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Sem acordos

Bem-vindo de volta à crise da zona do euro

Proposta de união bancária agrada a Espanha - mas não a Alemanha

Bem-vindo de volta à crise da zona do euro
Políticas declaradas são incompatíveis com a sobrevivência do euro (Reprodução/Internet)

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Você já reparou que as ondas de otimismo na zona do euro estão ficando mais curtas? A última durou apenas três semanas, quando MarioDraghi, o presidente do Banco Central Europeu anunciou definitivas transações monetárias e um programa de compras de títulos soberanos, sem limite inicial. Parecia que o consenso tinha acabado com a crise, ou ao menos com a sua fase mais grave.

No entanto, na semana passada, investidores – e os jornalistas espanhóis – de repente descobriram, para espanto geral, que a Alemanha não vai permitir que a Espanha, depois de tudo, despeje o risco em seus bancos. Isso parece contradizer a declaração dos líderes da zona do euro em seu último encontro no dia 29 de junho, em que os chefes de estado afirmaram que “era imperativo quebrar o círculo vicioso entre bancos e títulos soberanos”. Os líderes da União Europeia chegaram a este acordo nas primeiras horas da manhã. Qualquer que tenha sido o acordo daquela manhã, o entendimento foi diferente na Espanha e na Alemanha. A interpretação espanhola foi de que a UE iria adotar uma união bancária até o início do próximo ano. Não foi como a chanceler alemã, Ângela Merkel, entendeu. Ao longo dos últimos dias, ela esclareceu que tipo de negócio eles acordaram fazer: primeiro, ela não quer uma união bancária completa, mas com limitações para alguns grandes bancos transfronteiriços. Segundo, idealmente, o supervisor não deve ser o BCE, e caso tenha que ser, devem existir garantias mais fortes do que as propostas para assegurar que a política monetária de cada país permanecerá independente do supervisor bancário. Terceiro, não haverá depósitos conjuntos. Quarto, a união bancária não deve lidar com qualquer risco do passado, apenas os problemas que possam surgir no futuro. Portanto, o problema dos bancos espanhóis continua a ser um problema da Espanha. Quinto, a união bancária não deve ser capaz de realizar operações de recapitalização dos bancos até que o sindicato esteja totalmente implementado, o que deve durar muitos anos.

De volta à estaca zero

Se vai ou não acontecer a união bancária ou uma violação do acordo de 29 de junho, é irrelevante. O ponto é que você não pode formar uma união bancária contra a vontade explícita do governo alemão, o Parlamento alemão e o público alemão em geral. O acordo parece uma lorota que está longe de ser a solução para a crise.

Jens Weidmann, presidente do Bundesbank, o banco federal alemão, disse na semana passada que a proposta de união bancária foi um mecanismo de transferência disfarçado. Sobre este ponto, ele está certo. Um sindicato bancário irá recapitalizar os bancos espanhóis às custas dos contribuintes europeus do norte. Seria desonesto negar isso. Uma união bancária, devidamente construída, constitui uma união fiscal. Isso não é algo que se consiga fazer antes do Natal. Há ainda propostas que transformariam a zona do euro em um instrumento de prestação de austeridade – o chamado vínculo de amortização de dívida. A julgar pelo debate político, a Alemanha não está pronta para um mecanismo de transferência fiscal de qualquer tipo. Em particular, a Alemanha não está pronta para uma união bancária. Merkel nunca fez um acordo sobre isso e a eleição alemã no próximo ano não vai milagrosamente limpar todos os obstáculos. Tudo parece a favor de uma continuação da política atual.

O programa de Draghi precisa de um sindicato bancário para trabalhar. O BCE garante a liquidez dos bancos e a dívida soberana momentaneamente. Uma união bancária iria acabar com o círculo vicioso de bancos e títulos soberanos, mas mesmo com o sindicato instalado, a zona do euro enfrenta ainda um igualmente terrível círculo vicioso de austeridade e recessão. E a dinâmica da recessão é alarmante. Sempre que o BCE interfere, o processo político fica mais lento. Está é a verdadeira tragédia da zona do euro. A Europa está agora de volta ao ponto anterior ao anúncio do programa de Draghi – onde as políticas declaradas são incompatíveis com a sobrevivência do euro.

Taxa de desemprego recorde

Em agosto, o número de desempregados bateu novo recorde na zona do euro, chegando a 19.196 milhões em agosto. Comparada com julho, são 34 mil a mais sem emprego. Com taxa de 11,4%, a previsão é que o desemprego aumente ainda mais nos próximos meses, já que pesquisas apontam que as empresas planejam mais cortes diante da falta de solução para a crise. Além da Europa, China e Estados Unidos também apresentam sinais de desaceleração. A Espanha segue sendo o país com maior percentual de desempregados: 21,5%. De acordo com o economista da HIS Global Insight, Howard Archer, não é realista pensar em uma recuperação do mercado no curto prazo: “Na verdade, parece haver um real risco de que a taxa de desemprego na zona do euro possa chegar a 12% em 2013”, disse.

 

Fontes:
Financial Times - Welcome back to the eurozone crisis
Valor - Número de desempregados bate novo recorde na zona do euro

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