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"Against Happiness: In Praise of Melancholy". Estes são o título e o subtítulo de um polêmico livro escrito por Eric G. Wilson, professor de inglês da Wake Forest University, na Carolina do Norte. A tradução literal para o português seria algo como "Contra a Felicidade: O Elogio da Melancolia".
Mas a editora Campus, que lançou o texto por aqui, optou por chamá-lo de "Para que Felicidade?". Pode não ser a opção ideal, mas talvez seja a forma menos traumática de apresentar algo tão controverso a leitores habituados com guias passo-a-passo rumo à felicidade completa e duradoura.
Escrevendo especificamente sobre os EUA e para leitores norte-americanos, Wilson aborda o que chama de "obsessão pela felicidade", algo cuja prova seria o uso generalizado e indiscriminado de anti-depressivos. E mais: eliminar a melancolia, que considera fonte de criatividade, seria um desastre para a arte, a poesia e a música.
Franz Kafka, Jackson Pollock, Tennessee Williams, Mark Rothko, Edgar Allan Poe, Ernest Hemingway. Todos melancólicos, diz ele.
O livro foi objeto de resenhas mais ou menos severas, é verdade, porém sempre com grande destaque em páginas de prestígio, como são as do New York Times, do Washington Post e da revista britânica Economist. A crítica publicada no Times, por exemplo, considera o texto de Wilson "um ataque antiquado ao otimismo norte-americano: enquanto as massas levam uma vida de felicidade superficial, o homem superior exulta em sua tristeza".
O crítico do jornalão nova-iorquino ainda ironizou o autor, dizendo que se a psiquiatria tivesse sido praticada no século XVIII nós poderíamos ter sido privados da Terceira Sinfonia de Beethoven.
Nesta entrevista ao Opinião e Notícia, Wilson diz que vem sendo mal interpretado por muita gente, e fica "frustrado" ao saber que, no Brasil, "Against Happiness" anda sendo colocado nas prateleiras, quem diria, de auto-ajuda…
Por que escrever um elogio à melancolia, e logo num momento em que o boom de livros de auto-ajuda indica que há não apenas uma obsessão, mas um consenso em torno do que se chama de "ser feliz"?
Escrevi "Against Happiness" para oferecer um contraponto aos livros de auto-ajuda, que elegem a felicidade como o objetivo primordial da vida e, portanto, dizem que a tristeza é algo a ser superado ou evitado — geralmente com um método bastante simples de cinco ou dez passos. Em meu livro, quero mostrar que a tristeza não é apenas uma parte natural da vida, mas na verdade uma parte essencial dela.
E porque precisamos tanto da tristeza?
Quando estamos tristes costumamos questionar o statu quo, nos tornamos mais introspectivos. Sendo mais instrospectivos, descobrimos partes de nós que nunca teríamos encontrado caso permanecêssemos sempre contentes. Quando encontramos estas novas habilidades, geralmente queremos que elas se desenvolvam. Criamos assim novos modos de ser e novas maneiras de ver as coisas. Hoje em dia, a tristeza é auto-reveladora e criativa.
Aí entra a tese central do seu livro, ou seja, que a melancolia é uma potência para a criatividade, e que as tentativas de controlar a tristeza de forma massiva seria algo desastroso para as artes em geral. Mas além das artes, você acha que a frenética busca pela felicidade tem implicações também em outras áreas da existência, como a vida cotidiana?
Sim. Se as pessoas supervalorizarem a felicidade a custa da tristeza, elas correm o risco de abraçar apenas um lado da vida. Ignorando ou reprimindo a melancolia, elas podem levar uma vida menos intensa, uma "meia-vida". Em última instância, uma vida falsa. Na vida quotidiana, isto induz um grande número de pessoas a simplesmente fingirem que são felizes, não sendo verdadeiras com elas próprias.
Quando você escreve coisas como "a maior tragédia é viver sem tragédia", não teme ser mal interpretado em um país que vive sob um forte apelo à auto-estima e à superação após a tragédia coletiva que foi o 11 de setembro?
Bem, eu realmente venho sendo mal interpretado por muitos leitores que estão partindo do princípio que eu defendo as tragédias e o cultivo da melancolia. Na verdade, eu digo apenas que a tragédia é uma parte natural da vida, parte do ritmo de alternância entre alegria e tristeza. Ignorar isto é apostar numa existência demasiado superficial.
Você se opõe veementemente ao uso de anti-depressivos, salvo nos casos graves de depressão. Como você situa a depressão no contexto de sua tese? Qual o limite que você estabelece entre a melancolia e a depressão?
Para mim, a depressão é um estado passivo, caracterizado por letargia, apatia, paralisia, comportamento anti-social, alienação, desespero. Como tal, ela é extremamente dolorosa, e possivelmente um estado destrutivo que deve ser tratado de todas as formas possíveis, inclusive com medicação. Em contrapartida, a melancolia é um estado ativo, uma nostalgia que possibilita o aprofundamento das relações com o mundo. A melancolia leva à contemplação, ao auto-conhecimento. Esta compreensão da psique leva frequentemente a novas visões e novas atitudes.
Um crítico do New York Times escreveu, referindo-se ao seu livro, que defender a depressão porque ela inspirou Beethoven seria o mesmo que aceitar a violência e as drogas nos subúrbios porque grandes nomes do jazz vieram de lá. Como você vê esta comparação?
Este é um argumento ridículo. Eu não estou de forma alguma dizendo que uma doença serve de musa para a criatividade. O que digo é o seguinte: grandes artistas, independente de suas doenças físicas ou psicológicas, sentem-se incomodados em relação ao statu quo. Eles simplesmente não estão confortáveis com as convenções da sociedade. Esta desorientação os incentiva a explorar novos caminhos de relação com o mundo.
No Brasil, estamos lembrando os 100 anos da morte um de nossos maiores autores, Machado de Assis. Uma das coisas que mais se diz sobre Machado é justamente que sua obra se move entre o sorriso e a melancolia. Isto leva a crer que sua tese também se aplica aos trópicos?
Embora meu livro seja focado nos EUA, o país que conheço melhor, acredito que minhas idéias sobre o poder da melancolia e o perigo da supervalorização da felicidade estendem-se a todos os seres humanos.
No Brasil, aliás, algumas livrarias estão colocando "Against Happiness" na seção de auto-ajuda, lado a lado com livros que "ensinam" como alcançar a felicidade. Você sabia disto? Não é uma contradição?
Não sabia. E fico um pouco frustrado em saber. Acredito que os editores entendem que as pessoas procuram mais pela seção de auto-ajuda do que pela seção de estudos filosóficos ou estudos culturais. Se isto vende mais livros, tudo bem, embora meu livro certamente se encaixe melhor nos estudos culturais. O problema é que o livro é extremamente eclético. É parte filosofia, parte crítica literária, parte memórias, parte crítica cultural.