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O lançamento do livro em homenagem às vedetes será na segunda-feira, 31
Cultura

Vedetes brasileiras voltam a brilhar, agora em livros

Dois lançamentos simultâneos homenageiam as atrizes mais importantes e exuberantes do teatro de revista. Por Solange Noronha

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Nesta segunda-feira, 31 de janeiro, às 19h, a Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, abre as portas para celebrar as mulheres que, durante décadas, encantaram as plateias com muito luxo, glamour, corpos exuberantes e, acima de tudo, talento, carisma e ousadia — para a época, é claro, pois, à exceção de Luz del Fuego e Elvira Pagã, a maioria exibia apenas as pernas.

Algumas das atrizes homenageadas já confirmaram presença no lançamento de “As grandes vedetes do Brasil”, da historiadora Neyde Veneziano, como Virgínia Lane, Bibi Ferreira, Íris Bruzzi, Lilian Fernandes, Esther Tarcitano, Brigitte Blair, Janette Jane, Dorinha Duval, Eloína, Isa Rodrigues e Carmem Verônica — esta biografada ainda mais detalhadamente no outro lançamento da noite, “Carmem Verônica — O riso com glamour”, do jornalista Cláudio Fragata. Os dois títulos são da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

O livro de Neyde Veneziano, professora da Unicamp e especialista em teatro musical brasileiro, tem apresentação de Sílvio de Abreu, apaixonado confesso pelas vedetes — tanto que incluiu várias nos elencos de suas novelas, sempre com grande sucesso. “(…) Redondas, generosas, (…) transpirando malícia, com suas pernas magníficas, seu gingado, seus gestos amplos (…)”, descreve Sílvio. “Muitas só desciam a escadaria e desfilavam seus corpos esculturais, parando em pontos estratégicos, sorrindo sensuais, convidativas; outras, mais talentosas, mais comunicativas, estabeleciam uma empatia imediata com o público. Brincavam, se divertiam, criticavam burlescamente comportamentos e políticos, longe desta praga do politicamente correto (…) que se tem que aguentar hoje.”

Mais adiante, ele pergunta e responde: “Eram outros tempos? Sem dúvida. Tempos nos quais talento e verve faziam sucesso, aguçando a imaginação da plateia, embalando suas fantasias. Belas orquestras de excelentes músicos, desfiles de mulheres bonitas, (…) crítica social, cômicos hilariantes, belos cenários, ricos figurinos, muita luz, muita magia, esta era a receita do teatro de revista, que chamavam de Teatro Rebolado, certamente para menosprezá-lo, como faziam com a chanchada. Não importam os rótulos e preconceitos, esta é a receita de um bom espetáculo.”

Período rico tem acervo pobre

Apesar da importância do teatro de revista para a cultura nacional, Neyde Veneziano enfrentou muitas dificuldades para reunir material e preencher 300 páginas com fotos e biografias de 41 vedetes: “Há fotos perdidas (…), há filhos que não aceitam a profissão das mães e negam suas histórias até hoje, há memórias que não funcionam mais no cérebro envelhecido, há falta de registros, há fofocas, boatos e há informações que não batem umas com as outras”, lamenta a autora. “Felizmente, há filhos e famílias que preservaram fatos e fotos.”

Surpreendentemente, um dos maiores colaboradores de Neyde foi um pesquisador que nem tinha nascido na década de 1950, período áureo das vedetes: o carioca Daniel Marano, de apenas 20 anos. Ele discorre sobre o tema como se tivesse assistido às revistas desde o seu surgimento, lá pelo início do século passado. E conta que sua paixão pelo assunto começou na infância, quando descobriu as comédias de Oscarito. Com o tempo, tornou-se não apenas um colecionador — de histórias e de material iconográfico, que cedeu para o livro — mas também amigo das atrizes, que visita em casa ou no Retiro dos Artistas, em Jacarepaguá.

É com entusiasmo e intimidade que Daniel fala, por exemplo, de Walter Pinto: “Ele revolucionou o gênero. De uma janelinha, observava a reação da plateia. E inventava títulos incríveis, como ‘Tem bububu no bobobó’ e ‘Tem xique-xique no pixoxó’, que não queriam dizer nada, eram apenas eufônicos e mexiam com a imaginação do público. Quando lhe perguntavam o que significavam, dizia que eram brincadeiras dos filhos. Walter lançava vedetes — e tinha caso com todas elas.”

Girls de ''Tem Xique-Xique no Pixoxó''

Girls de ''Tem Xique-Xique no Pixoxó''

O pesquisador revela também os truques de cada uma para valorizar seus dotes: “A Bibi, por exemplo, como era mignon, criou um número em que se apresentava com outras cinco bailarinas, todas mascaradas e com roupas iguais, e só tirava a máscara no fim, criando o impacto. Ela fez o maior sucesso em Portugal, onde era chamada de ‘a vedete bestial’, ou seja, magnífica.”

Para cada atriz, um epíteto

No livro de Neyde, cada biografia traz no título o nome da artista e seu epíteto. Virgínia Lane, que fez revistas, filmes e até programa infantil na TV, vivendo o personagem-título de “O coelhinho Teco-Teco”, foi — e é até hoje, pois continua na ativa aos quase 91 anos — “a vedete do Brasil”: “Claro que rolavam uns ciúmes entre elas, mas todas reconhecem a grandiosidade da Virgínia”, diz Daniel.

Zaíra Carvalho era “a jambo de olhos verdes”; Mara Rúbia, “a rainha das escadarias”; Anilza Leoni, “a vedete de biscuit”; Dorinha Duval, “o delírio moreno”; Carmem Verônica, “a rainha da frescura”; e assim por diante.

No último capítulo, intitulado “Estrelas brilham… Vedetes arrasam!”, Neyde lembra que, historicamente, o teatro de revista “está vinculado ao Brasil como o gênero mais expressivo, o que rendeu mais dinheiro e o que teve a maior plateia até 1960”.

Muito mais do que mulheres sensuais e arrojadas, as protagonistas do livro eram atrizes completas, com anos de treinamento em canto, dança e postura. “Ser vedete era mais que personagem, ou tipo, ou função”, diz a autora. “(…) Era um estado: de se achar bonita, gostosa, poderosa, leve, bem-humorada, inteligente (…) e fazer com que o público daquele dia nunca mais a esquecesse.” A melhor arma para isso? Transmitir uma alegria luxuriante — e “a sensação de que a vida vale a pena ser vivida”.

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  1. Lavynia disse:

    Boa noite, td bem? enfim desculpe a invasão mas sou aritsta trans da noite performática no Rio de Janeiro e estou enlouquecidamente a procura de materiais q retratem os espetáculos apresentados no Cassino da Urca, pois tenho grande trabalho a repeito do msmo a ser apresentado…se alguém souber se este livro das grandes Vedetes brasieiras poderá me ajudar, por favor me avise, obrigado e desculpe o mal jeito bjs (O livro Parece ótimo)

  2. Aretuza disse:

    Querida Sol, como sempre vc sabe como tornar um assunto interessante!!! Vou conferir!!! Bjs

  3. jaderdavila the small shareholder disse:

    mulher gostosa e pelada sempre vai dar certo.
    principalmente enquanto for gostosa
    e estiver pelada.
    obrigado garotas.
    minha vida ficou melhor porque vcs existiram.
    e especialmente porque ficaram peladas.

  4. Gerson Antonio Corso disse:

    Participei do lançamento do livros “As Grandes Vedetes do Brasil” e Carmem Verônica – o riso com glamour”. Sinceramente uma festa maravilhosa com a presença daquelas que com sua beleza e arte brilharam no teatro de revista (Lya Mara/|Iris Bruzzi /Janete Jane / Brigitte Blair / Virginia Lane /Esther Tarcitano / . Parabéns a todas e em especial a Neyde Veneziano. Parabéns a Carmem Verônica pelo seu livro e a Claudio Fragata. Uma pena o não comparecimento do autor. Como diz Carmem Verônica: Uma Maaaaaaaaaaravilha!!!!

  5. VAN disse:

    Robson tem toda razão,um livro que se torna um documento raro,atestando toda a arte e beleza das vedetes que tanto brilharam no teatro de revista.
    É uma pena que tenham filhos que neguem uma historia tão bonita de sonhos e fantasias, um tempo mágico,que deixou apenas motivo de orgulho.
    Que maravilha Virginia Lane aos 91anos poder presenciar a grandiosidade do seu trabalho e de todas as companheiras,documentado neste livro.
    Um tempo em que a paixão pela arte que o artista sentia,contagiava toda uma platéia.
    Todo o meu louvor as grandes vedetes do Brasil e também a Neyde Veneziano,prestando mais do que uma homenagem,mas,sim uma grande fonte de informação enriquecendo a nossa cultura.

  6. Robson Terra disse:

    O livro é documento raro sobre a arte do espetpáculo no Brasil. Um belíssimo resgate das estrelas do tempo que o Brasil ainda acreditava no sonho. Recomendo.