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Música Clássica

Sensacional Yuja Wang se apresenta em São Paulo

Pianista estreia na Sala São Paulo com a casa lotada em três apresentações. Por Clóvis Marques

Sensacional Yuja Wang se apresenta em São Paulo
A pianista chinesa Yuja Wang, atual sensação da música clássica (Divulgação)

Um público curioso esgotou os ingressos estes dias, na Sala São Paulo, dos três concertos com a Osesp e do recital solo com que a chinezinha Yuja Wang estreou no Brasil, precedida por um buzz planetário em torno de seus sensacionais “dedos voadores” e de muitos vídeos no YouTube mostrando sua agilidade fenomenal.

Miss Wang, 24 anos, também tem sido saudada pela crítica internacional como uma musicista de qualidade acima do normal – especialmente para sua idade e o que se costuma esperar dos prodígios produzidos mais ou menos em série, hoje em dia, na China.

A francesa Maria–Aude Roux, ao dar testemunho no diário Le Monde desse excepcional talento, usou a palavra “chip” para se referir à figurinha de vestido colant, salto agulha e jeito elétrico que em julho subiu ao palco do festival de La Roque-d’Anthéron, panteão por onde desfilam anualmente os grandes do piano.

A expressão provavelmente era ambígua de propósito, mas sem demérito: diferentemente do colega francês Philippe Cassard, com o dobro de sua idade, que excursiona este mês pelo Brasil impregnado de décadas de vivência cultural e séculos de tradição musical, Yuja Wang é um repositório onde as informações apenas começam o seu input: por ação e percurso dela própria, claro, mas também pela interação com as plateias, da qual deriva hoje mais que nunca o perfil de um artista-comunicador.

Que depositamos nós, por enquanto, nos circuitos integrados de Yuja Wang? A primeira impressão é a do fenômeno geracional e de época: o DNA hiperdotado para a captação e reprodução das virtualidades; a potencialidade física e intelectual se desdobrando sem limites nem complexos num exemplo magnífico de mutação da espécie; um caso fascinante de assimilação cultural. E talvez sobretudo, para os apreciadores da música clássica para piano, uma elegância estilística e uma modéstia expressiva que se comparam tão favoravelmente com o facilitário sensacionalista de um Lang Lang.

O repertório escolhido para as apresentações em São Paulo privilegiava em sua variedade o motorismo, os ritmos e cores, a velocidade e os fogos de artifício: bastante Prokofiev, Rachmaninov, uma vertente Debussy-Albéniz-Ravel; em breve passagem por Beethoven, ela abriu seu recital com uma Sonata – a “Quase uma fantasia” Op. 27 nº 1, prima-irmã da Sonata “Ao Luar” – de expressão relativamente recatada no cânone do romantismo beethoveniano; percorreu-a com elegância um pouco branca, na igualdade das notas, na perfeição dos enunciados, no canto sem sentimentalismo do Adagio con espressione, na modelagem dos planos sonoros do Allegro final.

Dificuldade de traduzir sentimentos em música? E isto explicaria a ausência de obras românticas? Ou a impressão viria do meu input? Cedo para dizer, e sobretudo sem interesse. Yuja Wang é o que é: um fenômeno de civilização e uma pianista de mão cheia.

Nas peças de seu recital em que seria mais fácil buscar evocações e referências na memória e na fibra musical, o que senti foi uma espécie de voraz expectativa, uma abertura para possíveis: o pianíssimo mágico do Étude-Tableau Op. 39 nº 5 de Rachmaninov, o sotto voce das evocações ibéricas de Albéniz, a ausência de gravidade dos Espelhos de Ravel, o sarcasmo brincalhão e o marcato felino do Allegretto da cabeluda Sonata nº 6 de Prokofiev soavam como apresentação de credenciais de uma hiperdotada, e não como conversa de quem fala a iguais, embora a capacidade de construção do discurso já se ostente, orgulhosa.

Mas tudo virá, provavelmente: Yuja Wang é mil!

             

5 Opiniões

  1. Luiz Franco disse:

    Assim como jogadores de basquete e volei são mais altos, nadadores tem ombros largos velocistas são magros e etc. a Yuja tem as tres falanges de cada dedo exceto o polegar maiores que a maioria das pessoas, uma especialização por conta de muito esforço sem dúvida.

  2. P.F. disse:

    Ao Clovis Marques e amigos da O&N, um comentário sobre Yuja Wang e o público no blog do Álvaro Siviero!

    http://blogs.estadao.com.br/alvaro-siviero/yuja-wang-um-constrangimento/

  3. wander kimam disse:

    excelente espetaculo.parabens pelo ,min.da cultura deste estado.e parabens por contratar jovens talentos do mundo , monstrando a quem interessar o melhor da musica mundial. e dando exemplos paa varios jvens tirando-os da droga e do alcool. minhas congratulations novamente.

  4. Clovis Marques disse:

    Não, caro leitor, não há previsão infelizmente de uma apresentação da Yuja Wang no Rio. Muitas vezes acontece de grandes artistas se apresentarem em São Paulo, “mercado” de música clássica muito mais dinâmico e de muito maior demanda, mas não no Rio. Quem sabe se houver uma mobilização, com cartas à Sala Cecília Meireles ou à Orquestra Sinfônica Brasileira, por exemplo…

  5. P.F. disse:

    Clóvis, tem previsão dela vir tocar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro?

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