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MOSTAFA EL-ABBADI

O nome por trás da reconstrução da Biblioteca de Alexandria

Mostafa el-Abbadi, o notável estudioso egipcio e idealizador do projeto da Bibliotheca Alexandrina, morreu em 13 de fevereiro aos 88 anos

O nome por trás da reconstrução da Biblioteca de Alexandria
Abbadi começou a pensar na ideia ou no sonho de construir uma nova biblioteca, seguindo o 'exemplo espiritual' dos antigos, na década de 1970 (Foto: Reprodução/ Youtube)

“O universo, que outros chamam a Biblioteca” escreveu Jorge Luis Borges. Para Mostafa el-Abbadi, um dos mais importantes estudiosos egípcios da civilização greco-romana, o universo também era uma biblioteca. No seu caso o símbolo mítico, que havia ocupado sua mente e coração desde os dias de estudante, era a Biblioteca de Alexandria, uma das mais célebres bibliotecas da história e um dos maiores centros do saber da Antiguidade.

Abbadi, com o rosto sorridente e alegre, explicou que as expedições de conquista de Alexandre, o Grande, que mostraram pela primeira vez a diversidade e a riqueza cultural do mundo, tinham inspirado a criação da Biblioteca de Alexandria.

A construção foi financiada por Ptolomeu I, que sendo um apreciador da filosofia grega, queria que a biblioteca fosse o repositório de “todos os textos dignos de estudo do mundo”. Seu acervo compunha-se de meio milhão, ou mais de papiros, livros, pinturas e peças arqueológicas. Ptolomeu III conseguiu comprar, com o uso das mais diversas artimanhas, os originais das peças de Sófocles, Ésquilo e Eurípides. Abbadi tinha certeza de que a coleção incluía livros dos fenícios, textos budistas da Índia, um exemplar da Septuaginta, a mais antiga tradução em grego do texto em hebraico do Antigo Testamento, e textos do masdeísmo, a religião da Pérsia.

Em 1960, ao voltar para a Alexandria após concluir o doutorado em Cambridge, Abbadi não se conformou que a cidade moderna não tivesse uma grande biblioteca. O Egito não tinha mais as fortunas em prata da dinastia ptolemaica para investir em cultura. No entanto, a história da biblioteca extraordinária, incendiada por Júlio César, a quem culpava por sua destruição, ficara gravada na memória do mundo e Alexandria transformara-se em uma cidade cosmopolita da troca de conhecimento da Antiguidade.

Algumas imitações da Biblioteca de Alexandria foram construídas em Bagdá, Córdoba, Londres e Washington, DC. Os líderes mundiais que visitavam o Egito tinham curiosidade em conhecer sua história e detalhes de seu acervo riquíssimo. Assim, na década de 1970 Abbadi começou a pensar na ideia ou no sonho de construir uma nova biblioteca, seguindo o “exemplo espiritual” dos antigos. Mas só em 1986, a Unesco interessou-se em apoiar o projeto e o governo egípcio conseguiu recursos para iniciar a obra.

Abbadi tinha consciência das limitações do projeto. No início, reuniu todas as referências bibliográficas possíveis referentes à cidade de Alexandria. Em seguida, pesquisou lugares no Egito, Oriente Médio e África.  A nova biblioteca, assim como a antiga, deveria ser um centro universal do saber, com um acervo composto por doações de todos os países. Os documentos foram digitalizados para preservá-los com mais segurança, embora Abbadi gostasse de livros físicos e não de imagens em telas. A biblioteca atraiu estudiosos para o novo Templo das Musas, onde poderiam trabalhar em um ambiente quase sagrado de tolerância e ideias brilhantes.

A Bibliotheca Alexandrina foi inaugurada em 2002. O complexo arquitetônico é composto por um planetário, quatro museus, laboratórios, salas de conferência e cinco bibliotecas. Mostafa el-Abbadi doou à biblioteca seu precioso exemplar do Códice de Justiniano datado do século XVI.

Fontes:
The Econosmist-Obituary: Mostafa el-Abbadi died on February 13th

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