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Shakespeare & Company: livraria tradicional de Paris vira a página

Livraria que hospeda novos autores e artistas durante a noite resgata história de eventos com estrelas literárias internacionais

Shakespeare & Company: livraria tradicional de Paris vira a página
Sylvia Beach II na livraria que pertenceu ao pai (Reprodução/James O´Mara)

Da janela de frente para a rua, avista-se o Rio Sena e a catedral de Notre Dame dominando a Ilha de la Cité. No número 30 da rua Búcherie fica a livraria Shakespeare & Company, em Paris. O antigo proprietário, o norte-americano George Whitman, morava em um apartamento no terceiro andar do prédio onde fica a loja, até a sua morte em dezembro de 2011. Antes de se tornar uma livraria, o prédio – um dos mais antigos de Paris – abrigou um mosteiro.

Segundo George, o nome e o espírito da Shakespeare & Company, foram dados a ele em 1958 por Sylvia Beach, a proprietária da livraria original de mesmo nome. Inaugurada em 1919, na rua l’Odéon, em 1921, e se tornou o centro anglo-americano da vida literária em Paris, a favorita de Hemingway, Fitzgerald, Gertrude Stein, James Joyce e muitos outros. Forçada a fechar a loja durante a Segunda Guerra Mundial, Sylvia Beach nunca mais a abriu. Vários anos depois, Sylvia anunciou que iria passar o nome (e o espírito) da livraria para George Whitman, em 1951.

Sylvia Beach e George Whitman compartilhavam a crença em administrar suas livrarias como bibliotecas de aluguel, proporcionando um local onde os autores e poetas pudessem se reunir para apresentarem seus trabalhos e até mesmo terem um lugar para comer e dormir. Sylvia morreu em 1962. Segundo Whitman, em seu testamento, ela deixou uma série de livros de sua coleção particular para ele, além dos direitos legais da Shakespeare & Company. Quando sua única filha nasceu em 1981, Whitman a chamou de Sylvia Beach II. Hoje, gerenciando a livraria, a filha  sente como se nada tivesse mudado na paisagem literária de Paris.

Livraria é poupada do ‘progresso’

De acordo com Whitman, antes de sua morte, investidores tentaram comprar de qualquer maneira a livraria. A intenção era construir um condomínio com apartamentos com uma linda vista para Notre Dame. Whitman não cedeu e agora sua filha cuida da livraria e de vários apartamentos do edifício, incluindo o terceiro andar. Além disso, em 2009, ela comprou um espaço ao lado onde pretende abrir um café.

A livraria, assim como na década de 1920, continua servindo como hotel. Mesmo depois de fechar, às 11h, os clientes movem as pilhas de livros e dormem em camas improvisadas que funcionam como plataforma de exibição dos livros durante o dia. Slyvia fez questão de continuar com a tradicional prática de seu pai, que apelidou de “Hotel Tumbleweed”  a transformação da livraria à noite.

A regra geral permite que você durma na livraria caso você seja um escritor, embora muitas vezes, a permissão tenha se estendido a músicos, artistas e mulheres jovens. O primeiro passo era mostrar para Whitman seu manuscrito, escrever uma pequena autobiografia e, se aprovado, você poderia ficar na livraria em troca de trabalho, como a organização e a limpeza das prateleiras dos livros.

George Whitman quase chegou aos 100 anos. Morreu no dia 14 de dezembro de 2011, dois dias depois de completar 98 anos. Ele passou seus últimos dias cercado por fotos de amigos, com seus animais de estimação ao lado e sua filha lhe proporcionando a felicidade que ele desejava. Com pijamas, encostado em almofadas vermelhas, ele saciava seu apetite voraz por literatura lendo um livro por dia, uma recomendação que dava a todos os hóspedes do “Hotel Tumbleweed”. De seu retiro no terceiro andar, Whitman podia ouvir as vozes de novos autores lendo seus trabalhos, músicos tocando suas músicas e o badalar dos sinos de Notre Dame.

De acordo com Sylvia Beach II, a Shakespeare & Company está em plena atividade. Leituras, workshops e eventos de música são realizados com regularidade. Ela lançou um prêmio literário no valor de 10 mil euros para novos autores. E desde 2003, quatro festivais começaram a atrair estrelas literárias internacionais de volta à pequena livraria em frente ao Sena.

Fontes:
France Today - Shakespeare & Company: Turning the Page

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