Início » Economia » Boris Johnson assume o desafio do Brexit
REINO UNIDO

Boris Johnson assume o desafio do Brexit

Substituto de Theresa May, o novo primeiro-ministro britânico prometeu concretizar a saída da União Europeia com ou sem acordo

Boris Johnson assume o desafio do Brexit
‘O povo britânico já se cansou de esperar’, disse Johnson (Foto: Twitter/UK Prime Minister)

Prezados leitores, o Opinião e Notícia encerrará suas atividades em 31/12/2019.
Agradecemos a todos pela audiência durante os quinze anos de atuação do site.

O novo primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, é o assunto do momento no Reino Unido e na União Europeia (UE). Isso porque sua ascensão como substituto de Theresa May é permeada de dúvidas sobre como ele irá conduzir o Brexit – a saída do Reino Unido da UE.

Na última quarta-feira, 24, ao se mudar para a casa número 10 da Donington Street – a residência oficial e escritório do primeiro-ministro – Johnson fez um discurso no qual enfatizou que concluirá o Brexit até 31 de outubro, sem “se” ou “mas”, com ou sem acordo. “O povo britânico já se cansou de esperar, e chegou a hora de agir para dar uma liderança forte”, disse Johnson.

Em um tom patriótico similar a uma versão britânica do “Make America Great Again”, de Donald Trump, ele afirmou que o Reino Unido está pronto para uma saída sem acordo, mas expressou otimismo em relação à negociação de novos termos com a UE – que já deixou claro que não renegociará os termos acordados pela gestão de May.

O principal desafio será o chamado backstop, ponto responsável pelo fracasso de May em aprovar o acordo no Parlamento. O ponto prevê a criação de uma fronteira para controles alfandegários entre o norte e o sul do Reino Unido. Isso porque a Irlanda do Norte é parte do Reino Unido, enquanto a do sul é um país membro da UE.

Porém, a criação de uma barreira física é controversa, pois pode acirrar conflitos entre nacionalistas, que desejam a reunificação das irlandas, e os unionistas, que são os que defendem a permanência da Irlanda do Norte como parte do Reino Unido. O conflito entre as duas partes já deixou milhares de mortos entre as décadas de 1960 e o final da década de 1990, quando foi assinado, em 1998, o Acordo de Belfast, que criou um regime de poder compartilhado.

Em seu discurso, Johnson destacou que não aceitará a criação de uma barreira física. “Digo isto aos nossos amigos na Irlanda, e em Bruxelas, e em toda a UE: estou convencido de que podemos fazer um acordo sem controles na fronteira irlandesa, porque nos recusamos, em qualquer circunstância, a fazer esses controles e recusamos esse backstop antidemocrático”, disse o primeiro-ministro.

Apesar da fala de Johnson apontar para a democracia, o impasse em torno da fronteira vai além da questão histórica. Isso porque o fato de não existir fronteira entre as irlandas e ambas estarem dentro da União Europeia permitiu durante anos que dezenas de milhares de pessoas cruzassem frequentemente de um lado para o outro para fazer negócios, trabalhar ou visitar familiares. Além disso, a troca comercial entre os dois lados movimenta uma vasta soma de dinheiro, que, segundo uma reportagem da Bloomberg, chega a 3 bilhões de euros. Essa livre circulação e troca comercial se tornaram para muitos nos dois lados um modo de vida. Tal cenário será extinto, caso a fronteira seja criada.

Johnson afirmou que deseja manter uma relação “tão calorosa e próxima possível” com a UE e disse buscará renegociar o acordo, com melhores termos. Porém, não detalhou como pretende convencer o bloco a retomar uma negociação que considera encerrada.

“Faremos um novo acordo, um acordo melhor que maximizará as oportunidades do Brexit, ao mesmo tempo que nos permitirá desenvolver uma nova e empolgante parceria com o restante Europa, baseada no comércio livre e no apoio mútuo”, disse Johnson.

O novo primeiro-ministro britânico também tocou em outro ponto nevrálgico do Brexit: a situação de milhões de cidadãos europeus que hoje vivem no Reino Unido e tinham sua permanência no país incerta após o Brexit. Johnson destacou que eles serão autorizados a permanecer no Reino Unido e agradeceu pela contribuição prestada ao país.

“Digo diretamente a vocês: obrigado por contribuírem para a nossa sociedade. Obrigado pela vossa paciência. E posso assegurar que, sob este governo, podem ter certeza absoluta de que terão direito de aqui viver e permanecer”, disse ele, tranquilizando cerca de 3,2 milhões de pessoas.

Johnson também prometeu à população aprimorar a qualidade de vida dos cidadãos e retomar o respeito ao Reino Unido, que se tornou alvo de chacota diante do impasse do Brexit e do fato de que, hoje, muitos se arrependem do referendo que decidiu pela separação e pedem uma nova votação.

“Com ruas mais seguras e melhor educação e novas infraestruturas fantásticas de estradas e ferrovias e banda larga total em fibra, iremos aumentar o nível em toda a Grã-Bretanha com salários mais elevados, melhor qualidade de vida e maior produtividade”, disse o primeiro-ministro, ressaltando que “jovens serão proprietários das suas casas e às empresas será dada confiança para investir no Reino Unido”.

Além do discurso, Johnson também montou seu gabinete com nomes pró-Brexit e apostou também na diversidade étnica e de gênero. Uma das nomeações, no entanto, gerou polêmica: a de seu irmão, Jo Johnson, para secretário de Estado da Economia, Energia e Indústria.

Os reflexos do Brexit

Desde que foi aprovado em referendo, em 2016, o Brexit se tornou o tema central do governo britânico. De lá para cá, houve extensos debates sobre o acordo, sem, no entanto, alcançar um consenso.

Mais de 40 empresas já trocaram o Reino Unido pela Holanda desde que o Brexit foi aprovado. Outras apenas encerraram suas atividades no país, como a montadora Honda – que anunciou que vai deixar o país até 2021, colocando em xeque 3,5 mil empregos – ou decretaram falência por conta da incerteza, como a companhia aérea britânica British Midland Regional Limited (Flybmi) e o grupo siderúrgico British Steel. A incerteza também contribuiu para o fechamento de quase mil pubs britânicos em 2018.

Em maio deste ano, pouco após May anunciar que renunciaria, a Confederação de Indústria Britânica (CBI), grupo que representa 190 mil empresas e é a principal organização empresarial britânica, divulgou uma carta aberta na qual fez um apelo ao próximo primeiro-ministro britânico por um Brexit com acordo.

“Em caso de saída sem acordo, as perturbações em longo prazo para a competitividade britânica serão graves”, alertou o grupo.

A incerteza em torno do Brexit também teve impacto na saúde mental da população britânica. Em novembro de 2018, uma pesquisa conduzida por duas renomadas instituições, a King’s College de Londres e a Universidade de Harvard, apontou que o número de antidepressivos receitados por médicos britânicos aumentou após o referendo. Após uma análise de dados, os pesquisadores atribuíram o aumento à aura de incerteza que paira no país.

“O futuro incerto no qual estava em jogo a manutenção dos empregos, a transferência de empresas para outros países e a permanência dos cidadãos da UE no Reino Unido, entre outras preocupações, provocou o aumento do uso de antidepressivos”, disse Sotiris Vandoros, professor de economia da saúde na King’s Business School e principal autor do estudo.

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. ACM disse:

    Querer culpar o Brexit pelo aumento do consumo de antidepressivos, e’ querer achar um culpado para um problema mundial.
    .
    Não so no 1o. mundo (EUA em particular) o consumo esta’ fora de controle (para a alegria da BigFarma), mas ate mesmo no Brasil, que nada tem a ver com o Brexit:
    .
    ANVISA: “Um dado alarmante e que acende a luz vermelha para os brasileiros. A cada dois minutos e meio uma caixa com trinta comprimidos de remédios antidepressivos é consumida no país. Especialistas alertam para o uso desenfreado desses medicamentos.”
    .
    RIC NOTÍCIAS 23/07/2019
    .
    O problema dos antidepressivos e’ resultado do ambiente social vigente, com ou sem Brexit. Simples assim.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *