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O sensível tema da imigração na Alemanha

Os legados da divisão e exclusão da Alemanha dificultaram a compreensão das discussões referentes à política de asilo durante a recente campanha eleitoral

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Richard, um professor de línguas clássicas aposentado, não gosta de discursos enfáticos. No entanto, este homem reservado e solitário, o protagonista do sétimo romance de Jenny Erpenbeck, não consegue se conter diante do drama dos refugiados africanos em Berlim.“Se eles sobreviverem”, disse, “então Hitler de fato teria perdido a guerra”.

Os legados da divisão e exclusão da Alemanha dificultaram a compreensão das discussões referentes à política de asilo durante a recente campanha eleitoral. Portanto, a excelente tradução de Susan Bernofsky do livro Go, Went, Gone foi publicada em um momento oportuno para os leitores anglófonos. Criada em Berlim Oriental, Erpenbeck descreve em seus livros relatos de pessoas que ficaram no lado errado da história. Richard, que cresceu na República Democrática Alemã, usa sua experiência como um cidadão comum, de classe média, em seu trabalho como voluntário com um grande grupo de refugiados da Líbia.

Fugindo da fome, da perseguição ou do “caos da guerra” em diversos países da África Ocidental, eles trabalharam como migrantes na Líbia durante o governo de Muammar Kadhafi. Quando o ditador líbio foi deposto, disseram, “ninguém nos apoiou”. Decididos a partir de um mundo cada vez mais hostil, centenas morreram nos barcos superlotados dos traficantes de pessoas. Os sobreviventes reuniram-se nas praças de Berlim, onde Richard começou a ajudá-los.

Erpenbeck trabalhou como voluntária com migrantes africanos em Berlim. Assim, Go, Went, Gone incorpora elementos documentais, como as sucessivas etapas de dispersão dos refugiados, o pesadelo burocrático que ameaça afogá-los “em rios e oceanos de papel”, mas as descrições comoventes de gestos de solidariedade e equívocos exploram cada “linha invisível” entre as pessoas, com um lirismo que transcende um mero texto informativo.

Os novos amigos de Richard, Rashid, Karon, Yussuf, Ithemba, têm uma enorme carga de lembranças e sofrimento. Suas vidas foram interrompidas como “se o golpe impiedoso de uma faca as tivesse cortado”. No entanto, o colapso da antiga União Soviética havia ensinado a Richard que as fronteiras tinham uma “vida efêmera”. E com sua convicção que a humanidade “não tem duas metades”, Erpenbeck conecta as agitações políticas e sociais do passado e do presente, a Europa e a África. Em um texto em que o lírico e o satírico se alternam, ela mostra que o isolamento que inspira medo, emocional ou político, prejudica tanto os construtores de muros como os que ficam do outro lado.Não escapamos à sorte de nossos vizinhos, diz um ditado popular.

Fontes:
The Economist-Migration and identity in a new German novel

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