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Tiradentes: um herói nacional e uma figura rara

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, nasceu em 16 de julho de 1746 e foi executado em 21 de abril de 1792

Tiradentes: um herói nacional e uma figura rara
Tiradentes foi um dos membros da Inconfidência Mineira, que lutou pela independência do país (Reprodução/Internet)

Um dos raros consensos de nosso tempo é o da ausência de heróis, de gigantes na paisagem humana e intelectual deste início de século, disse Carlos Heitor Cony em crônica escrita para a Folha de São Paulo em maio de 2004. No texto, o escritor ainda complementou seu pensamento afirmando que, se os heróis contavam com pouco espaço na história e nas cabeças das pessoas, os vilões não tinham esse problema: reis dos noticiários, esses têm vida breve e atuação datada, mas, enquanto estão atuando, roubam a cena de tal forma que fica impossível ignorá-los. Na ocasião, Cony citou Waldomiro Diniz, Cachoeira, Celso Pitta e Paulo Maluf. Não é difícil presumir que, fosse escrito hoje, o texto citaria Delúbios e Valérios.

Apesar da ausência de heróis na memória dos brasileiros, agravada pela tímida atenção que recebem dentro das salas de aula e nos livros escolares, algumas figuras ilustres se destacam e parecem ter seus feitos históricos bem claros para a maioria dos cidadãos. É o caso de Tiradentes – herói com direito a feriado nacional, o que torna mais fácil a sua memorização e valorização.

A ocorrência Tiradentes aparece aproximadamente 2.160.000 vezes no buscador Google, o que mostra que não é difícil encontrar dados relacionados a essa personalidade, diferente do que acontece com outros grandes nomes da história brasileira.

O fim da vida de Joaquim José da Silva Xavier, que viveu no século XVIII lutando pela independência do Brasil em meio à dominação dos portugueses, remete a questões relacionadas à impunidade que observamos ainda hoje no país. Quando a Inconfidência Mineira foi delatada, em 1789, por Joaquim Silvério dos Reis, seu líder Tiradentes não contava com influências políticas ou econômicas suficientes para reduzir a sua pena. Alguns filhos da aristocracia foram condenados a penas mais brandas quando houve o julgamento dos inconfidentes em 1792. Os castigos podiam ser, por exemplo, o açoite em praça pública ou o desterro. A Tiradentes – e apenas a ele, entre todos os membros da Inconfidência – restou a execução, em 21 de abril de 1792, e ainda a exposição de partes de seu corpo em postes da estrada que ligava o Rio de Janeiro a Minas Gerais. Sua casa foi queimada, seus bens foram confiscados e seus descendentes foram declarados infames.

Se ainda hoje nota-se e protesta-se contra o tratamento vip dado a presos que têm boas condições financeiras ou influências – ou ambos – em outros quesitos o Brasil atual é bem diferente da terra habitada por Tiradentes. Ele nasceu em 1746 na Vila de São João Del Rey, hoje a cidade mineira que leva o seu apelido – Tiradentes – e foi criado em Vila Rica – hoje Ouro Preto. Nessa época não havia no país constituição nem o direito de desenvolver indústrias em território brasileiro, e os impostos cobrados do povo pela metrópole eram extorsivos e provocavam revolta.

Tiradentes ficou órfão cedo, aos 11 anos. Trabalhou como mascate, pesquisou minerais e foi médico prático. Diz-se que tinha a habilidade de extrair dentes e colocar novos que ele mesmo fazia. Como militar, pertenceu ao Regimento dos Dragões de Minas Gerais. No posto de alferes comandava uma patrulha de ronda do mato, prendendo ladrões e assassinos.

A conspiração representada pela Inconfidência Mineira agregou militares, escritores de renome, poetas famosos, magistrados e sacerdotes e, influenciada pela independência dos Estados Unidos em 1776, tinha como principais idéias proclamar uma república independente, com a abolição imediata da escravatura; construir uma universidade; promover o desenvolvimento da educação para o povo e outras reformas sociais. O movimento planejava chamar o povo para protestar no dia em que o governo fizesse a chamada derrama – nome dado à cobrança de impostos – mas não chegou a se concretizar, devido à traição de Joaquim Silvério dos Reis, que se passou por companheiro para denunciar o grupo.

Tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional em 1938, a cidade de Tiradentes apresenta um acervo barroco que permaneceu escondido por muito tempo e hoje está sendo visto por visitantes de diversas origens. Entre seus pontos turísticos principais estão capelas construídas no período em que viveram os membros da Inconfidência – algumas foram habitadas por padres que participaram da conspiração – e o casarão da prefeitura, construído em 1720.

Templos históricos que remetem ao período vivido por Tiradentes, entre igrejas, museus e construções. Estão entre as atrações o Museu do Aleijadinho, o Museu da Inconfidência – que reúne documentos relacionados à Inconfidência – e 19 igrejas e capelas. A cidade foi também tombada como Patrimônio Nacional, em 1938, e declarada Patrimônio Cultural da Humanidade em 1980 pela Unesco.

5 Opiniões

  1. Luiz Franco disse:

    Não glorifica o nosso orgulho nacional reconhecer que não há vitórias nem heróis. A independência é obra do príncipe regente Dom João e a república devemos à influência deletéria de Dona Teresa Cristina, mal-amada e deprimida com a perda dos filhos. E o Tiradentes nem existiu.

  2. Andre Luiz D. Queiroz disse:

    @Antonio de Pádua,
    Sim, é documentado que muitos maçons tomaram parte no movimento da Inconfidência Mineira. Mas não propriamente a Maçonaria, como instituição, que àquela época sequer havia sido fundada oficialmente no Brasil. Como referência sobre o assunto, sugiro este site: http://www.revistauniversomaconico.com.br/historia/a-inconfidencia-mineira-e-a-maconaria-uma-tradicao-inventada/

    @Kalil Saliba,
    O amigo demonstra grande revolta contra as injustiças de nossa sociedade, o que é louvável. Mas, se permite o comentário, eu diria que deveria ter um pouco mais de senso crítico (“aquela pitada de sal”!) antes de aceitar como verdades as versões sobre fatos e personagens da história conforme nos são passados. Duvido muito que Tiradentes tenha jamais dito tal frase : “Dez vidas eu tivesse, dez vida eu daria ” ! Sabemos que Tiradentes, como herói nacional, é um ‘personagem’ inventado a partir da proclamação da República. Inclusive a tradicional imagem de Tiradentes de cabelos e barba longa indo para a forca são inventadas (não há qualquer documentação sobre sua verdadeira aparência…) para que se parecesse com Jesus Cristo!

  3. Kalil Saliba disse:

    Tiradentes é uma figura impar, verdadeiro heroi do povo brasileiro, “Dez vidas eu tivesse, dez vida eu daria ” destemido e generoso. As classes dominantes tiveram que assimila-lo para afastar o fantasma Tiradentes, todos os anos encenam a farsa com farta distribuição de medalhas, num verdadeiro esquartejameto do Alferes rebelde, pregando seus pedaços nos peitos dos Silvérios dos Reis de plantão, verdadeiros bandidos e traidores do povo e da nação. Sua altivez destemida foi a senha para o levante e rebeliões do povo oprimido que deram suas vidas na Inssureição Baiana, na Cabanagem, na Confederação do Equador, na Revolução Farroupilha, em Canudos e Contestado, na Invicta Coluna Prestes, no Caldeirão e em Trombas e Formoso nas tomadas de terras das Ligas Camponesas, na ressitençia armada a ditadura militar e facista. Êsse é o heroi do povo brasileiroque luta para varrer toda a dominação imperialista do Brasil. Seus verdugos ainda estão ai, cúmplices de todos os males por que passa o povo e nação.

  4. Gelio Fregapani disse:

    A ausência de herois passa pela má escolha destes. O Tiradentes, foi endeusado pela República, que não passou de uma quartelada bem sucedida. Buscou seu “herói” porque a Inconfidênciaqueria proclamar uma república em Minas. Pode ser um herói para um partido, não para a Pátria
    Se era um herói, deveria ter morrido lutando e não se etregar para ser enforcado (se é que o foi, pois há rumores que, salvo por irmãos maçons), teria sido encontrado posteriormente em outros locais.
    De qualquer modo, ao se revoltar contra impostos (bem menores do que os atuais), os ricos inconfidentes foram pedir auxílio aos EUA . Se bem sucedidos fossem, não teriamos o Brasil de hoje. Não me pareceum herói verdadeiro!
    Herois verdadeiros nós temos; desde Henrique Dias até a figura impar e sem jaça de Caxias.
    Bandidos e traidores também tivemos. Nada de anormal pois todos os povos os tiveram. Até Esparta os teve.Alguns os consideram heróis, mas só se o foram para o inimigo, como Calabar e o Zumbi. Esta é a real diferença entre o nosso povo e os outros.
    Isto se corrige na escola. GF

  5. Antonio de Pádua disse:

    Só considero um absurdo a omissão da participação da Maçonaria na Inconfidência Mineira e mesmo o fato de Tiradentes ter pertencido a mesma. São fatos relevantes e comprovados documentalmente.

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