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O debate do patrimônio

A Unesco é melhor em fazer inimigos do que amigos

O debate do patrimônio
Machu Picchu, no Peru (Fonte: Reprodução/AFP)

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Durante a última reunião anual do Comitê do Patrimônio da Humanidade da Unesco (um grupo rotativo de 21 países), que terminou no dia 6 de julho, 26 novos lugares foram adicionados à lista de locais considerados de “valor universal excepcional” para a humanidade. O total hoje em dia é de 962. O comitê também nomeou cinco desses locais de Patrimônio da Humanidade em Perigo.

O programa de Patrimônio da Humanidade da Unesco começou há 40 anos, quando dezenas de países subscreveram à ideia de que o patrimônio cultural e natural do mundo estava sendo ameaçado não só pelas “causas tradicionais de desgaste”, mas também pela “mudança das condições sociais e econômicas”.

Em muitos países mais pobres em que se localizam Patrimônios da Humanidade, as maiores mudanças desde 1972 foram explosões populacionais e um enorme aumento no turismo global, combinado com uma ausência de políticas públicas para lidar com ambos os fenômenos. Angkor Wat, um complexo de templos no Camboja, e a fortaleza Inca de Machu Picchu, no Peru, são frequentemente citados como locais de importância histórica mundiais que podem estar sendo seriamente danificados por um grande fluxo de turistas. Ao reconhecer e por consequência divulgar atrações individuais, a Uesco pode estar prejudicando a causa conservacionista.

Mas não há maneiras fáceis de conservar locais de Patrimônio da Humanidade em países pobres; são necessárias ações delicadas que promovam o equilíbrio, muita diplomacia local e envolvimento de longo prazo, de acordo com organizações que trabalham na área. Mesmo um Estado que funciona bem, democrático ou autoritário, não logrará sucesso em conservar monumentos ao menos que o povo nativo perceba um interesse em conservar sua herança e usá-la de modo racional, afirma Vincent Michael, o novo presidente do conselho do Global Heritage Fund (GHF), baseado na Califórnia. Os esforços fracassarão se a herança cultural for vista apenas como um empecilho ao lucro ou como algo do que podem ser extraídos ganhos de curto prazo. As economias locais também não deveriam ser dependentes demais do turismo, que pode variar com muita rapidez.

Mas a Uesco, como a maior parte das outras agências da ONU, sofre de uma cultura que prefere lidar com governos, e convive com satisfação com a ficção de que os governos se preocupam genuinamente com seus cidadãos e sua herança. Caso isso fosse verdade, o problema de proteger o patrimônio poderia ser resolvido de forma simples ao aconselhar os governos a aprovar leis boas e fiscalizar o seu cumprimento. Mas em muitos lugares em que locais de Patrimônios da Humanidade estão ameaçados, o governo ou não faz nada, ou age apenas conforme as ordens de uma elite cleptocrata. Em alguns desses lugares, os chamados agentes não estatais (de chefes criminosos a empresas privadas e líderes religiosos) são as únicas coisas que funcionam.

Em alguns casos, a Unesco ajudou a equilibrar o debate interno a favor da causa conservacionista apenas ao divulgar notas de repúdio. Mas para fazer o seu trabalho de modo eficiente, a Unesco precisa superar a sua própria aversão cultural a dialogar com o setor privado.

Fontes:
The Economist - The heritage debate: Living treasure

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