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INFLUÊNCIA E INTIMIDAÇÃO

A ascensão não tão pacífica da China

Em sua busca por ascensão global, a China vem manipulando governos. A melhor arma contra isso é a transparência

A ascensão não tão pacífica da China
China não busca a conquista de terras, mas busca a conquista de mentes (Foto: Pinterest)

Quando uma potência em ascensão desafia uma hegemonia, a guerra costuma ser a consequência. Tal cenário é conhecido como Armadilha de Tucídides, em referência ao historiador grego de mesmo nome autor de História da Guerra do Peloponeso, livro que narrou o embate entre Esparta e Atenas.

Trata-se da situação que paira entre a China e o Ocidente, em especial os Estados Unidos. Embora a China não busque a conquista de terras, ela busca a conquista de mentes. A Austrália foi a primeira a acender o alerta.

Alarmado com a crescente influência política e cultural no país, o governo australiano apresentou um plano para proibir a interferência estrangeira na política nacional. O primeiro-ministro australiano, Malcolm Turnbull, declarou que o governo atualizará as leis de espionagem e proibirá doações políticas estrangeiras. Em novembro, o ministro Sam Dastyari renunciou em meio a acusações de ter ligações com empresários chineses.

No início deste mês, a Alemanha acusou a China de usar perfis falsos no LinkedIn para coletar informações sobre políticos e funcionários de alto escalão do governo no intuito de recrutá-los como informantes. Esse comportamento tem um nome: sharp power.

O termo foi criado pelo Fundo Nacional para a Democracia, um centro com sede em Washington D.C., em referência a outros conceitos de poder existentes nas relações internacionais: o hard power, calcado no poderio militar; e o soft power, que tem como base a persuasão através da influência cultural e de valores. Além destes, existe o smart power, anunciado por Hillary Clinton como uma combinação do hard e do soft power, quando esta era secretária de Estado dos EUA. Já o sharp power seria um conceito no qual regimes autoritários coagem e manipulam opiniões estrangeiras.

Assim como muitas potências, a China usa vistos, subsídios, investimentos e cultura em prol de seus interesses. Mas recentemente suas ações se tornaram mais intimidadoras e abrangentes, combinando uma série de componentes, como subversão, coação e pressão. Para a China, o interesse principal é a subserviência antecipada daqueles que temem perder financiamento, acesso ou influência.

Em alguns casos, como na Austrália, a influência é comprada, mas às vezes a mensagem é mais ostensiva, quando na vez que Pequim pressionou economicamente a Noruega para evitar a entrega do prêmio Nobel da Paz ao dissidente chinês Liu Xiaobo. O fato de a China ser tão integrada ao cenário econômico, político e cultural, torna o Ocidente vulnerável às pressões do país. Diferentemente, da antiga União Soviética, a China é parte da economia global e não pode ser contida com barricadas. A influência da economia da China é tamanha que muitas vezes o mundo dos negócios segue o compasso chinês sem ao menos ser solicitado.

O que fazer?

Hoje a China tem muito mais coisas em jogo fora de suas fronteiras do que antes. Cerca de 10 milhões de chineses se mudaram do país desde 1978. O governo chinês teme que eles retornem para casa com conceitos de democracia aprendidos no exterior que podem contaminar o sistema do país. Como uma potência em ascensão, a China cultiva o desejo de moldar as regras de engajamento que norteiam o mundo – regras estas criadas em grande parte pelos EUA e pela Europa, que frequentemente as invocam para justificar suas ações. Para garantir que a ascensão da China seja pacífica, o Ocidente precisa abrir caminho para esta ambição chinesa.

O Partido Comunista reprime a liberdade de expressão, o debate aberto e o pensamento livre para consolidar seu poder. Meramente jogar luz nessa prática autoritária em prol da transparência já seria bastante. Ignorar a manipulação da China na esperança de que ela seja uma potência amigável no futuro apenas convida o próximo golpe. Ao invés disso, o Ocidente precisa respeitar seus próprios princípios, com países agindo de forma unida quando for preciso, isolada quando for necessário.

Fontes:
The Economist-What to do about China’s “sharp power”

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1 Opinião

  1. Rene Luiz Hirschmann disse:

    Existe uma tendência a colonização pelos países mais desenvolvidos, o que muda atualmente é a forma, hoje é mais sútil e o uso da força na maioria das vezes é condenada pela maioria mundial.

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