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Os últimos dias das livrarias

Com aumento de vendas online e downloads, livrarias físicas no Estados Unidos caminham para a extinção

Os últimos dias das livrarias
Livrarias como a Borders se preparam para deixar o mercado nos Estados Unidos

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Todos sabem que as vendas nas livrarias despencaram porque consumidores estão pedindo seus livros online ou realizando downloads para seus e-readers. Livrarias podem ser ótimas para relaxar e procurar livros, mas é na internet que os negócios são feitos. No mais recente capítulo da saga da Borders, a cadeia de livrarias concordou em vender seus bens por US$ 215 milhões à Direct Brands, uma companhia de distribuição de mídia pertencente à Najafi, um firma de private-equity, que também assumiu US$ 220 adicionais em dívidas. Isso servirá como lance de abertura para o leilão de falência da empresa, marcado para o dia 19 de julho.

O que acontecer no leilão ditará o futuro da livraria, que já fechou mais de um terço de suas lojas. Como a Direct Brands é uma distribuidora de música, DVDs e livros online, alguns acreditam que o acordo com a Najafi não fará diferença na tentativa de manter as livrarias abertas. Ao invés disso, a empresa irá apostar na rede de distribuição e liquidar todo o resto. Independentemente do desfecho, o cenário não parece animador para os empregados e patrões (desde que passou a procurar por proteção de falência, a empresa – que emprega mais de 11 mil pessoas – acumulou mais de US$ 191 milhões em perdas, de acordo com o Wall Street Journal)

Como a Barnes & Noble, a Borders tem a reputação de ser uma gigante corporativa brutal que liderou uma competição mais humana de venda de livros por décadas, e agora parece estar colhendo o que plantou. Mas os gigantes do ramo também tiveram um papel importante com as única livrarias de cidades pequenas e subúrbios nos Estados Unidos, onde leitores muitas vezes se viam limitados ao livros vendidos no Wal-Mart. Nos centros urbanos, é possível encontras obras a preços mais baixos, flertar com outros fãs de literatura e ouvir leituras de autores visitantes. No resto do país, são livrarias como a Borders que propiciam uma rara atmosfera livre de pressões para os bibliófilos, quase sempre em shopping centers ao lado de alguma filial da Home Depot.

Nashville, no Tennessee, ainda se recupera do fechamento de várias livrarias, incluindo uma filial da Borders e uma popular loja da Davis-Kidd. O resultado, como descrito no Nashville Scene, é um “exemplo claro do quão detestável é viver num cidade em que sebos e as horríveis ofertas do Book-a-Million são tudo o que se tem”. O problema, no entanto, é que ninguém mais parece disposto a pagar o preço integral dos livros. Embora haja demanda para livrarias físicas onde seja possível encontrar pessoas, beber café e ler livros novos, tais lugares não podem existir se o marcado não tiver como acomodá-los.

Além de café, acesso Wi-Fi e o ocasional tapete de yôga, o que fará as pessoas pagarem o suficiente para justificar a existência das livrarias físicas. Poderiam as lojas independentes cobrar mensalidades que permitiriam o acesso a livros por um preço um pouco menor? Um modelo de patrocínio corporativo funcionaria? Ou talvez as livrarias pudessem se transformar em bibliotecas. Seja qual for o resultado, o mercado está destruindo um espaço público importante. Será interessante analisar o que preencherá o vazio deixado pelas livrarias.

Fontes:
The Economist - "Goodbye to bricks and mortar"

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2 Opiniões

  1. Carlos U. Pozzobon disse:

    Arriscando uma opinião na base do chutômetro eu diria que as livrarias devem se transformar num mix de café-biblioteca. Bem, algumas já oferecem café a 4 reais o expresso. Mas isso não paga a conta. Como viabilizar o empreendimento? Talvez criando um sistema de poltronas pagas, como se fosse um cyber-café, para as pessoas lerem. Eu tenho notado a grande quantidade de pessoas que vão às livrarias para folhearem revistas e que ficam lendo sentadas. Elas não vão comprar o livro, e no entanto ficam ali, lendo partes que acham mais importantes. Depois largam o livro e saem, como quem encerra uma visita. A livraria e as editoras não ganham nada. Nesse caso, elas bem que poderiam se transformar em bibliotecas pagas por hora, pois se a situação entre a oferta de livros (2 mil novos títulos por semana) e o número de leitores não aumentar, então a única saída é a impressão sob demanda, uma atividade que já está em alta nos EUA e Brasil, para autores desconhecidos.

    A permanência (e proliferação) de sebos indica que livros a preços baixos tem um mercado muito maior que os novos, cujos preços são altos. Nesse caso, a lei Rouanet está sendo mal aplicada. Normalmente os financiamentos são feitos para edições luxuosas que terminam chegando as livrarias com preços salgados. Por que as editoras não conseguem financiamento para livros comuns? Por exemplo, um livro de R$60 poderia ser lançado a R$30 com financiamento de tradução ou/e de gráfica. Enfim, os livros novos estão muito caros, e não só no Brasil. E o e-reader veio para ocupar um nicho que certamente não vai eliminar o papel, mas já está roubando leitores aos milhares. Será que teremos livros novos de qualidade dentro de alguns anos, ou por força da massificação só sobreviverão livros ruins, como as nossas emissores FM nos dias atuais frente as outras mídias de broadcasting?

    Pelo que tenho visto nas livrarias, a maioria dos lançamentos são de best sellers, auto-ajuda, misticismo, direito, biografias de artistas e personalidades, e acadêmicos. Quer dizer: livros para satisfazer as grandes massas, mas com baixa densidade literária e intelectual. Isso não quer dizer que não tenham livros bons. Mas eles sempre foram a minoria hoje, ontem e em qualquer época. Quando a oferta ultrapassa a capacidade de exposição, as livrarias querem ficar com os títulos só 15-30 dias, e depois retirar o que não foi vendido para dar lugar aos novos títulos. Nenhuma editora aguenta uma circulação tão breve, pois uma edição é feita para 2-5 anos. Resultado: as distribuidoras ficam com uma logística congestionada. Em certo momento o que era novo passa a ser vendido como saldo pelos sebos, que terminam sendo os locais onde se encontra mais novidades do que nas livrarias, pois o acervo disponível é muitas vezes maior do que os lançamentos. Minha aposta é na combinação de novos com descontos e usados, pela perspectiva de garimpagem, uma das maiores emoções do leitor obsessivo, mas isso implica em grandes espaços dificilmente disponíveis em grandes cidades. O livro impresso continuará a existir, mas vai se acomodar a realidade do mercado.

  2. Luiz Mourão disse:

    Poucos prazeres são tão bons quanto entrar numa livraria e xeretar tudo o que lá está; mesmo que não se compre algo…
    Espero que a extinção das livrarias físicas NUNCA aconteça…
    CRIANÇAS que crescem dentro de livrarias desenvolver um amor pelo livro e pelo ESTUDO que nenhuma tralha cibernética conseguirá promover…
    Mais uma inversão de valores do mundo…

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