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Música Clássica

Uma estreia de Henrique Oswald em Londres

A pianista Clélia Iruzun e o Quarteto Coull mostram aos ingleses o esplêndido Quinteto opus 18, uma das jóias da literatura musical brasileira. Por Clóvis Marques

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Henrique Oswald (Fonte: Reprodução/oswald.com.br)

A música de Henrique Oswald (1852-1931) foi durante muito tempo um “caso” no cânone brasileiro. Nascido no Rio de pai suíço-alemão e mãe italiana, sentindo-se talvez mais europeu que brasileiro depois de passar a maior parte da vida adulta na Itália, mas não sem a típica ambiguidade que essas coisas suscitavam no Brasil ainda recendendo a colônia, Oswald nunca foi um bem-amado por aqui.

Quantas vezes sua música de matriz romântica e marcadas influências europeias, sem preocupação de vinculação ou inspiração “nacional”, precisou ser defendida e ainda precisa? O próprio Mário de Andrade, campeão no meado do século XX de uma estética nacionalista, não se eximiu de encontrar nela qualidades como uma “flexibilidade melódica” que “o emparceira com Fauré”, mas também lamentava que seu “epicurismo fatigado e refinado” o impedisse de “nos dar a sua expressão particular de nossa raça”.

As duas citações foram extraídas do fervoroso estudo que o pianista José Eduardo Martins dedicou ao compositor (Henrique Oswald, músico de uma saga romântica, Edusp, 1995). Outro grande pianista brasileiro, Eduardo Monteiro, igualmente ligado à Universidade de São Paulo, é também convicto divulgador da obra de Oswald, cuja fama ficou muito tempo atrelada à miniatura pianística Il neige, vencedora em 1902 de concurso promovido pelo jornal parisiense Le Figaro, tendo no júri sumidades como Saint-Saëns e Fauré.

Com o fim de carreira dos nacionalismos e das compartimentalizações estéticas, tanto mais saboroso redescobrir o grande criador de música de câmara que foi Henrique Oswald. Andei explorando suas miniaturas pianísticas gravadas por Martins, a Sinfonia de 1910 na gravação histórica (mas apenas mediana) da OSB com Edoardo de Guarnieri, e embora a produção de Oswald ainda abarque três óperas, bastante música sacra e outros gêneros, é na música de câmara mesmo que ele parece ter deixado um legado que clama por ser resgatado.

Nesse terreno, comportando vários quartetos, trios, sonatas e um octeto, o Quinteto opus 18 para dois violinos, viola, violoncelo e piano, composto em Florença em 1894, é uma obra de maravilhosa energia ondulante, profusão melódica e rigor formal digna de frequentar assiduamente as salas de concerto de qualquer latitude.

Quarteto Coull (Fonte: Reprodução/Chris Redgrave)

Reproduzimos abaixo em dois links o recital que a pianista Clélia Iruzun e o Quarteto Coull deram no último dia 24 de novembro na Purcell Room do Queen Elizabeth Hall em Londres. Foi uma programação de música brasileira que contou também com a participação do violonista Fábio Zanon. Clélia e o prestigiadíssimo Quarteto Coull excursionaram em 2010 pela China e virão ao Brasil em 2012. Para o leitor que quiser se aprofundar um pouco mais na música de Oswald e encontrar gravações na Internet, o site mantido pela família do compositor pode ser de ajuda.

Clélia Iruzun (Fonte: Reprodução/cleliairuzun.com)

Clélia Iruzun explicou seu projeto ao Opinião e Notícia:

- Qual foi espírito desse concerto na Purcell Room?
Clélia Iruzun: A escolha das peças para piano solo foi elaborada a partir do programa como um todo. Como já sugere o título do festival – “Brazil, Three Centuries of Music” -, a intenção foi mostrar um panorama da música brasileira dos séculos XIX, XX e XXI com a maior variedade possível de compositores e estilos. Para nós, era importante evitar qualquer ideia pré-concebida ou favorecimento de algum período ou compositor. A finalidade principal era justamente mostrar ao público internacional a diversidade e riqueza de nossa cultura. Esse concerto lançou o festival que em dois anos irá expandir-se para justamente abranger um número maior de compositores, e possivelmente incluir outras artes. Com o crescimento econômico do Brasil e sua importância política atual no mundo, é o momento de fazer conhecida a cultura brasileira fora de nossas fronteiras.

- E por que a inclusão do Quinteto de Oswald?
C. I.: Sempre que vou ao Brasil visito a Biblioteca Nacional e pesquiso partituras brasileiras. Há muitos anos achei a partitura do Quinteto, e desde então procuro uma oportunidade para tocá-la. Após uma turnê na China com o Coull Quartet, mencionei esse quinteto e eles ficaram curiosos. Então marcamos uma leitura e imediatamente eles se entusiasmaram pela obra. Então, assim que o lançamento do festival foi confirmado, vimos a oportunidade de fazer sua estreia em Londres.

- Qual era seu conhecimento ou seu contato anterior com a música de Henrique Oswald, especialmente suas peças para piano?
C. I.: Tenho um conhecimento ainda limitado de suas obras. Existe pouca coisa gravada e o acesso às partituras ainda é relativamente difícil. Toquei sua famosa peça para piano Il Neige e pretendo estudar outras para piano, música de câmara e também para piano e orquestra.

- Quais as impressões sobre o Quinteto que você pôde colher junto aos membros do Coull Quartet?
C. I.: Considerando a qualidade da obra, achamos que esse quinteto deveria figurar no repertório tradicional de pianistas e quartetos pelo mundo. A impressão do público foi a mesma, principalmente quanto ao terceiro andamento, de alta inspiração e comparável às grandes obras românticas da época. Talvez por ser uma peça tão europeia em sua natureza tenha causado imediata comunicação com o público inglês.

- E você, pessoalmente, que diria da índole, da expressão e das qualidades musicais do Quinteto?
C. I.: A primeira coisa que nos impressionou foi o fato de ser tão bem escrito, tanto para piano como para as cordas. Ele coloca uma escrita virtuosística para o pianista e reserva para as cordas as grandes linhas musicais. Talvez por isso o equilíbrio seja perfeito e não exista problema de integração entre piano e quarteto. Um crítico inglês comentou, após o concerto, que o segundo andamento tinha resquícios de Saint-Saëns, particulamente na escrita pianística, e que o terceiro andamento foi o ponto alto do quinteto.

Quinteto opus 18 de Henrique Oswald – Movimentos I e II: Clélia Iruzun e Quarteto Coull

Quinteto opus 18 de Henrique Oswald: Movimentos III e IV: Clélia Iruzun e Quarteto Coull

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  1. Rosana Lanzelotte disse:

    O quinteto de Oswald – em edição de Eduardo Monteiro – e o trio op. 45 estão disponíveis no site Musica Brasilis (www.musicabrasilis.org.br), assim como outras obras de camâra do período.
    A missão em 2012 é disponibilizar a maior parte da produção de câmara do Alberto Nepomuceno, tarefa que será realizada com o prêmio obtido no FAM – Fundo de Apoio à Música.

  2. Eduardo Monteiro disse:

    Henrique Oswald é autor de um legado que o coloca de pronto entre um dos compositores mais significativos da história da música brasileira, devido não apenas a sua extensão e variedade, mas, sobretudo, por sua qualidade. Seu catálogo comporta por volta de 150 títulos distribuídos entre obras para teclado (piano solo, piano a quatro mãos e órgão), música de câmera (violino e piano, violoncelo e piano, trio com piano, quarteto com piano, quarteto de cordas, quinteto com piano, octeto), música sinfônica (duas sinfonias, obras para orquestra de cordas, instrumento solista e orquestra), música vocal (voz e piano, voz e orquestra, coro, coro e orquestra) além de três óperas. Mas Oswald talvez seja mais comumente lembrado como compositor de peças para piano, e isso se deve provavelmente ao fato dele próprio ter sido um excelente pianista, professor desse instrumento do Instituto Nacional de Música (atual Escola de Música da UFRJ), tendo nesse estabelecimento formado toda uma plêiade de pianistas, muitos dos quais tornam-se figuras fundamentais no panorama da música erudita brasileira: Luciano Gallet, Lorenzo Fernandez, Frutuoso Viana, J. Otaviano, Maria Antônia de Castro, Rubens de Figueiredo, Walter Burle Max, Sílvia e Heloísa Figueiredo, Leonor Macedo Costa, Honorina Silva e Iolanda Ferreira. Sem dúvida o piano ocupa lugar de destaque na obra do compositor, mas é, sobretudo, através de sua música de câmera (que dispensa o uso desse instrumento apenas em seus quatro quartetos de cordas e no octeto) que podemos conhecer o compositor em toda sua magnitude.

    Natural do Rio de Janeiro, criado em São Paulo, aos 16 anos de idade Oswald mudou-se com os pais para a Itália. Em Florença encontrou mestres que lhe marcaram profundamente – notadamente Giuseppe Buonamici – casou-se e constituiu família, tendo tido cinco filhos. Sua volta para o Brasil em 1903 foi motivada pelo convite para ser o diretor da mais importante instituição musical da jovem República, o Instituto Nacional de Música do Rio de Janeiro, tendo em vista a morte do ex-diretor Leopoldo Miguez e a renúncia de Alberto Nepomuceno depois de alguns meses no cargo. Nos 28 anos que viveu no Brasil até sua morte em 1931, Oswald gozou do prestígio de ser considerado um dos mais, se não o mais importante compositor brasileiro de sua época. Não obstante, sua morte se deu em um momento histórico onde a música brasileira procurava encontrar uma linguagem de coloração nacional. Sendo assim, sua obra, e aquelas de muitos de seus contemporâneos, foi considerada inapropriada, por não possuir nenhuma referência perceptível nesse sentido. De fato, Oswald nunca teve intenção de escrever música com características brasileiras da forma como preconizavam os nacionalistas. Seu estilo claramente descende dos autores alemães (em especial Schumann e Mendelssohn) e evolui em direção à musica francesa (Saint-Saëns, Franck e posteriormente Fauré e Debussy). Esse é, aliás, o percurso que, grosso modo, se verifica entre os poucos compositores contemporâneos italianos que, como Oswald, não se dedicavam primordialmente à ópera. Dentre esses pode-se citar Giuseppe Martucci que, diferentemente de Oswald, permanece em uma linhagem germânica, uma vez que sua estilo evolui em direção a Brahms.

    O Quintetto op. 18, em Dó Maior, é de 1895. Embora as primeiras incursões de Oswald no terreno da composição datem da década de 1870, apenas nos anos de 1880, quando começa a estudar com Buonamici, passa a produzir obras de fato relevantes. No terreno da música de câmera, a primeira produção original (excluindo-se assim duas transcrições e uma obra inacabada) data de 1888. Trata-se do Piccolo Quartetto op. 5. Não deixa de ser surpreendente que as três criações que se seguem, Trio op. 9, Quartetto op. 17 e Quintetto op. 18, sejam obras que testemunham total domínio camerístico. O op. 18 prima por seu equilíbrio e transparência. Trata-se de uma obra relativamente simples. Sua grande qualidade de realização, inspiração e comunicabilidade permitem que seja facilmente apreciada desde a primeira escuta. É dedicada a Sra. Karl Hillebrand, figura relevante da intelligentsia florentina, e comporta quatro movimentos. Percebe-se aqui o apego de Oswald à escola germânica, podendo-se encontrar ecos de Schumann e Mendelssohn, principalmente no primeiro e quarto movimentos, respectivamente. Não obstante, o colorido harmônico do desenvolvimento do movimento inicial já indicam a aproximação de Fauré e da escola francesa, que se processará mais claramente em obras futuras. O segundo movimento é um Scherzo – Prestissimo, em Lá maior, típico do compositor. As escalas rapidíssimas do piano dão a sensação de grande vivacidade. No trio o compositor joga com a oposição entre o piano e a sonoridade das cordas. Esse movimento originalmente pertencia ao Piccolo Quartetto op. 5, sendo adaptado e reaproveitado no op. 18. O terceiro movimento, Molto adagio, em lá m, de grande beleza, é de um romantismo exacerbado, o que não é muito comum na obra do compositor, e por sua densidade expressiva, acaba se constituindo no centro de gravidade da peça. O quarto, Molto allegro, em Dó Maior, se desenvolve em um movimento quase que ininterrupto, típico de Mendelssohn.

    Logo após sua composição, Oswald passa a utilizar o Quintetto na maioria de seus programas, evidenciando o especial apreço que tinha por essa peça.

    Eduardo Monteiro

  3. André Cardoso disse:

    Prezado Clóvis

    Parabéns pela matéria sobre Henrique Oswald, um dos mais importantes compositores brasileiros e que merece ser mais conhecido pelo grande público. Gostaria de contribuir com algumas informações.

    De fato a obra de Oswald sofreu com o preconceito dos modernistas com relação ao repertório de nosso romantismo musical, incluindo aí não só Oswald mas também Miguez, Carlos Gomes e, em parte, Nepomuceno. Mas Oswald nunca deixou de ser tocado. Uma boa parte de sua obra para piano solo foi publicada no Brasil por grandes editoras. Pode não haver muitos exemplares disponíveis para venda, pois muitas estão esgotadas e não foram reeditadas, mas estão disponíveis nas bibliotecas (Nacional e da Escola de Música da UFRJ). As gravações são inúmeras, desde os anos 50 com Arnaldo Estrela até as mais recentes de José Eduardo Martins. O selo Marco Polo tem em catálogo o CD da Maria Inez Guimarães com distribuição mundial.

    Da música de câmara há edições impressas como a do Quinteto op. 18, feita nos anos 40 pela Escola de Música em uma série de partituras editadas por Luiz Heitor Correa de Azevedo, e a de José Eduardo Martins para a Edusp com o Quarteto op. 26. A extinta editora Movimento publicou as obras para violoncelo e piano. No site oficial do compositor, por você mencionado, há várias obras bem editoradas para download, ou seja, só não toca quem não quiser.

    Gravações do Quinteto há pelo menos quatro: a do Fritz Jank e Quarteto Municipal de São Paulo, dos anos 50 e reeditada em CD, a do José Eduardo Martins nos anos 80, a do Quarteto de Brasília em 2000 e a do grupo Ars Brasil, tendo ao piano Fernando Lopes. Essa última gravação, inclusive, faz parte de um álbum com três CDs com uma quase integral da obra de câmara de Oswald (4 quartetos de cordas, 2 quartetos com piano, o quinteto op. 18, o Trio op. 45, a sonata fantasia e a elegia para violoncelo e piano). O álbum foi lançado em 2010 com patrocínio da Petrobras.

    Outros exemplos de música de câmara de Oswald gravada também não faltam, especialmente os antigos LPs da FUNARTE e do Quarteto da UFRJ, todos reeditados em CD.

    No terreno da música vocal há a excelente gravação do Julio Moretzsohn com o grupo Calíope para o Requiem e alguns motetos.

    O que falta ser conhecido de Henrique Oswald é sua obra sinfônica e as óperas. O caso mais crítico é o das óperas. Das três apenas “Il Neo” foi ouvida duas vezes. A estréia nos anos 20 do século passado foi através de uma transmissão radiofônica. Depois foi encenada uma única vez no Teatro Municipal há mais de sessenta anos. “Le Fate” e “Croce d’Oro” estão inéditas com os manuscritos guardados no Arquivo Nacional. Do repertório sinfônico existe a gravação da Sinfonia op. 43 com a OSB, que você mencionou na matéria. O Roberto Duarte gravou a Elegia com a Orquestra da UFRJ em 91 em CD há muito esgotado. O Andante com Variações para piano e orquestra foi gravado pelo maestro Bocchino com a Sinfônica Nacional. Não há muita coisa além disso. As sinfonias op. 27 e 43 foram editoradas e estão disponíveis no Banco de Partituras da Academia Brasileira de Música. Mas para serem ouvidas os diretores artísticos das orquestras brasileiras precisam programá-las.

    Obrigado e um abraço

    André Cardoso
    Diretor da Escola de Música da UFRJ

  4. Rafael FONSECA disse:

    Clóvis,

    Surpreendente o quinteto, estou aqui ouvindo o movimento III como um “bis”, pois já ouvi a obra toda. Muito bom. Me lembrou também um pouco Brahms…

    Excelente idéia de colocar os vídeos! Bravo!

    Abraço musical do Rafael. (www.vira.art.br)

  5. Regina Caldas disse:

    realmente, a harmonia entre o piano e o quarteto é impecável! Os dois opus apresentados foram muito bem escolhidos, são lindos!

    para pessoas da minha idade, a educação musical foi mais universal( além das composições cívicas e religiosas, o que aprendiamos nas aulas de canto eram as músicas folclóricas de origem européia! Tanto, que décadas mais tarde, passando o primeiro dia do ano nas montanhas tirolesas, parei para ouvir um cantor diante de um bar. Surpreendi-me que pudesse cantar com ele..Depois entendi que eram aquelas velhas músicas do folk europeu aprendidas no passado). O conhecimento de grandes compositores brasileiros veio bem mais tarde, exceto Carlos Gomes com óperas como “O Guarani” “Lo Schiavo” e “Fosca” e Villa Lobos cantadas por Bidu Sayão.