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O ‘não-objeto’ de Ferreira Gullar

O poeta aborda o período em que a obra se transformou em uma leitura manuseável. Por Fabíola Leoni

O ‘não-objeto’ de Ferreira Gullar
Ferreira Gullar, crítico de arte, comenta as tendências da poesia neoconcreta (foto: Fabíola Leoni/Opinião e Notícia)

A participação do espectador na obra de arte. O caminho proposto pelo Neoconcretismo foi o tema abordado pelo poeta Ferreira Gullar em sua última palestra na Casa do Saber Rio, no último dia 12.  Na aula, Gullar comentou tendências radicais, como o urinol de Marcel Duchamp, “rica, irreverente, contraditória”, e disse que artistas ainda existem, mesmo sem períodos inovadores.  “Acabou a vanguarda? E daí? Não acabou a arte. A arte existe há 18 mil anos”, afirmou Gullar – um dos fundadores da arte neoconcreta.

O não-objeto, resquício da vanguarda, é “uma imobilidade aberta a uma mobilidade”, de acordo com Ferreira Gullar. Com a vertente, que apareceu no Brasil na década de 1950, a obra se transformou em uma leitura manuseável. A página e a palavra passaram a constituir, juntas, o poema, propondo meios para uma nova forma de criatividade, segundo o também biógrafo e tradutor. “O espectador passou da contemplação para a participação na obra.”

Para explicar uma série de rupturas vanguardistas ao longo da história, o crítico de arte levantou análises desde a época renascentista. O Renascimento foi o berço da série de mudanças na história da arte. No espaço fictício, antes bidimensional, foi revelada como necessidade de representar a realidade. O Barroco e o Rococó foram alguns dos outros movimentos que romperam com o tradicional.

Dois artistas foram chave para o discurso de Ferreira Gullar durante a aula no Rio de Janeiro: o pintor francês Paul Cézanne e a brasileira Lygia Clark. Cézanne, considerado a ponte entre o impressionismo do fim do século XIX e o cubismo do início do século XX, trouxe às obras distorções formais e alterações de perspectiva em benefício da composição ou para ressaltar o volume e peso dos objetos. Para Gullar, ele parte da natureza morta e termina ao desintegrar a linguagem da pintura. “Ele é subversivo e pensa que não é”, afirma o poeta, reiterando que Cézanne acredita que, sem natureza, não há pintura.

Já Lygia Clark foi uma pintora e escultora contemporânea que se auto-intitulou como “não-artista”. Ela assinou, com Ferreira Gullar e outros seis artistas, o Manifesto Neoconcreto, de 1959. Ela ganhou o prêmio de melhor escultura nacional na VI Bienal de São Paulo, com os “Bichos”. Dali, passou da experiência com a maleabilidade de materiais duros para os flexíveis, chegando à conhecida fita de Moebius. Gullar cita a transferência de poder, do artista para o espectador, quando a pessoa corta o material de acordo com suas vontades. “Ela corta, está caminhando”, observa Gullar. “Só Lygia e Hélio Oiticica levaram a tendência até as últimas consequências.”

Ferreira Gullar defende que o artista é o contrário do filósofo. Se o primeiro inventaria a realidade, o outro buscaria explicar o mundo. “Mas nós nos inventamos”, analisa o poeta. Para Gullar, a arte deve inventar a realidade, e não copiá-la. “A arte existe porque a vida não basta”, acredita.

2 Opiniões

  1. Vania disse:

    …acho que cada um tem sua opinião, respeito o comentario de Markus, mas tambem a opinião de Gullar, como de qualquer outro indivuo. Isso é o que faz diferença, e diferença tambem é Arte, já que definição para essa palavra dissilaba, são tantas e ao mesmo tempo ainda não revelada, pois arte é muito mais do que dizem, acham ou fazem.

  2. Markut disse:

    Só vou concordar com o Ferreira Gullar, e com o devido respeito, com a afirmação de que a arte existe há 18 mil anos.
    Gostaria de ver explicado o significado artístico dessa horrorosa 29ªBienal de São Paulo e o que passa pela cabeça do seu curador, para justificar isso como arte.
    Para mim, filósofo e artista caminham juntos à procura da explicação e interpretação da realidade física ou psicológica, mais profunda.
    Desculpe Gullar, mas a arte não inventa a realidade. Ela procura interpretá-la.
    Se Dali me comove , tanto quanto Renoir é por que, ambos no seu estilo, fruto de sua época, procuram entender e explicar essa realidade.

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