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Música Clássica

Neukomm camerístico

Não é todo dia que se redescobre um pequeno grande mestre do classicismo musical. Este ano, o austríaco Sigismund Neukomm ganhou feições mais nítidas, para nós, graças à garimpagem de Rosana Lanzelotte.

Incansável desbravadora de repertórios no cravo, Rosana, passando agora ao pianoforte, está em turnê com o flautista Ricardo Kanji para lançar o CD  – Cavaleiro Neukomm no Brasil (Biscoito Fino) – que reúne uma súmula representativa de uma investigação iniciada há cerca de cinco anos em bibliotecas européias.

Neukomm (1778-1858), um aluno de Haydn que foi grande globe-trotter e produziu centenas obras em todos os gêneros, viveu no Brasil entre 1816 e 1821, ensinando na corte de João VI e centrando seu interesse aqui no repertório de câmara e instrumental, ocupado já o terreno da música orquestral e coral por José Maurício Nunes Garcia e o português Marcos Portugal.

Sua Missa da aclamação de D. João VI foi apresentada há alguns anos na série Música nas Igrejas, que este ano também nos permitiu ouvir, na Igreja de Nossa S. do Carmo da Antiga Sé, no Rio, a Sinfonie à Grand Orchestre que o austríaco compôs em dezembro de 1820, perto do fim dos cinco anos de sua estada na corte brasileira.

Igualmente compostas no Rio foram quase todas as peças (à exceção de uma Fantasia para flauta escrita em Paris, em 1823) do novo CD de Lanzelotte e Kanji: o encantador Duo para flauta e pianoforte, a peça de mais variada inventiva dentre as que agora descobrimos, a Sonata para pianoforte e flauta, a fantasia L'Amoureux, o capricho para pianoforte O amor brasileiro, aproveitando tema de um lundu brasileiro, e as docemente melancólicas divagações dos Adieux de Neukomm a seus amigos do Rio.

A seguir, uma conversa com Rosana Lanzelotte sobre a redescoberta desse compositor que gozou de muito prestígio nos países germânicos, em sua época, mas até este ano tinha no mundo latino mais nome que presença musical concreta.

– Que a levou a pesquisar a obra de Sigismund Neukomm? Conte um pouco da sua saga investigativa.

Rosana Lanzelotte: Cheguei a Neukomm por intermédio do saudoso José Maria Neves, grande pesquisador, falecido em plena tarefa de catalogação da obra do compositor. Ele me havia dado, logo antes de morrer em 2002, uma cópia da base de dados em que trabalhava, que repertoria as 2.000 obras de Neukomm. Pouco depois, eu soube do ano do Brasil na França, que teria lugar em 2005. Achei que Neukomm seria um tema a desenvolver, por ter sido o único músico da Missão Francesa, e por ter estabelecido a ponte musical entre o Brasil e a Europa no início do século XIX. Principiei as pesquisas em 2003, na Biblioteca Nacional da França, onde está a maior parte de seus manuscritos. Quanto mais pesquisava, mais me dava conta da qualidade da música. As obras escritas no Brasil eram para pianoforte, e não para cravo, e assim, seguindo o caminho de meu professor Jacques Ogg e de outros cravistas, enveredei pelo pianoforte.


– Alguma obra do CD ou das que têm sido tocadas este ano era inédita modernamente?

R. L.: Do CD, a única peça inédita modernamente era o Duo para flauta e pianoforte, que editoramos especialmente para a gravação. Na série Música nas Igrejas, apresentamos várias inéditas, como as Marchas para bandas de sopros. O trabalho de Sherlock funcionou quando descobri a parte de flauta da Fantasia dedicada a Dussek, que não gravamos, em uma biblioteca de Dresde. Na Biblioteca Nacional de Paris só havia a parte de piano. E na Biblioteca de Dresde só a de flauta… Fui eu quem juntou as duas…

– Até onde foi o trabalho de José Maria Neves, e onde começou o seu?

R. L.: O José Maria estava preocupado com os aspectos musicológicos. Eu sempre estive preocupada com os aspectos "musicais". Essa é a grande diferença de abordagem… Os musicólogos não tocam a música… O trabalho musicológico não é suficiente para dar a dimensão da qualidade da música de Neukomm. Há que tocar…

– Que sabemos hoje de Neukomm que não sabíamos cinco anos atrás?

R. L.: Eu não sabia que ele era um iluminista, como o Conde da Barca e seu amigo, o Dr. Manuel Luiz Álvares de Carvalho, fundador da primeira faculdade de Medicina do Brasil, em Salvador, personagens a quem Neukomm se ligou logo que chegou ao Brasil em 1816. Intelectuais, liberais, maçons, porém ligados à Igreja, tinham ideais humanistas, a serviço dos quais colocavam as suas respectivas competências.

Por não ter ouvido as peças, Mozart de Araújo afirmou indevidamente, e muitos ficam repetindo, que, no Brasil, ele só escreveu música fácil para seus alunos, os príncipes. O repertório que gravamos desmente essa afirmativa. O pianista do Duo e do L'Amoureux era o próprio Neukomm, com todo o seu virtuosismo, ao lado de um flautista igualmente virtuose, que era Pierre Laforge.

– Como você o situaria como compositor em sua época?

R. L.: Egresso do estilo clássico vienense, dele nunca se distanciou. Por causa disso, talvez, tenha caído em uma espécie de ostracismo. O romantismo empurrava os talentos de Weber e Chopin, enquanto Neukomm continuava fiel ao estilo de seu mestre e "pai", como o chamava, Joseph Haydn.

– Que características estilísticas e de linguagem lhe chamaram a atenção nas obras "redescobertas"?

R. L.: As melodias à Haydn lá estão, mas também harmonias e modulações surpreendentes. A re-exposição invertida é quase uma constante… como no segundo movimento do Duo. Alguns fugatos aqui e ali… Enfim, ele mostra total domínio dos recursos composicionais de sua época.

– Quais, dentre elas, se destacam? Por quê?

R. L.: O mesmo Duo é iniciado por um movimento em 5/8! Talvez seja o primeiro exemplo na história da música ocidental…

Fiquei muito surpresa com o Allegro alla Turca em que ele pede um "piano à tambourin", literalmente um "piano com pandeiro". Naquele momento, diversos pianos eram dotados de artefatos, sinos, percussões, etc. A Sonata de que faz parte a Marcha Turca, dedicada à princesa Maria Teresa, é, a meu ver, uma piscadela a Mozart.

A Fantasia para flauta solo, escrita logo após a partida do Brasil, contém um fragmento que se tornaria o mais característico do nosso hino nacional, composto dez anos depois por seu aluno Francisco Manoel da Silva.

No Amor brasileiro, para piano solo, Neukomm faz uma valsa virar um lundu e vice-versa. É a mais perfeita alegoria do que o compositor austríaco viveu no Brasil, ele que foi o primeiro a se inspirar em gêneros populares brasileiros da época – a modinha e o lundu – para escrever música culta.

– De que elementos dispomos para considerar que ele introduziu a música de câmara no Brasil?

R. L.: Antes da chegada de D. João, não havia "câmara" – salões aristocráticos em que se escutasse música. Após a chegada da corte, José Maurício e Marcos Portugal ficaram muito ocupados suprindo música para a Capela Real e para o Real Teatro. Neukomm logo percebeu que, nesses dois recintos, não havia lugar para ele. Então passou a escrever obras que tocava com o flautista francês Pierre Laforge nos salões dos Langsdorff ou do barão de Santo Amaro, que o hospedou após a morte do conde da Barca em 1817. Compôs ainda doze marchas para a "harmoniemusik" – banda de sopros – desembarcada com a princesa Leopoldina. Escreveu também para piano solo e piano a quatro mãos. Das setenta obras que escreveu no Brasil, grande parte é para conjunto de câmara ou instrumento solista. Na totalidade de seu catálogo, essas peças representam a maior parte das obras dedicadas a instrumentos. Para nós, instrumentistas, é um rico legado. Estou feliz por ser uma das herdeiras!

Confira aqui a programação completa dos roteiros para o Rio de Janeiro e São Paulo.

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3 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    Muito boa essa coluna de Clóvis Marques sobre Neukomm. E parabéns a Rosana Lanzelotte pelo trabalho de pesquisa!

  2. heloisa disse:

    Rosana conseguiu nos fazer todos herdeiros deste ilustre desconhecido para nós até então.Ótima notícia, ótima entrevista. Parabéns ON.

  3. Benedito Lacerda disse:

    Essa história de música clássica é muito chata. Ô Heloisa, você gosta mesmo ou é só para se exibir?

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