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A guerra dos laticínios europeus

Possibilidade de aquisição da Parmalat pela Lactalis expõe fragilidade da indústria italiana e sua batalha comercial contra a França

A guerra dos laticínios europeus
Batalha pela Parmalat põe rival francesa e banco italiano em lados opostos da disputa

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Os Alpes não são altos o suficiente para deter os invasores gauleses. No início de março, a LVMH, uma gigante parisiense dos bens de luxo comprou a Bulgari, uma joalheria romana. Depois, empresas francesas ameaçaram comprar uma seguradora e uma companhia energética italianas. Agora leite, iogurte e queijo entraram no cardápio. No dia 22 de março, a Lactalis, uma empresa francesa de laticínios, disse que elevou sua participação na Parmalat, sua principal rival italiana, a cerca de 29%, pouco abaixo do limite para uma oferta mandatória de aquisição. No dia seguinte, o governo italiano se reuniu para discutir a adoção de novos poderes para bloquear ofertas estrangeiras de companhias “estratégicas”.

Com suas vendas anuais de € 8,5 bilhões, a Lactalis tem o dobro do tamanho da Parmalat, e conhece a Itália. Entre 1997 e 2006, uma década na qual a Parmalat foi do boom ao fracasso, a Lactalis comprou três marcas de queijo italianas, e se tornou a maior fabricante do país. A nova Parmalat – formada depois que a velha ruiu em 2003, na maior falência da história da Europa – teve um lucro líquido de € 285 milhões em 2010, e tinha um patrimônio de € 1,4 bilhões em dezembro. Seu chefe Enrico Bondi, foi responsável pela ressurreição da companhia. Mas ele corre perigo. Três fundos estrangeiros, que agora venderam suas ações à Lactalis, vinham tentando removê-lo da empresa. Um novo conselho, para o qual a Lactalis já apresentou sua indicação, será escolhido pelos acionistas em seu próximo encontro.

Com apoio oficial, a Intesa Sanpaolo, um grande banco, dono de 2,4% das ações da Parmalat, tentou convocar forças para manter os franceses distantes, apresentando uma listagem rival de diretores, como o nome de Bondi no topo. Ministros italianos estão especialmente irritados com seus equivalentes franceses, a quem acusam de obstruir as tentativas das companhias italianas de investir na França. Os políticos franceses de fato têm o hábito de fazer defesas absurdas contra as aquisições de alvos considerados “estratégicos”, como a PepsiCo descobriu há seis anos, quando foi alertada pela Danone, um grupo francês do ramo dos laticínios. A mensagem de Roma para Paris foi bem clara: se o seu iogurte é um bem nacional vital, o nosso também é.

Essa não é a primeira vez em que a Intesa se mostra um instrumento eficiente de política industrial. E no caso da Parmalat, pode haver outro motivo para a ação. A Intesa é dona de quase 20% da Granarolo, um grupo de laticínios que perdeu dinheiro em todos os anos entre 2005 e 2008, mas que teve cerca de € 3 milhões de lucro em 2010, com vendas avaliadas em € 884 milhões. Desconfia-se que a Intesa quer que a Parmalat compre a Granarolo, ao invés de permitir que a própria Parmalat seja vendida.

Mas para bloquear a Lactalis, os empresários italianos teriam que aliar seu dinheiro às palavras dos políticos. A Ferrero, uma choclateria, expressou interesse em uma “solução industrial italiana”. No entanto, a ação seria um desperdício no caso da Parmalat, e na última vez em que ela fez um favor aos políticos, aceitando, em 1985, participar de uma oferta por uma estatal alimentícia, o caso terminou se juntando à coleção de sagas de tribunais de Silvio Berlusconi. Logo, a Ferrero deve estar preocupada com essa ajuda.

Além de serem obrigados a seguir as rígidas normas da União Europeia contra o protecionismo, políticos italianos devem lembrar da gigantesca dívida pública de seu páis. Para continuar a diminuí-la, a Italia deve continuar convencendo investidores de que é “aberta e eficiente no mercado”, diz John Andrew, presidente da Eidos Partner, uma banco de investimentos milanês. Tudo isso significa que a agressividade que emana de Roma contra a invasão francesa pode resultar em praticamente nada.

Fontes:
The Economist - "Italy's yogurt is also strategic"

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