século XX.

– Quais suas conclusões sobre a autenticidade e o interesse do livro biográfico, Testimony, publicado depois da morte do compositor, em que Solomon Vólkov afirma reproduzir declarações de Shostakóvitch, entre elas críticas ao regime soviético nunca externadas em vida? Shostakóvitch sai vingado, frente ao regime, ou o livro deve ser encarado com reserva?

L.M.C.: No capítulo final, O Caso Shostakóvitch, fiz questão de não tomar partido na polêmica. Meu objetivo foi oferecer ao leitor um material bruto que guiasse a sua reflexão. Mas, se você quer a minha opinião pessoal, obra pessoal ou não, Testemunho é o trabalho de alguém que conhecia DDS de perto. Para dizer a verdade, o livro de Ian MacDonald – que foi, inegavelmente, um grande especialista em DDS – é às vezes mais tendencioso. Inversamente, Laurel Fay, a mais violenta acusadora de Vólkov, assume, em sua biografia, posições analíticas que se parecem muito com as dele. Se ele tivesse publicado uma biografia do homem que conheceu – como faz em seu segundo livro, Shostakovich and Stalin –, em vez de colocar na boca do compositor declarações que foram questionadas por uns e aceitas por outros, não teria criado essa celeuma. Mas uma coisa é certa: para conhecer o universo de Shostakóvitch, a leitura de Testimony é tão indispensável quanto, por exemplo, a do magnífico Shostakovich: a Life Remembered, de Elizabeth Wilson.

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1 Opinião

  1. Anônimo disse:

    Sensacional o artigo do Clóvis Marques. Remete a um outro tempo e lugar.

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