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Crítica de filme

Ventos de agosto: intensos e belos postais

Ainda que seja uma obra de ficção, o diretor desafia o espectador a todo momento trazendo uma linguagem fortemente documental

Ventos de agosto: intensos e belos postais
Ambientado em um local isolado do nordeste do Brasil, o cineasta traz um universo em que o tempo parece suspenso (Reprodução/Filme)

Nesta quinta-feira, 13, chega aos cinemas “Ventos de Agosto”, de Gabriel Mascaro. O filme marca a estreia do diretor em filmes de ficção, já que anteriormente ele havia dirigido, entre outras produções, o documentário “Doméstica”. Ao descrevê-lo brevemente, diria que é um obra de belos e intensos postais. Não espanta portanto que a fotografia seja primorosa e fique evidente o cuidado com a estrutura de cada plano. Ambientado em um local isolado do nordeste do Brasil, o cineasta traz um universo em que o tempo parece suspenso. Seus postais, apresentam pequenas histórias que misturam sensações de abandono e simplicidade diante das incertezas da vida.

Ainda que seja uma obra de ficção, o diretor desafia o espectador a todo momento trazendo uma linguagem fortemente documental. A esse serviço, além do trabalho com não-atores, o diretor se utiliza de uma edição de som que brinca ao entregar algumas pistas da sua intenção, ao mesmo tempo que dá contorno às histórias contadas. O próprio Mascaro, se corporifica em parte da obra, surgindo como um técnico de som em busca de registrar os ventos da região. Se essa aparição, de certo modo, soa meio dissonante, por outro lado brinca com a realidade e o próprio discurso de verdade do cinema documentário. Quase que numa afirmação tácita: sim, isso é mesmo uma ficção! Nesse sentido, leva-nos a perceber que, em verdade, toda a nossa existência não passa de uma certa invenção sobre nós mesmos. Afinal, estamos sempre criando narrativas diversas acerca da nossa vida, seja em nossas memórias, registros ou impressões, passadas aos demais como índices das experiências vividas.

Se os ventos de “Ventos de Agosto” sugerem movimento, a temática da morte traz a sensação de suspensão temporal que permeia a vida dos personagens. Num dado momento, Shirley (Dandara de Morais) conversa com a avó centenária, que diz: “Quando se tem saúde, os desejos são muitos”. Anunciando a resignação necessária para sobreviver em meio a um cenário sem grandes perspectivas. É nesse quadro, que Jeison (Geová Manoel dos Santos), namorado de Shirley, acaba por se tornar responsável por dar cabo de um corpo que surge em meio as areias da praia. É essa tarefa, que lhe confere certo movimento de vida, dando evidência que naquele local, a morte é apenas mais uma. Assim como os esqueletos evidentes do cemitério a beira-mar, a morte e a vida parecem entrelaçar-se de forma mais clara, sem extremos e arroubos apaixonados.

À Shirley, resta criar pequenos desejos possíveis em meio ao cotidiano quase que em déjà vu; enquanto sua avó, espera sem farsas o inevitável, com a sabedoria de quem sente o tempo na pele.

*Ana Beatriz Rodrigues escreve para o site Blah Cultural, parceiro do Opinião e Notícia

Fontes:
BlahCultural-ventos de agosto

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