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ARTE E TRAGÉDIAS

Obra reflete sentimentos de migrantes que tentam chegar à Europa

Uma nova montagem de uma composição vocal e instrumental poucas vezes encenada evoca a crise migratória na Europa

Obra reflete sentimentos de migrantes que tentam chegar à Europa
Oratório de Henze inspirou-se na pintura de Théodore Géricault de 1819, A jangada da Medusa (Fonte: Reprodução/Getty Images)

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Em setembro do ano passado, Mamadou Ndiaye nadou durante 24 horas no oceano Atlântico. Enquanto lutava contra as correntes fortes e as ondas, seus olhos ficaram turvos de cansaço. Ndiaye, um professor de natação de Saint-Louis, no Senegal, foi seguido e filmado por barcos e drones ao longo dos dois dias.

Em março, sua imagem foi exibida em uma tela gigantesca na Ópera Nacional da Holanda na apresentação do oratório de Hans Werner Henze, “Das Floss der Medusa”. A obra, cantada por um coro de 115 cantores, associou diferentes formas de arte e tragédias antigas e atuais.

O oratório de Henze inspirou-se na pintura de Théodore Géricault de 1819, A jangada da Medusa. O quadro descreve o naufrágio da fragata francesa Méduse na costa da África ocidental ocorrido três anos antes. Depois que os passageiros e os oficiais embarcaram nos botes salva-vidas, o restante da tripulação construiu uma jangada e a amarrou nos botes. Mas o comandante deu ordens para cortar as cordas. Mais de 150 homens e uma mulher ficaram à deriva no mar. Com apenas alguns tonéis de água e de vinho, muitos se suicidaram, ou assassinaram seus companheiros em um ato de canibalismo. Só dez pessoas sobreviveram. A tragédia do Méduse comoveu o mundo.

O oratório, por sua vez, tem uma história conturbada. No início, Henze compôs um réquiem em homenagem a Che Guevara. Em 1968, sua estreia em Hamburgo atraiu protestos políticos, que se converteram em um tumulto e a estreia foi cancelada. A composição só foi ouvida pela primeira vez em 1971, em Viena, com poucas apresentações nos anos seguintes.

A nova produção de Romeo Castellucci, um diretor italiano de vanguarda, reflete o sofrimento dos milhares de migrantes, que se afogam no Mediterrâneo na tentativa de chegar à Europa. “O quadro de Géricault é uma metáfora da condição humana, dos pobres e infelizes abandonados pelos poderosos”, disse Castellucci.

O oratório, uma composição vocal e instrumental de caráter dramático, exige um grande coro. A montagem em Amsterdã contou com o coro da Ópera Nacional e de dois outros coros, o Capella Amsterdam e o New Amsterdam Youth Choir. Os cantores, iluminados como se fossem figuras fantasmagóricas, subiam e desciam em um elevador oculto atrás da tela, como se estivessem flutuando no mar. Em meio à música, a tela exibia a imagem de Ndiaye nadando no mar revolto. Algumas pessoas na plateia sentiram náuseas por causa domovimento constante das ondas.

“A música é fria e fragmentada”, observou Castellucci. “É construída como uma jangada, com pedaços diferentes dos destroços de um naufrágio. Ao ouvi-la é possívelsentir os momentos de crise, mas também a sensação de salvação.”

Seu principal desafio foi manter a dramaticidade da obra, em razão da falta de ação. “Na ópera há uma história que se desenrola diante do espectador”, observou Castellucci. “Um oratório aproxima-se mais da ideia de um ritual em que tudo está imóvel, suspenso no ar”. Castellucci visitou o local do naufrágio do Méduse e orientou Ndiaye a começar a nadar no lugar exato onde a jangada ficou à deriva. “É um símbolo de nossa época: a cabeça de um homem negro flutuando acima da água, tentando sobreviver”, acrescentou.

Fontes:
The Economist - Peril on the sea, in art and music

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