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ARTE SACRA

O que une a polêmica da Bienal à Capela Sistina?

Artistas cristãos foram pioneiros no beijo gay. Na Capela Sistina, Michelangelo retratou homens se beijando, há quase 500 anos

O que une a polêmica da Bienal à Capela Sistina?
Michelangelo era conhecido por amar o corpo masculino (Foto: Alonso de Mendoza)

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, pode ser um bispo evangélico, mas você precisa se perguntar quanta arte cristã Crivella viu. Pois foram os artistas cristãos que foram pioneiros no beijo gay.

Muito antes de Dmitri Vrubel retratar os líderes comunistas Leonid Brezhnev e Erich Honecker se beijando no Muro de Berlim, ou Banksy colocar seus Beijos de Copas em uma parede de pub em Brighton, foi a arte católica que primeiro explorou as alegrias dos homens beijando homens.

Isso porque na Capela Sistina, no Vaticano, no coração do mundo católico, Michelangelo retratou homens se beijando, quase 500 anos atrás.

No afresco do Juízo Final, as almas dos abençoados são mostradas abraçando e beijando. Essas almas são masculinas e musculosas, elas se abraçam com braços fortes, olham nos olhos um do outro e apaixonadamente colocam bocas nas bocas.

Michelangelo era conhecido, como reconheceu ao seu biógrafo Ascanio Condivi, por amar o corpo masculino, e foi acusado de transformar a Capela Sistina em uma “casa de banho” com todos os seus nus masculinos.

Foto: Alonso de Mendoza

Está na hora de a igreja reconhecer o lugar central da homossexualidade em sua arte. Católico fervoroso, Michelangelo também era um poeta filosoficamente inclinado, cujos escritos tentam reconciliar o cristianismo com sua sexualidade. Nos poemas dirigidos a seu amado Tommaso dei Cavalieri, ele argumenta que, amando a beleza masculina, adora a Deus.

Os casais se beijando na Capela Sistina são seu derradeiro desafio ao preconceito. Esses homens expressam seu amor de maneira aberta e orgulhosa – na casa de Deus. Seria bom para a igreja de hoje, assim como para os fiéis católicos, reconhecer e abraçar a mensagem gay do maior de todos os artistas católicos.

Michelangelo pôde fazer isso porque a Itália renascentista tinha uma compreensão surpreendentemente moderna da identidade sexual. Já em 1304, Giotto retratou um momento incandescente entre Judas e Cristo em seus afrescos na Capela Arena, em Pádua. Quando Judas entra com os lábios contraídos para dar um beijo na boca de Jesus, o Senhor olha diretamente nos olhos dele com intensidade ardente. Este é um beijo de traição, o sinal para prender a Cristo – mas é surpreendentemente íntimo.

O olhar nos olhos de Cristo não é apenas irado ou condenatório. Também é amor e aceitação – e tocado com paixão. Giotto deve ter visto homens se beijarem, ou beijou alguém, para pintar isso. E não era de algum modo pré-moderno, pré-sexual. Para o contemporâneo de Giotto, Dante escreve explicitamente sobre homens que amam homens em seu épico cristão O Inferno.

É verdade que o poeta conhece esses homens no inferno. Mas eles incluem seu próprio professor de poesia, Brunetto Latini, para quem ele não sente nada além de gratidão e amor por “Que a doce imagem vossa inda memora / Saudosa a mente e o paternal desvelo 84 / Com que me heis ensinado de hora em hora / Como homem faz-se eternamente belo”. A mesma lucidez com que Dante descreve a identidade gay em Inferno dá à obra-prima de 700 anos de Giotto seu frisson erótico.

O beijo gay da Marvel faz parte de uma grande tradição artística que remonta a Giotto e Michelangelo. O cristianismo precisa abraçar essa herança amorosa, não negá-la.

Leia também: Bienal rejeita ordem de Crivella para recolher livro com cena gay

Fontes:
The Guardian-Ban Marvel's gay kiss? You might as well ban the Sistine Chapel

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