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O Natal dos paraenses

| 15/10/2007 | Enviar | Imprimir | Comentários: 1 |
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Foto: Antonio Gaudério / Folha ImagemNeste domingo, o povo do Pará fez uma grande festa de fé em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré – a Padroeira da Amazônia. A maior procissão religiosa da fé Cristã no mundo, a procissão do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, realizou-se em Belém do Pará, neste que foi o 215o Círio. O "Dia do Círio", como o paraense referencia, é tradicionalmente comemorado no segundo domingo de outubro, e é considerado como "O Natal dos Paraenses". A procissão do Círio, em Belém, só é superada em número de participantes pela procissão que acontece na Índia, em homenagem à deusa Xiva, porém aquela procissão não é da fé cristã.

Logo pela manhã, iniciou-se a procissão principal, que percorreu cerca de 4,5 quilômetros pelas ruas da "Cidade das Mangueiras". A pequenina "Imagem Peregrina" – como é chamada a imagem que participa das procissões – da Virgem de Nazaré foi levada por uma massa humana na direção da Basílica Santuário de Nazaré, cumprindo um ritual já amalgamado na alma do povo paraense.

O Círio de Nossa Senhora de Nazaré atrai milhares de devotos, que vêm à romaria agradecer por uma graça alcançada. Como prova da sua gratidão, inúmeros carregam na cabeça tijolos, pequenas maquetes de casas, de barcos, velas, cópias do corpo humano feitas em cera ou os mais variados objetos que representam o que receberam pela sua crença inabalável na Virgem de Nazaré. Num gesto de fé incondicional, que supera a dor física, alguns acompanham de joelhos todo o percurso da procissão.

Os romeiros e promesseiros vêm de todos os cantos do Pará, dos mais recônditos lugares do interior da Amazônia, de outros Estados do Brasil e até de vários países estrangeiros, o que confirma a pujança da procissão e a sua tradição cosmopolita. Muitos também aproveitam para rever os parentes que residem na cidade que é considerada o "Portal da Amazônia", os quais muitas vezes não se encontram há anos.

As comemorações do Círio já começam trinta dias antes, com a celebração da "Missa do Mandato" pelo Arcebispo Metropolitano de Belém. É o ponto de partida que dá início às peregrinações das centenas de imagens da Virgem de Nazaré, que percorrem com novenas noturnas, de casa em casa, todos os bairros da cidade.

Na sexta-feira, antevéspera do Círio, começaram as chamadas grandes homenagens a Nossa Senhora de Nazaré. A primeira foi a "Rodo-Romaria" formada por automóveis e caminhões que, enfeitados, transportaram a "Imagem Peregrina" desde o colégio "Gentil Bittencourt" até a cidade de Ananindeua, limítrofe a Belém.

No último sábado, de manhã cedo, a imagem foi levada até a "Vila de Icoaracy", localidade que faz parte da chamada "Grande Belém" e que de "Vila" só tem o nome, pois já é uma cidade, tal a quantidade de habitantes. Do porto de Icoaracy, a imagem voltou para Belém, na magnífica "Romaria Fluvial" (criada em 1986) onde cerca de 400 embarcações dos mais variados tipos e tamanhos são enfeitadas com motivos amazônicos e religiosos que, num espetáculo lindo, transportaram a imagem pela baía de Guajará até a Praça "Pedro Teixeira", localizada na orla de Belém.

Assim que chega em terra, a pequenina imagem foi conduzida em veículo especial e seguida por milhares de motociclistas e ciclistas. Iniciou-se assim a chamada "Moto-Romaria", que a levou de volta ao colégio "Gentil Bittencourt", onde permaneceu até a noite, quando aconteceu mais uma procissão – a "Transladação" -, com apenas pouco mais de um milhão de romeiros.

Esta procissão começou às dezenove horas e sempre percorre um trajeto contrário ao do Círio. Por ser noturna, durante o percurso os participantes levam velas nas mãos. Na "Transladação", a Berlinda com a imagem de Nossa Senhora de Nazaré foi levada até a Catedral da Sé. Lá a imagem passou a noite do sábado para o domingo, quando se realizou a procissão principal, a do Círio de Nossa Senhora de Nazaré.

Ontem, "Dia do Círio", logo ao nascer do sol, na praça em frente à Catedral da Sé uma Missa foi oficiada, e ao final da celebração a pequenina imagem de Nossa Senhora de Nazaré, coberta com o seu manto especialmente feito para a ocasião, foi reposta na sua Berlinda de cristal e madeira pintada na cor de ouro, e ainda decorada com folhas de ouro e caprichosamente ornada de flores.

A Berlinda foi atada a uma grossa corda (com duas polegadas de diâmetro e 400 metros de comprimento, pesando cerca de 600 quilogramas) e levada pelos romeiros que, com grande sacrifício, seguram e puxam a corda do início ao fim da grande procissão como pagamento das promessas pelo atendimento dos seus pedidos feitos para a Virgem de Nazaré.

Ao chegar à "Praça Santuário" – que fica em frente à Basílica -, o Arcebispo de Belém abençoou os romeiros, retirou a "Imagem Peregrina" da sua Berlinda e a expôs aos fiéis. Este ritual marcou o fim da grandiosa procissão, e a multidão, que no Círio do ano passado foi avaliada em mais de dois milhões de peregrinos, se dispersou. Este ano as autoridades estimaram a participação de cerca de 2,3 milhões de romeiros.

Vale ressaltar que esta pequena imagem é uma réplica da original, que tem apenas 28 centímetros de altura e foi achada à margem de um igarapé pelo caboclo Plácido José de Souza, em 1793, quando estava caçando. Plácido morava com sua família em uma pequena barraca num local afastado, mais exatamente num caminho na floresta chamado "Estrada do Utinga" (ou "Estrada do Maranhão"), que hoje é uma das mais centrais e importantes avenidas da moderna Belém, a "Avenida Nazaré". A imagem original fica sempre no "Glória", no alto do Altar-mor da Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré, em uma redoma de cristal à prova de balas e só é deslocada do "Glória" – para ser mais bem observada pelos fiéis – durante a "quadra Nazarena", que dura duas semanas. A que segue em todas as procissões é a "Imagem Peregrina", também chamada de "Senhora da Berlinda".

Quando a procissão do Círio terminou, as famílias paraenses se reuniram para o tradicional "almoço do Círio". É um almoço tipicamente paraense, nele são servidos à farta os pratos da maravilhosa e ímpar "cozinha do Pará", a mais típica do Brasil. Não falta o delicioso pato no tucupi, a maniçoba e os doces feitos com frutas paraenses.

O domingo do Círio determina o início da "quadra Nazarena", que dura quinze dias e durante a qual ainda é realizado o "Círio das Crianças" e a "Corrida do Círio", este é um evento que reúne fundistas de diversas partes do Pará e do Brasil. Finda a "quadra Nazarena" acontece a procissão chamada "Recírio", que é bem menor que a do próprio Círio. Nesta procissão a "Imagem Peregrina" volta da Basílica Santuário para o Colégio "Gentil Bittencourt", de onde só sairá outra vez no ano seguinte, no próximo Círio de Nossa Senhora de Nazaré.

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Uma opinião para o artigo: O Natal dos paraenses

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Opinião de EDVALDOTAVARES
Na data: 15 de outubro de 2007 as 22:30

O CÍRIO DE NAZARÉ É UMA TRADIÇÃO QUE DEMONSTRA O FERVOR DO PARAENSE PELA SUA PADROEIRA. Quando pequenos, no Rio de Janeiro, eu e meus irmãos, tomamos conhecimento do grande evento religioso que sempre ocorre no mes de outubro em Belém, Pará. Além da igreja de Nazaré, que os nossos pais sempre falavam, tenho uma irmã com o nome de Maria de Nazareth, conhecíamos o tacacá, a farinha grossa, o assaí, o vatapá, a maniçoba, e demais iguarias paraenses. Tínhamos, em casa, cuias, tipitís, redes para deitar, e, demais utensílios do Pará. Meus pais, paraenses de Belém, da Rua Boaventura da Silva, bairro de Umarizal, incutiram em nós, um amor profundo pelo Pará e pela Amazônia, que fui conhecer como estudante de medicina, no Projeto Rondon. O Opinião & Notícia é merecedor de parabéns pela publicação do Natal dos Paraenses de autoria de Ademir Guimarães. Esta reportagem evocou gratas recordações de momentos por mim vividos naquela cidade. Durante três meses que fiquei hospedado no Hospital Geral de Belém, Praça da Bandeira, estagiei no Serviço de Câncer Ginecológico do Instituto Ophir Loyola, HSE de Belém, fiz um curso de cirurgia geral na Faculdade de Medicina da Universaidade do Pará, e outras experiências médicas. O colega de O&N, Ademir, fez uma feliz abordagem dessa festa religiosa regional que desperta os mais fortes sentimentos enraizados de amor pela belíssima cidade de Belém do Pará e suas tradições. Belém, às margens do Rio Guamá, é o mais belo portal cultural da Amazônia, que sempre me fascinou pela beleza dos seus prédios tradicionais, do Teatro da Paz e ruas repletas de mangueiras. O opinante Ademir, penso eu, caso nada haja em contrário, tem a partir de agora um forte compromisso em manifestar opinião a respeito de acontecimentos que envolvam a Amazônia. "BRASIL ACIMA DE TUDO". SELVA!. MÉDICO. BRASÍLA/DF.

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Atualizado 09/02/2010 12h00