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Cinema

Watchmen, de Zack Snyder, 2009

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Adaptar determinadas obras da literatura e dos quadrinhos para o cinema é uma arte em si. Neste caso, é uma tarefa hercúlea, em se tratando de Watchmen, responsável por uma mudança de paradigma nas HQs: é, em uma analogia radical, como se O Novo Testamento da Bíblia fosse adaptado para o cinema pela primeira vez. Sim, esta obra de Allan Moore, desenhada por Dave Gibbons, é responsável, junto com O Demolidor, de Frank Miller, Monstro do Pântano, "Batman, O Messias", e algumas outras obras dos anos 80, por uma virada na história das histórias em quadrinho; a partir daí, os super-heróis passam a conviver com dramas profundos, problemas humanos, e saem da simplicidade dos superpoderosos personagens originais dos anos 30 e 40, para se depararem com questões filosóficas e complexas. É o nascimento do gênero de quadrinhos adultos, que atualmente povoam as bancas: Stan Lee já havia feito isso com seus personagens na Marvel, mas nada comparável ao trabalho de Moore no Watchmen, obra que deve ser lida e relida algumas vêzes para ser melhor compreendida.

A versão cinematográfica começa com o que há de melhor. A sequência inicial, que mistura efeitos tridimensionais, fotografia, quadros estáticos e câmera lenta. Ela reconstitui de forma brilhante alguns acontecimentos da história dos EUA e do mundo, alterando-os para em menos de cinco minutos situar o espectador em um universo onde, com a ajuda de um super-herói, os Estados Unidos venceram a Guerra do Vietnã, Nixon, nos anos 80, ainda é presidente, a Guerra Fria está no auge, e os vigilantes, Watchmen, duas gerações de heróis que combatiam o crime, foram proibidos pelo governo de atuar. A frase Who Watches the Watchmen?, aparece como protesto da população civil. Com toques de cinema noir, e uma estética vintage, o filme se desenvolve a partir do misterioso assassinato do Comediante, um vigilante que trabalhou para o exército e para a CIA. Essa trama, investigada pelo justiceiro Rorschach, que alerta os antigos vigilantes sobre o perigo que estão correndo, possui contornos geopolíticos, relacionados com a guerra nuclear, e descamba também para física quântica, com o personagem do Dr. Manhattan, o homem-deus, um físico, que após um acidente radioativo, passa a possuir superpoderes e dominar a matéria, enxergando o tempo como um fenômeno de tempos paralelos. O Homem-Coruja, Mollock, Ozymandias, considerado o mais inteligente dos heróis, e que enriqueceu se aproveitando da sua imagem, e a Espectral, interpretada pela gostosíssima Malin Akerman, completam a lista de personagens da ação.

A estória possui várias ramificações, algumas delas muito interessantes e complexas, como um homem, que ao se deparar com seus próprios fantasmas e ver sua vida ameaçada, procura o seu maior inimigo para conversar e confessar seus pecados, um triângulo amoroso, e a descoberta de que cada humano, na sua singularidade, é um milagre do universo. Tudo isso  encontrado em cinco fascículos de HQ fica difícil de juntar em um mesmo filme de 2 horas e 43 minutos. Talvez tenha sido este o erro do diretor Zack Snyder, o mesmo do bem sucedido "300", baseado na história em quadrinhos homônima de Frank Miller: Ao buscar ser fiel à trama, inclusive utilizando os quadrinhos como storyboard, o filme perde fôlego no final, ficando um pouco monótono e distraindo o espectador. A trilha sonora de Tyler Bates é um espetáculo à parte, com músicas próprias e outras mencionadas na obra original, incluindo Bob Dylan, Simon and Garfunkel, Nat King Cole, Philip Glass, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Billie Holiday e Nina Simone. 

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4 Opiniões

  1. Dorival Silva disse:

    Muito boas as críticas de cinema do Francisco Taunay.

  2. heloisa disse:

    Uau. Excelente a crítica do Francisco Taunay. Cobre trama, trilha, insere no estado da arte, na história dos HQs, um sopro de aventura e juventude na mente do expectador. Mandei a dica de leitura pros amigos, aficcionados ou não. Valeu.

  3. Fabio Seves disse:

    Gostei, vou indicar para meus amigos.

    continue assim meu rapaz. vc vai longe.

  4. Rodrigo Schmidt disse:

    Excelente sínopse! Tanto para um aficionado dos quadrinhos (como eu) quanto para outros que não sabem nada sobre o assunto.

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