Início » Economia » Arábia Saudita inicia venda de ativos canadenses
TENSÃO DIPLOMÁTICA

Arábia Saudita inicia venda de ativos canadenses

Medida é mais uma etapa das retaliações de Riad após o governo canadense pedir a soltura de ativista que tem família no Canadá e foi presa na Arábia Saudita

Arábia Saudita inicia venda de ativos canadenses
Venda de ativos é um alerta de Riad contra críticas de potências estrangeiras (Foto: kremlin.ru)

A Arábia Saudita iniciou a venda de seus ativos canadenses, em mais um episódio da crise diplomática entre os países, que teve início após a ministra das Relações Exteriores, Chrystia Freeland, criticar a prisão de uma ativista saudita que tem família no Canadá.

Segundo fontes ouvidas pelo jornal Financial Times, que têm ligação direta com as ordens de venda de ativos, o banco central saudita e os fundos públicos de pensão do país instruíram seus gestores de ativos a liquidarem, “a qualquer custo”, seus títulos, ações e participações financeiras canadenses.

As venda começaram na última terça-feira, 7, e enfatizam como reino está flexionando seus músculos políticos e financeiros para alertar potências estrangeiras contra o que chama de “interferência em seus assuntos soberanos”. “A situação é bastante grave”, alertou uma das fontes, que integra o setor bancário.

Entenda o caso

A tensão entre o governo de Ottawa e de Riad começou no dia 2 deste mês, quando a ministra Chrystia Freeland postou em sua conta oficial no Twitter que estava “muito alarmada” em saber que Samar Badawi havia sido presa, junto com outra ativista saudita, durante um protesto contra a chamada lei do guardião, que obriga mulheres sauditas a dependerem da autorização de parentes homens de sua família ou do marido para basicamente tudo: estudar, viajar, casar, trabalhar, dirigir ou ter acesso a serviços públicos.

“O Canadá permanece ao lado da família Badawi neste momento difícil e segue firmemente pedindo pela soltura tanto de Raif quanto de Samar Badawi”, escreveu a ministra canadense.

Samar Badawi é irmã do também ativista Raif Badawi, um blogueiro preso desde 2012 na Arábia Saudita, por criticar em seu blog a doutrina wahabista, a versão mais radical do islã, vigente no país. Em 2014, ele foi condenado a dez anos de prisão e 1 mil chibatadas pelo crime de apostasia (renúncia de religião) após se declarar ateu. Raif já recebeu 50 chibatadas das 1 mil a que foi condenado. As chibatadas são divididas em etapas, para que o corpo do ativista possa se recuperar antes de receber as demais. Em 2013, a esposa de Badawi e os três filhos do casal conseguiram asilo político no Canadá, onde vivem desde então.

A reposta saudita ao pedido canadense

Desde a postagem de Chrystia Freeland no Twitter, o governo saudita já expulsou o embaixador canadense no país, congelou negociações para futuras parcerias comerciais e de investimento, suspendeu voos para o Canadá da linha aérea estatal Saudi Arabian Airlines e programas de intercambio entre os países – o que afeta mais de 10 mil estudantes. Riad também suspendeu programas de tratamento médico no Canadá e trabalha para transferir pacientes sauditas para fora do país.

Esta semana, em uma coletiva de imprensa, o ministro das Relações Exteriores saudita, Adel al-Jubeir, informou que não haverá novos investimentos no Canadá até que a crise diplomática seja solucionada, mas ressaltou que investimentos e acordos comerciais já existentes não serão afetados. “O Canadá cometeu um erro e sabe que precisa corrigi-lo”, disse o minsitro.

Em resposta ao Financial Times, a assessoria do governo saudita negou a denúncia feita pelas fontes consultadas. “Nem o governo nem o banco central ou os fundos públicos de pensão determinaram qualquer instrução a respeito da venda dos ativos canadenses”, disse a nota.

No entanto, além das duas fontes, outro investidor afirmou, em condição de anonimato, que os ativos estão sendo vendidos sob instruções explícitas do governo. Além disso, as ações do governo saudita remetem às medidas tomadas no ano passado, quando o país mobilizou seus aliados no Golfo Pérsico para promover um bloqueio diplomático que isolou, economicamente e politicamente, o Catar na região.

 

Leia mais: Arábia Saudita reprime ativistas dos direitos das mulheres
Leia mais: Mulheres na Arábia Saudita: uma vida de opressão
Leia mais: Raif Badawi e o reino de terror da Arábia Saudita

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *