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Música Clássica

O romance da flauta

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Num luminoso livro sobre o instrumento que escolheu, a flautista Laura Rónai nos lembra uma verdade às vezes esquecida: a importância da arte pela arte.

Em busca de um mundo perdido: Métodos de flauta do Barroco ao século XX (Topbooks, 2008, 314 pp.) pode parecer algo distante, pelo título e pelo tema. Mas sua leitura, além de propiciar o encontro com uma erudição substantiva, nos conduz pelas inevitáveis tecnicalidades com saborosa leveza e um senso fascinante da contextualização histórica.

Por feliz coincidência, mergulhei no livro num momento em que trabalhava na tradução de outro — O artesão, do sociólogo americano Richard Sennett — sobre o papel da cultura material e dos vínculos entre a mão e a cabeça no conhecimento que temos do mundo e em nossa relação com ele.

Se tivesse de resumir a investigação de Sennett, eu diria que ele tende a mostrar o que a cultura ocidental pode perder com a separação entre abstração e materialidade, teoria e prática, expressão e técnica, arte e artesanato. O entendimento de que não existe uma superioridade da cabeça sobre a mão, mas uma relação de recíproca nutrição, é uma pista a ser retomada — sustenta — pela sociedade moderna: “Precisamos (…) virar a página. E podemos fazê-lo simplesmente perguntando (…) o que o processo de feitura de coisas concretas revela a nosso respeito.”

O livro de Laura Rónai é fruto de uma vida de prática, pesquisa e amor de uma artista-artesã, integrando o valor inestimável da “mão-na-massa”, da experiência concreta, ao ato de reflexão e doação. Provavelmente pela primeira vez na literatura sobre o instrumento, ela compendia o que muitos flautistas célebres nos legaram sobre exercícios de aprendizado e destreza, embocadura e sonoridade, articulação e expressão. Começando com uma história da flauta, termina com um apanhado da “teoria e prática da improvisação” e uma apreciação do estado da arte na nossa época.

Professora da UNIRIO, conhecida Brasil afora por seus concertos e discos, Laura se especializou na flauta barroca e é um expoente internacional do movimento de revivescência dos estilos de épocas anteriores.

Mas por que resgatar formas de expressão musical de outros tempos? Basicamente, porque elas somam, mostra o levantamento de Laura Rónai, bem sintonizado com nossa época pós-moderna de síntese e ecumenismo.

Entre os instrumentos de sopro da tradição ocidental, a flauta é o que mais depende de elementos imponderáveis no processo de produção da sonoridade: não conta com uma embocadura já preparada, ao contrário do oboé, da clarineta e do fagote, com suas palhetas, nem estabelece contato direto da boca com os orifícios por onde a coluna de ar adquire forma e direção, como no caso da trompa ou do trompete.

Essa dificuldade física é o ponto de partida de um complexo emaranhado de fatores em que o controle do ar soprado — e, portanto, o resultado musical — depende do tamanho e da forma dos lábios e da cavidade bucal; do estado de relaxamento ou tensão da garganta e das bochechas; dos golpes de língua e do ângulo de incidência da coluna de ar sobre o bisel (a “chanfradura feita na espessura do orifício do bocal”, pela qual o ar, resvalando, produz o som do instrumento); e até da postura do corpo e da cabeça ou da direção do olhar!

Como parece mais complicado (superficialmente, claro) que o ato de um pianista que simplesmente ataca as teclas com seus dez dedos e o peso dos braços, dos ombros e do tronco!

A dificuldade é ainda maior no caso da flauta barroca, que não dispõe de certos recursos facilitadores da moderna, como o sistema de chaves introduzido no fim do século XVIII para maior agilidade digital e produção de semitons cromáticos.

A anterior “precariedade” estava ligada a uma ética e a uma estética próprias. Na era barroca, a desigualdade na duração e no ritmo das notas, a variação dos diapasões de afinação, a inventiva e a ornamentação, a primazia ou pelo menos a posição de igualdade do intérprete frente ao compositor, tudo dava conta de um fazer musical que era vivência do momento, anterior à sacralização da obra escrita para a posteridade que veio vindo na era romântica.

A passagem para o século XIX foi de muitas mudanças: no lugar dos salões aristocráticos, salas de concerto públicas, com a necessidade de projeção sonora mais arrojada; adoção gradual do metal como material privilegiado (no lugar do marfim, da porcelana ou até do cristal) em formato cilíndrico, e não mais cônico; busca do temperamento igual, com sua “democracia entre as tonalidades” e as novas possibilidades de modulação, mas também a perda de um certo poder expressivo da velha “desigualdade” artesanal; primazia da agilidade e da homogeneidade das notas; introdução dos exercícios de destreza.

O estudo da flauta, como dos demais instrumentos, baseava-se antes na prática de trechos musicais normais. A partir das inovações modernas, uma idéia inconcebível até então ocupa o terreno: a repetição mecânica de exercícios concebidos ou adaptados especialmente para esta finalidade, como esteio do aprendizado do instrumento. Era um reflexo da era da industrialização e das máquinas.

Se antes o instrumento se adaptava ao intérprete, é agora o contrário que deve acontecer. Explica Laura: “Se nos métodos antigos o ouvido é a medida de todas as coisas — caso o som obtido seja bom, todas as regras podem ser esquecidas –, nos métodos mais modernos prevalece a mecânica dos gestos — ou seja, se todas as regras forem seguidas, não há como não se chegar a um bom resultado.”

Toda essa grande (e gradual) virada é um dos pontos nevrálgicos do romance da flauta relatado por Laura Rónai. A paixão com que os teóricos desse período de transição desciam a detalhes e terçavam armas em torno de questões infinitesimais da técnica, da fatura do instrumento e da arte da interpretação dá conta do fim de uma era e da abertura de novos mundos. As mudanças na vida das sociedades, na cabeça das pessoas e na cultura musical se entrelaçam com harmônica artesania nas páginas de Em busca de um mundo perdido.

O que ficava para trás era um mundo de maior delicadeza e finura da prática e da escuta. Os contrastes menores de dinâmica levavam o músico a trabalhar como um ourives as inflexões de tempo, as variações de cor e articulação e a própria respiração, para enriquecer o resultado musical. Laura Rónai com a palavra: “Em geral, quanto mais para trás voltamos os nossos ouvidos, mais o som parece ser suave e ‘focado’. O som considerado belo no século XVIII, suave e redondo, com grande variação de cor, foi gradualmente cedendo espaço para um som forte, metálico, penetrante mesmo. Na medida em que o século XIX progredia, a igualdade e a uniformidade de timbre também passam a ser cada vez mais desejadas.”

Hoje conhecemos bem as belezas e possibilidades da flauta moderna: a confortável fluidez, a homogeneidade brilhante da sonoridade, o alcance dinâmico e a precisão da afinação. O que não quer dizer que a sutileza e a delicadeza também não estejam no seu repertório.

Mas no instrumento barroco as características e dificuldades específicas da produção material do som remetem a um ethos artesanal cujo resgate nas últimas décadas não serve apenas para nos dar acesso a uma diferente suavidade da sonoridade, a outra variedade tímbrica e delicadeza do filigranado expressivo. Ajuda também a retomar contato com os mundos de proximidade e intimidade do homem com seus instrumentos e fazeres, a redimensionar o esforço e o trabalho bem realizado por si mesmo, a valorizar a conversa olho-no-olho e o momento presente, a expandir nossos limites reconhecendo os que existem.

Quando quero ouvir essa música, uma das preferências é o maravilhoso CD que Laura Rónai gravou em 1995 com o cravista Marcelo Fagerlande, num repertório impecavelmente selecionado de obras de J. S. Bach, C. P. E. Bach, Jacques Hotteterre e François Devienne. Laura tem atualmente disponível um CD com o conjunto americano Triomphe de l'Amour, apresentando trio-sonatas de Joseph Bodin de Boismortier (A CASA Estúdio, 2006). E no mês de agosto estará se apresentando na Sala Baden Powell e em várias Lonas Culturais do Rio com o Grupo Re-Toques (acompanhada de Helder Parente, voz e flautas doces; Mário Orlando, viola da gamba; Sula Kossatz, espineta), num repertório da época de João VI.

Eis a programação: 6/08, 10h: Lona Cultural Municipal Carlos Zéfiro – Anchieta; 7/08, 19h30: Sala Baden Powell – Copacabana; 13/08, 11h: Lona Cultural Municipal Sandra de Sá – Santa Cruz; 20/08, 11h: Lona Cultural Municipal João Bosco – Vista Alegre; 27/08, 11h: Lona Cultural Municipal Elza Osborne – Campo Grande. Lona Cultural Municipal Elza Osborne – Campo Grande.

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6 Opiniões

  1. Inês Estrada disse:

    Seduzida pelo comentário de Clóvis Marques, vou comprar o livro de Laura Rónai e aguardar por este que ele está traduzindo, O Artesão.

  2. Katia Cunha disse:

    amei!!

  3. Arlon Borges disse:

    Gostei, vou comprar o livro!

  4. Assis de Mello disse:

    Vamos nessa, ler o livro da Laura Rónai e aguardar a tradução e O Artesão. Adoro esta coluna, Clóvis.
    Será que temos no Brasil algum livro que trate dos instrumentos utilizados na música clássica ? Gostaria que meu filho aprendesse um instrumento.

  5. juliana disse:

    gotei demais da reportagem " romance da flauta"também sinto esta arte em meu lábios e dedos…
    agradeço o aviso no orkut!
    gostei do jornal
    e indicrei a outros!
    bom trabalho!

  6. francielly disse:

    obrigada por me passar esse site maravilohoso !
    mande me sempre
    beijos

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