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Nas telas e nos livros, histórias para crianças podem ser coisa de gente grande

Quem se acostumou a ver e ler versões açucaradas dos clássicos infantis estranha quando nem tudo termina no “e viveram felizes para sempre”. Por Solange Noronha

Nas telas e nos livros, histórias para crianças podem ser coisa de gente grande
'O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus' agrada aos espectadores de todas as idades

Mal estrearam lá fora “A garota da capa vermelha” e “A fera” — que chegam ao Brasil em 21 de abril — e muito já se comentou sobre o tom sombrio das novas adaptações dos contos infantis “Chapeuzinho Vermelho” e “A bela e a fera” — além de outras que vêm por aí. Porém, para quem cresceu ouvindo “Histórias da Tia Nastácia” como “O bicho manjaléu” e “A moura torta” e contos (bem traduzidos) de autores como Hans Christian Andersen e os Irmãos Grimm, não há nada a se estranhar. Ao contrário, há motivos, isso sim, para celebrar.

Ainda que tenham rendido desenhos animados encantadores, as versões edulcoradas de Walt Disney e Cia. para alguns clássicos da literatura infantil parecem ter criado certa rejeição à ideia de que fantasia para crianças e horror podem conviver na mesma história. Ainda bem que sempre há exceções que fogem à regra — e os Tim Burton e Terry Gilliam da vida estão aí mesmo para provar.

Vale a pena ver (e ler) de novo

Numa visita às locadoras (e às livrarias e/ou bibliotecas, no caso dos clássicos), é possível encontrar alguns bons exemplares de histórias infantis capazes de agradar também a adultos e adolescentes — e que podem servir como uma espécie de cursinho preparatório para as novidades programadas para estrear nos cinemas. Entre os títulos mais recentes, encontram-se vários dos cineastas citados no parágrafo acima, como “A noiva cadáver”, “Edward Mãos de Tesoura” e “Alice no país das maravilhas”, de Burton, e “Os Irmãos Grimm”, “As aventuras do Barão de Münchausen” e “O mundo imaginário do Doutor Parnassus”, de Gilliam. Os dois últimos integram o acervo da rede HBOMAX, que também já exibiu “O jovem Andersen”, pelo qual dá para se vislumbrar como o patinho feio dinamarquês virou cisne — mas nem por isso tornou-se pródigo em imaginar finais felizes para suas criações.

Em cópia restaurada, “Pele de asno” — na adaptação de Jacques Demy para a obra de Charles Perrault — também andou passando há não muito tempo nos cinemas brasileiros e na TV paga. Catherine Deneuve, no auge da beleza em 1970, vive a princesa que foge para não ser obrigada a se casar com o pai — sim, contos de fadas também falavam dessas coisas nos tempos da carochinha, que o diga a menina enterrada viva pela madrasta ao pé da figueira, resgatada do folclore por Monteiro Lobato.

Lobos sedutores e sem anabolizantes

Pelo que já está disponível na internet, dá para ver que a nova versão de “Chapeuzinho vermelho” — escrita por Perrault e reescrita pelos Grimm — transforma o lobo mau em lobisomem — o que, aliás, não é nenhuma novidade. O receio é que, apesar de contar com alguns nomes de peso no elenco, a começar pela “vovó” Charlotte Rampling, a adaptação vire uma grande bobagem. Afinal, na direção está Catherine Hardwicke, a mesma de “Crepúsculo”, cuja sequência traz um bando de jovens lobisomens “bombados” de tal forma que é quase impossível não achar que foram entupidos de anabolizantes.

Lobisomens sedutores (e sem esteroides), ciúmes entre irmãs e o despertar da sexualidade da menina de capa vermelha foram explorados com sucesso por Neil Jordan em “A companhia dos lobos”. No filme de 1984, o cineasta irlandês buscou inspiração — e parceria para desenvolver o roteiro — na inglesa Angela Carter (1940-1992), jornalista que, entre outros trabalhos, ousou reescrever autores como Sade e Baudelaire do ponto de vista feminino. Vale dar uma olhada na versão da dupla, que é, sem dúvida, muito mais sombria que a atual. Não se engane pela aparência mais convencional da “vovó” Angela Lansbury. Com ela, entre uma história e outra, Rosaleen, a Chapeuzinho da vez, aprende que “os lobos estão sempre à espreita e as línguas mais doces acompanham os dentes mais afiados”.

Sapatilhas dos anos 1940

Quem ainda estiver em clima de “Cisne negro” e desejar uma sessão nostalgia ainda mais antiga, pode buscar “Os sapatinhos vermelhos”, adaptação de Andersen dirigida por Michael Powell e Emeric Pressburger. Neste musical de 1948, Moira Shearer vive uma jovem que, dividida entre o homem que ama e o sonho de ser primeira bailarina de uma companhia, ganha irresistíveis — e perigosas — sapatilhas vermelhas.

Voltando à segunda década do século XXI, notícias veiculadas na internet dão conta de que os estúdios Disney pretendem interromper por uns tempos suas adaptações dos clássicos infantis. Depois de “Enrolados”, baseado em “Rapunzel”, a ordem seria dar uma pausa no filão, até passar a tal nova “onda sombria”. Só não explicaram por que uma vertente exclui a outra.

Caro leitor,

Você concorda que há público tanto para versões mais fiéis dos clássicos infantis como para as versões mais açucaradas?

Além das próximas estreias, já foram anunciadas adaptações de “João e Maria” e “João e o pé de feijão”. Há alguma história infantil que gostaria de ver filmada?

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3 Opiniões

  1. Amanda Guedes disse:

    Excelente matéria !
    Nesta está expressa tudo que penso sobre filmes e histórias para crianças.

  2. jaderdavila the small shareholder disse:

    ter dado a cinderela pra minha filha pequena,
    me fez perder um tempo terrivel depois,
    pra tirar as ideias da cabeça dela.
    a cinderela recebeu vestido, carruagem e sapatinho de cristal em troca de nada.
    só porque estava chorando.
    no mundo véio, quando vc está chorando, ninguem te da nada.
    oque vc quiser dos outros, tem que dar pros outros em troca oque os outros quiserem.
    toma cuidado com estoria ‘infantil’.

  3. João Otero disse:

    Inteligente e esclarecedora é a matéria da articulista. Solange Noronha como sempre mostrando competencia no que faz, da uma aula passeando pelas produções cinematograficas e nos enchendo de informações fruto de pesquisa séria e embasada.
    Parabens a jornalista que sempre nos ofereceu os melhores textos, que nos leva a saborear o melhor, numa redação simples e de alto valor informativo. Parabens

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