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Música Clássica

OSB e Leopoldo Miguez de volta

A Sinfônica Brasileira retorna ao palco e o Salão Leopoldo Miguez está quase pronto. Por Clóvis Marques

As três orquestras profissionais do Rio de Janeiro e a orquestra da Escola de Música subiram ao palco estes dias, e as atenções se voltaram primeiro que tudo para a Sinfônica Brasileira, que voltou à atividade, dando início a um ciclo completo das Sinfonias de Beethoven — a ser concluído esta semana — sob a regência de Lorin Maazel.

Foi bom ver um regente de gênio empunhando um conjunto em crise mas formado por músicos com gana de tocar. Maazel é um dos maestros mais “objetivos”, se assim se pode dizer: a clareza das intenções se traduz na plasticidade límpida e no direcionamento inequívoco do gesto, econômico mas eloquente em sua autoridade. Beethoven se presta bem.

Ouvir as primeiras Sinfonias em sucessão é lembrar o salto quântico das duas primeiras, de espírito haydniano, para a terceira, a Eroica, em que um mundo novo se descortina: âmbito, ambição e expressão em dimensão pré-romântica e deliberadamente ‘humanística”, como a música ainda não soubera ser até então.

A “nova” OSB botou no palco do Teatro Municipal os cerca de 40 músicos que vêm de antes da crise, mais umas três dezenas de novas aquisições e de temporários. (Algo em torno de 15 músicos estrangeiros contratados recentemente ainda esperam visto do governo brasileiro, e se comenta nos bastidores uma suposta má vontade do ministro do Trabalho).

Maazel exibiu um Beethoven lépido, mais de empuxo que de arquitetura, com um belo equilíbrio dos naipes e meticuloso delineamento das intenções. A “cara” da orquestra é agora maciçamente jovem, indicando que a maioria dos músicos que aceitaram as avaliações são profissionais em início de carreira e cheios de gás. Bom por um lado, claro, trabalhoso por outro. O som saiu disciplinado, com ataques precisos, vontade evidente de frasear com capricho, mas o verdor — nos violinos sobretudo, que são os que logo ressaltam quando nem tudo corre bem — vai carecer de longo trabalho.

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Não pude ir ao concerto em que a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal deu prosseguimento a uma de suas séries mais inovadoras e justificadas: música de cinema com projeção do filme, desta vez Luzes da cidade, de Chaplin. Dias antes, a Petrobras Sinfônica dava uma versão sólida da Quarta de Bruckner sob a regência de um especialista, o austríaco Günter Neuhold. Na primeira parte do programa, uma interpretação cartesiana e por isso modesta do Concerto para violino de Sibelius pela jovem solista francesa Fanny Clamagirand: arco firme, elocução elegante, sonoridade límpida mas pequena e uma terrível falta de aspereza e perdição, indispensáveis nessa música de bardo roufenho hesitando entre o canto e a declamação.

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A boa nova da semana fica por conta da Escola de Música, que começou a comemorar seu 163º aniversário com a série (que vai até o dia 19) “Caminhos modernos: Música da segunda metade do século XX”. Só música rara, instigante e necessária: nomes como Ligeti, Takemitsu, Crumb, Messiaen, Reich, Stockhausen, Jolivet, Koellreuter, Boulez, Maderna, Scheffer, muitos brasileiros…

Salão Leopoldo Miguez (Fonte: Reprodução/UFRJ)

É esta a missão de um organismo como a Escola, há alguns anos dirigido com iniciativa e imaginação por André Cardoso. Melhor ainda foi ver, por um lado, o bom desempenho, no primeiro concerto (Corigliano, Lutoslawski, Chostakovich e William Schuman), do conjunto orquestral formado por 70 alunos de graduação e mestrado e técnicos que os orientam nas atividades curriculares, regidos por Tobias Volkmann. E, por outro, desfrutar do Salão Leopoldo Miguez, a joia inigualável da música de concerto no Rio de Janeiro, em pleno funcionamento, com seus 635 assentos novinhos em folha e quase no fim de uma reforma que o está deixando em ponto de bala.

O Leopoldo Miguez, onde há muito eu não ouvia música orquestral, tem fama de ser a melhor acústica do Rio. Ela é mesmo maravilhosa: generosa reverberação sem saturação das massas mais pesadas, espacialização ampla mas com localização clara das fontes sonoras, limpidez e mesmo nudez dos timbres, chegando nos tutti forte a um quase excesso de éclat, transparência das camadas, particularmente bem-vinda nas cordas, agradável sensação física da percussão grave.

Coisa para instrumentistas, cameristas, coros e orquestras de câmara ou sinfônicas estarem disputando a tapa — o que acontecerá, espera-se, quando o ar refrigerado finalmente for instalado, provavelmente até o ano que vem. O Banco do Brasil e a Petrobras têm participado ativamente do financiamento da reforma e um novo aporte está para sair, garantindo a refrigeração, os novos sistemas de som e luz…

Por falar em acústica, a da Sala Cecília Meireles está recebendo tratamento de renovação na atual reforma, a ser reinaugurada daqui a aproximadamente um ano apenas. São estudadas maneiras de compensar uma certa perda das frequências graves que sempre foi constatada em seu auditório, outra joia da acústica carioca. Os melômanos cariocas acostumados com os plissados das paredes laterais do auditório da Sala provavelmente não os encontrarão mais…

Para terem uma ideia do dinamismo na Escola de Música da UFRJ, sugiro uma olhada no site www.musica.ufrj.br

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1 Opinião

  1. Ademir dos Anjos disse:

    Prezado Clóvis,
    é precisa a sua percepção quando aponta o “verdor” da sonoridade da “nova OSB”. Mas a gana de tocar, na presente situação, soa como arrivismo deslavado. A orquestra que agora sobe aos palcos com o nome de OSB é, independente do programa escolhido, sempre um espetáculo trágico e de gosto amargo, especialmente para os músicos antigos que lá permanecem. Após se verem obrigados à humilhação de uma reavaliação, agora são personagens em concertos canhestros. A platéia, por sua vez, deveria saber que, ao aplaudir este conjunto, aplaude a covardia, a subserviência, o cabotinismo, a deslealdade, a arrogância e todas as demais máscaras que foram usadas ao longo do desenrolar da crise, com o único propósito de viabilizar os esquemas que perpetuam na direção do conjunto o grupo de senhores que lá está.
    Quanto ao profissionalismo da maioria destes músicos, creio que você se engana… os efetivos da orquestra foram maciçamente preenchidos com jovens estudantes. Estes jovens, quando voltarem para suas escolas e para as cidades onde vivem, terão de encarar o repúdio da classe de profissionais, que encherga na postura da Fundação uma clara afronta à atividade musical do país. Este é o preço que pagarão por ter aceito que a FOSB, de maneira irresponsável, os cooptasse.
    Como você bem disse, o processo de construção de uma sonoridade para este conjunto será trabalhoso. Por que, então, não fazê-lo com aqueles que tinham suas vidas atreladas sólidamente ao grupo? Os músicos demitidos foram, em sua maioria, justamente aqueles que guardavam mais fortes ligações com as tradições da OSB e de nosso meio sinfônico. Aqueles que tinham mais tempo de casa! Mas esta foi uma pergunta puramente retórica: os músicos da OSB foram demitidos precisamente porque não aceitariam participar nesta pantomima de engodo.
    PS:Viva o Salão Leopoldo Miguez!!! Viva a tradição musical carioca!!!

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