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MAR DE ARAL

Como um mar em extinção virou uma atração turística

O desaparecimento do mar de Aral, um desastre ambiental, transformou uma pequena cidade portuária na Ásia Central em atração turística

Como um mar em extinção virou uma atração turística
A água, que desapareceu de Moynaq em torno de 1986, agora está a 120 quilômetros de distância (Foto: Wikimedia)

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A violenta tempestade que atingiu o antigo porto de Moynaq, no Uzbequistão, em maio, surpreendeu até mesmo um ecologista local, Gileyboi Zhyemuratov, que há muito tempo convive com a devastação provocada pelo desaparecimento do mar de Aral.

Uma névoa espessa e quente cobria a paisagem quando ele abriu a porta da casa. “Tudo estava branco como neve”, disse Zhyemuratov, de 57 anos, descendente de gerações de pescadores em um lugar onde não há mais peixes.

Durante três dias, a tempestade jogou lodo no leito seco do que foi o quarto maior lago de água salgada do mundo. Não se via o céu e uma camada grossa de areia salgada cobriu o rosto dos moradores de Moynaq.

Quando a tempestade começou, Vladimir Zuev, um piloto aposentado russo que trabalha como agente de turismo estava sentado na pérgula de sua casa. “A paisagem desapareceu”, disse ele. “O sal seco grudou na pele e foi difícil tirá-lo com água.” As flores em seu jardim murcharam.

Mas, paradoxalmente, o desastre ambiental causado pelo homem tem sido a principal atração da cidade nos últimos anos. “Muitas pessoas têm curiosidade em ver uma tragédia ambiental”, disse Vadim Sokolov, diretor do International Fund for Saving the Aral Sea (Ifas).

No lugar onde as ondas batiam com força nos muros do farol do porto, as traineiras enferrujadas espalham-se no leito arenoso do lago, como ossos de dinossauros queimando ao sol. Selfies do cemitério de barcos fazem sucesso no Instagram.

Com o crescimento do turismo, agora Moynaq tem três hotéis, um cibercafé e o governo local está organizando um festival de música eletrônica, que se realizará em 14 de setembro.

A água, que desapareceu de Moynaq em torno de 1986, agora está a 120 quilômetros de distância. Só no modesto museu local, com fotografias rasgadas e pinturas nostálgicas do horizonte antes azul, os visitantes veem a água.

O desaparecimento do lago “não é apenas uma tragédia, é um desastre ambiental contínuo, que se desenrola diante de nossos olhos”, disse Helena Fraser, diretora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento no Uzbequistão.

Um antigo planejamento agrícola define as culturas a serem plantadas, disse Yusup Kamalov, presidente da Union for the Protection of the Aral Sea. Além disso, em vez de sistemas modernos de irrigação por gotejamento, os agricultores usam técnicas obsoletas que consomem 80% da água disponível.

A origem do problema remonta ao período de 1953 a 1964, quando o primeiro-ministro Nikita Khrushchev decidiu intensificar o programa de planificação agrícola na Ásia Central, apesar do terreno árido. Os rios Amu Darya e Syr Darya que desaguavam no mar de Aral foram desviados para irrigar as plantações de trigo e algodão.

A mudança climática também aumentou a escassez de água. As geleiras nas montanhas do Turcomenistão e do Quirguistão, que deságuam nos dois rios estão diminuindo devido ao aquecimento global.

Hoje, o mar de Aral tem apenas 10% de sua superfície original, com 29 metros de profundidade.

Em uma recente visita a Moynaq, especialistas estrangeiros ficaram chocados ao ver que o rio Amu Darya transformara-se em um pequeno riacho em seu leito arenoso.

No entanto, ao longo da estrada, os agricultores irrigam os arrozais, apesar da ordem do governo para cultivar outras culturas. “É um absurdo que ainda cultivem arroz nesse lugar”, disse François Brikké da Global Water Partnership, uma organização com sede em Estocolmo.

Antes de o lago desaparecer, Moynaq era um porto próspero, com 25 mil habitantes. A maioria trabalhava na pesca ou na fábrica de conservas. Cerca de 20% do peixe consumido na União Soviética originava-se das 30 espécies de peixes do mar de Aral.

O desaparecimento do lago gerou uma série de problemas de saúde, como doenças pulmonares e renais, assim como o aumento da mortalidade infantil. Além disso, sem o vento que soprava na água, os verões são mais quentes.

Em 2005, a construção de uma represa pelo governo do Cazaquistão no rio Syr Darya recuperou o mar de Aral do Norte, com uma superfície de 30 metros de água. Os peixes voltaram e a pesca está recomeçando, disse Marat T. Narbayev, vice-diretor do Ifas no Cazaquistão. Aral, um porto de pesca e cidade portuária no extremo oposto do mar de Aral, retomou suas atividades.

“O principal objetivo hoje é amenizar as consequências de um dos piores desastres ambientais da história moderna da humanidade”, observou Boiy B. Alikhanov, líder da organização Ecological Mouvement.

 

Leia também: Imagens da Nasa mostram que o mar de Aral secou quase por completo

Fontes:
The New York Times-How a Disappearing Sea Became a Town’s Main Attraction

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