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Real

Aniversário esquecido

O Real fez 14 anos agora em julho — o lançamento foi entre os dias 29 de junho e 02 de julho de 1994 — e tal como Fernando Pessoa se lamentou, a data passou quase desapercebida: “no tempo em que festejavam o dia dos meus anos, na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos, e a alegria de todos, e a minha, estava certa… Hoje já não faço anos”.

A nova moeda criou as bases para a estabilização da economia e algumas outras reformas necessárias, preparando o caminho, entre outras causas, ao período de relativa prosperidade atual.

A década de 1990 foi particularmente dura para o Brasil, pelas ameaças internacionais vindas do México (1994/95), da Ásia (1997/98), da Rússia (1998), e do próprio Brasil (1998/99), complementadas pela ruptura da bolha da internet na NYSE e na Nasdaq em 2000 e do episódio de 11 de setembro de 2001, tudo deixando nossa respiração em suspenso pelos efeitos negativos para o Brasil.

Enquanto isso, o país criava o regime de câmbio flutuante, o sistema de metas de inflação e manteve, em geral, as políticas econômicas buscando o equilíbrio fiscal; felizmente o novo governo, passado o susto pré-eleitoral em 2002, persegue os mesmos objetivos até hoje, ainda com várias deficiências e problemas novos e antigos não encaminhados.

Assim, o rápido crescimento da China e outros países asiáticos e os efeitos positivos desta situação internacional encontraram o país preparado para aproveitar o fluxo favorável de comércio internacional e de capitais.

O comércio internacional brasileiro (exportações mais importações) cresceu de US$ 120 bilhões, em 2003, para US$ 281 bilhões em 2007, mais US$ 160 bilhões ou 132%. A entrada de recursos externos chegou a números impressionantes causando, em conjunto com o comércio, a acentuada apreciação do Real, o aumento das reservas internacionais para além de US$ 200 bilhões, a redução da dívida e o crescimento do PIB acima de 5% em 2007 e 2008.

Estes fatos positivos culminaram com a concessão do grau de investimento pelas agências internacionais, superando o constrangimento externo. Até mesmo quando a cotação do petróleo supera US$ 140, o Brasil descobre novas reservas no pré-sal, que modificam o panorama energético do país para os próximos 20 anos.

A crise internacional iniciada com os problemas de financiamento imobiliário nos EUA e que se espalhou quase com risco sistêmico internacional, cuja duração e gravidade ainda está para ser determinada, tem até o momento impactado pouco o Brasil, que pretende entrar para a OPEP, como se isso fosse uma grande solução.

A OPEP foi criada em 1960 pelo Irã, Iraque, Kuwait, Arábia Saudita e Venezuela, tendo posteriormente entrado para a organização os seguintes países: Qatar, Líbia, Indonésia, Emirados Árabes, Algéria, Nigéria, Equador, Angola e Gabão. Pela lista, dá para perceber que a condição de possuir excedentes de petróleo exportável não levou estes países, a despeito de tanto potencial de prosperidade, a encaminhar seus problemas econômicos e sociais internos a ponto de merecer destaque internacional ou uma classificação de primeiro mundo.

O Brasil vem perdendo, neste momento ainda favorável e, mais ainda, com o potencial das reservas petrolíferas, a oportunidade de fazer as reformas internas indispensáveis: não há, sequer em tramitação, projetos inteligentes de reformas nas áreas fiscal, trabalhista ou previdenciária, que tenham por objetivo equacionar suas graves questões. Junto com a deficiência de infra-estrutura e o excesso de burocracia, chegamos ao "custo Brasil", que impede o desenvolvimento em ritmo maior.

Como alertou Fernando Pessoa, o esquecimento dos bons tempos pode vir rápida e dolorosamente: os aniversários são bons momentos para refazer um balanço do que já se atingiu, mas principalmente para pensar e agir sobre o que falta alcançar.

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1 Opinião

  1. Rodrigo Phanardzis Ancora da Luz disse:

    O Real criou condições para que o Brasil pudesse ingressar num novo momento de crescimento econômico sustentável. Entretanto, não se pode estagnar no plano das reformas econômicas e políticas. Precisamos atrair mais investimentos tanto para o setor financeiro quanto para o produtivo, assim como é indispensável que o país promova o bem estar de seu povo através de uma educação realmente de qualidade, o que é indispensável para que possamos contar com trabalhadores mais produtivos. Percebe-se que, atualmente, a globalização caminha para a melhoria do capital humano dos países.

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