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Música Clássica

Uma arte apolínea

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A arte de Arnaldo Cohen dá vontade de manifestar admiração e gratidão.

Não que ela busque o aplauso fácil, concentrada e substantiva que é. Mas a técnica fenomenal e a aptidão natural do pianista, unidas a um amadurecimento que se ouve no burilamento dos detalhes, na concepção geral de uma interpretação e também no sentimento, levaram muito justificadamente o público do Teatro Municipal do Rio de Janeiro ao delírio, no último sábado.

Houve tempo em que o grande músico brasileiro expatriado — primeiro em Londres e há alguns anos na Universidade de Indiana — dava a impressão de interpor na relação com a audiência uma vontade de distanciamento olímpico. Lembro que, há dez e vinte anos, minha já então grata mas às vezes perplexa percepção parecia captar um certo medo da entrega, com todo o foco na fatura artesanal e no rigor musical.

Outra idéia ligada aos grandes equilíbrios gregos me socorre, na tentativa de entender o elo que Cohen busca estabelecer: ele é um artista apolíneo, com sua ênfase num controle que pode ser marmóreo (no melhor sentido ou não), contraposto, na conceituação de Umberto Eco, às efusões mais hedonistas e expansivas do temperamento dionisíaco. Mais mente que coração, resumia outro fã.

Mas Cohen, chegando agora aos 60 anos, está num apogeu em que as certezas se amainam, a adrenalina da busca da perfeição se dilui em maior disponibilidade, a possibilidade de apreender e viver o momento tempera a ansiedade de chegar a algum lugar.Arnaldo Cohen

Esses equilíbrios contribuíram para uma interpretação portentosa e clara, dias atrás, do Concerto nº 3 de Rachmaninov, acompanhado com fervor e acuidade por Roberto Tibiriçá à frente da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Foi interessante que a OSB programasse os dois concertos juntos. Cohen está para gravar os quatro Concertos para piano de Rachmaninov com a Osesp, e terá sido este o móvel principal — além, é claro, da popularidade dessas obras perenes, que nada têm de ‘menores'.

O Concerto nº 2 é um transbordamento infindável de generosidade melódica e arte da sedução. Limpidamente emocional. O Terceiro, misterioso, parecendo mais tosco e solicitando a contribuição do ouvinte, como um torso de Michelangelo, convida a imaginação do espectador, está para o antecessor mais famoso como os excessos do rococó para o barroco, como a saturação de certa música tardo ou pós-romântica centro-européia para o romantismo.

Há nele o mesmo risco de deformação ou congelamento 'coisificado' de um impulso vital, um certo excesso de notas, de episódios, de elã. Fosse ao vivo, com Nelson Freire ou Bruno Leonardo Gelber, até onde me leva a memória, ou em disco, com Martha Argerich, sempre oscilei, diante do Nº 3, entre o fascínio e uma certa impressão de estar sendo ‘enganado' por um mamute generosamente disforme.

A interpretação de Arnaldo Cohen foi uma dádiva neste sentido: pude perceber, talvez pela primeira vez, o arco desse concerto sendo desenhado, seu direcionamento e coesão, a sucessão necessária dos episódios. A aparente ausência de hesitação, dúvida ou questionamento, em Cohen, suscita esse ‘thrust', esse empuxo afirmativo que permitiu a descoberta.

Ele é feito, além disso, a cada momento, de mesmerizante perfeição do acabamento, de uma siderante volúpia sonora da mão esquerda (houve momentos em que quase achei que os seus graves provinham dos contrabaixos!), associada à clareza diamantina da direita. Menos 'flou' artístico, menos bruma poética, mais relevo na dicção, mais clareza nos enunciados e sobretudo um propósito global mais nítido dentro do referido (e valorizado) mistério.

Já é um prazer simplesmente ver as mãos longas e fortes (grandes como as de Rachmaninov?) do pianista domando com vigor o teclado ou percorrendo-o com velocidade mais delicada.

É possível que falte a Cohen uma poesia da verdadeira entrega, como ficou evidente, ao ter início o concerto, nos momentos em que a sonata "Patética", de Beethoven, pede um pouco mais de liberdade imaginativa, menos escrúpulo pós-clássico e mais soltura numa conversa entre iguais — o compositor e o público, intermediados pelo intérprete.

Mas a musicalidade viril de Arnaldo Cohen já não monologa voltada para a própria e narcísica perfeição. É pura comunicação.

Veja aqui a programação completa para o Rio de Janeiro e São Paulo.

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1 Opinião

  1. Ludwig von Mises disse:

    As informações são interessantes, mas o estilo é complicado, às vezes difícil de entender.

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