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A lente e o front

Quando a guerra é fotogênica demais

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Daqui a alguns séculos, quando pesquisadores ou curiosos manusearem o conteúdo atualmente publicado pelos jornais de todo o mundo, chamará sua atenção a enorme quantidade de fotografias de pessoas mortas estampadas com destaque pela imprensa ocidental naquela longínqua passagem do ano de 2008 para o ano de 2009.

Não é provável, mas pode ser que neste futuro distante o Hamas ainda esteja acusando Israel de matar crianças em escolas, e que Israel ainda esteja acusando o Hamas de fazer civis de escudos humanos, e até de desenterrar corpos e “plantá-los” nos escombros resultantes dos bombardeios à Gaza. O provável mesmo é que permaneça a dúvida sobre o que realmente — e exatamente — esteve por trás das dolorosas imagens desta guerra em particular.

Tratando-se dos bombardeios a Gaza, as dúvidas são por conta da chamada “guerra de informações” entre as duas partes envolvidas. É o jogo jogado. É o que não surpreende. Pior é quando a dúvida paira sobre o próprio trabalho de quem tem a responsabilidade profissional de transmitir informações sobre a guerra, ou seja, jornalistas e fotógrafos. Neste caso, a farsa não está no “script”, e pega o distinto público de surpresa.

Então, qual não foi a surpresa quando o documentário "A ponta do Iceberg", recém-lançado em Madrid e Barcelona (veja o trailer no fim do texto), pôs ainda mais lenha na fogueira de um antigo debate sobre a autenticidade da mais famosa fotografia tirada pelo mais famoso dos fotógrafos de guerra. A fotografia em questão é “A morte de um soldado republicano”, do húngaro Robert Capa. É aquela famosa imagem em preto e branco de 1936 mostrando um miliciano armado tombando morto no exato instante em que é atingido por uma bala inimiga, e que ilustra dez entre dez verbetes, reportagens, páginas na internet e tudo o mais quando o assunto é a Guerra Civil Espanhola.

Há quem considere “A morte de um soldado republicano” o equivalente à Guernica, de Pablo Picasso, pintura que imortalizou o horror dos bombardeios aéreos às vilas rurais espanholas realizados pela unidade de artilharia enviada por Hitler como cortesia ao general Franco. Quanto à foto de Capa, o que se diz é que ela imortalizou nada menos do que a morte. Será mesmo?

Contra as especulações sobre a possibilidade de Capa ter encenado a foto, desde meados da década de 1990 os defensores da autenticidade de “A morte de um soldado republicano” apresentam o atestado emitido por Mário Brotons Jordá, um renomado historiador espanhol: o homem alvejado pela lente da câmera no exato instante em que recebeu um tiro mortal teria nome e sobrenome. Segundo Jordá, o morto chamava-se Federico Borrel García, ou “Taino”, como era conhecido este ex-integrante da Federação Ibérica da Juventude Libertária.

Mas o professor de fotografia Hugo Doménech e o jornalista e roteirista Raul Riebenbauer, os responsáveis pelo documentário  valeram-se de editores gráficos, estudos forenses e registros jornalísticos da época para fazer uma “autópsia” na mítica Fenton -- domínio públicofotografia de Robert Capa e provar por A mais B que o homem retratado não é  Federico Borrel García. E assim a maior de todas as discussões sobre as fotografias de guerra está de novo a todo vapor.

A bem da verdade, muitas das fotos clássicas batidas nos mais diversos fronts foram mais ou menos encenadas. Mesmo a cena daquela que é considerada a peça inaugural da fotografia de guerra recebeu os seus retoques. Para “compor” a célebre “O vale da sombra da morte”, que mostra o local de um bombardeio que matou muitos soldados durante a Guerra da Criméia, em meados de século XIX, o britânico Roger Fenton teve o cuidado de espalhar pela estrada as balas de canhão que estavam à margem dela. Muito mais fotogênico!

Iwo Jima -- domínio públicoA foto do levantamento da bandeira norte-americana na ilha japonesa de Iwo Jima e a imagem dos soviéticos hasteando sua bandeira vermelha no Reichstag, em Berlim, ambas tiradas em 1945, provavelmente também não foram registros genuinamente espontâneos dos fatos.

Em seu livro “Diante da dor dos outros”, a escritora norte-americana Susan Sontag faz considerações intrigantes sobre as lentes dos fotógrafos de guerra: “O estranho não é que tantas célebres fotos jornalísticas do passado, entre elas algumas das mais lembradas fotos da Segunda Guerra Mundial, tenham sido, ao que tudo indica, encenadas. Reichstag -- domínio públicoO estranho é que nos surpreenda saber que foram encenadas e que isso sempre nos cause frustração”.

De fato, caso um dia fique provado que “A morte de um soldado republicano” não retrata exatamente aquilo que expõe aos nossos olhos, é provável que tanto o fotógrafo quanto a fotografia que se tornaram verdadeiros ícones do século XX percam todo seu valor, ainda que o principal compromisso de Capa na Espanha não fosse “dar a verdade em primeira mão”, mas sim combater o fascismo.

Curiosamente, a recriminação a Capa não é a postura adotada por quem agora coloca em xeque a autenticidade de “A morte de um soldado republicano”. Em entrevista ao jornal espanhol El País, os próprios autores do documentário “A Sombra do Iceberg” deixaram claro: “Foi uma fotografia feita em defesa de ideais justos, como foi a causa da República espanhola”.

Não é muita gente que irá concordar. Em se tratando de jornalismo, costuma-se dizer que uma imagem vale mais do que mil palavras. E uma foto jornalística, digamos, não tão autêntica, mas carregada de simbolismo histórico? Vale quanto? 

Veja o trailer do documentário "A ponta do Iceberg".

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5 Opiniões

  1. ana lucia disse:

    Interessante

  2. Markut disse:

    Exatamente. A guerra se tornou fotogênica demais.
    Com isso ,se provoca um desvio do interesse em informar, para a satisfação naturalmente mórbida da curiosidade das multidões, desenfocando o que há de essencial nos acontecimentos registrados.
    Eis aí o campo fertil para as interpretações e explicações as mais superficiais e irresponsaveis dos soi disant formadores de opinião, pelo mundo afora.

  3. heloisa disse:

    Muito bom o comentário de Markut. Fundir ficcão e realidade ultimamente tem sido moda no cinema e na literatura. Atualmente como são imensas as possibilidades de criação e manipulação de fotos, deveria haver uma distinção maior entre arte de ficção e a de foto jornalismo. Quando a foto jornalística é fruto da imaginação do fotógrafo, deveria ter uma legenda explicativa.

  4. Emilio Mendonça disse:

    Muito boa matéria!
    Em vista das emocionantes fotos que são publicadas, percebemos que estamos diante da guerra comteporânea.
    O que se percebe, é que se faz mister convencer e comover as pessoas para justificar os atos praticados no decurso da guerra.
    A Guerra ganhou esta características com as duas grandes guerras e com a Guerra Fria.
    É uma nova exigência da guerra, o país beligerante deve transmitir a imagem heróica de seus atos.

  5. Langstein Almeida disse:

    Todo ato praticado pelo homem tem seu prazo de contestação. Esgotado este, acontece a prescrição.
    A veracidade da fotografia de "MORTE DE UM SOLDADO REPUBLICANO" só podia ser contestada enquanto os fatos que a compuseram estivessem vivos.
    Contestar agora, 70 anos depois, a veridicidade de uma obra de arte, é sem sobra de dúvida, ato de puro exibicionismo e profundo desrespeito à memória do morto ilustre.
    A contestação merece o repúdio dos vivos em reverência à história dos mortos.

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