Início » Economia » Como conciliar acionistas e pressão social
NEGÓCIOS

Como conciliar acionistas e pressão social

Em um mundo cada vez mais tomado por revoltas, empresas buscam formas de equilibrar as expectativas dos acionistas e as pressões sociais

Como conciliar acionistas e pressão social
Maioria dos cidadãos quer que as empresas sejam mais acolhedoras (Foto: Pixabay)

Enquanto caminhavam pelas ruas de Davos na semana passada, muitos executivos devem ter feito o mesmo questionamento. O que é mais importante: os acionistas ou as pessoas? Como equilibrar as expectativas dos acionistas e as pressões sociais? No mundo inteiro os sinais de revolta estão cada vez mais visíveis. Um número crescente ou talvez a maioria dos cidadãos quer que as empresas sejam mais acolhedoras, que façam mais investimentos internos, paguem impostos e salários mais altos, além de empregar mais pessoas.

E esses cidadãos estão votando em políticos que prometem satisfazer essas demandas. No entanto, de acordo com a lei e a convenção na maioria dos países desenvolvidos, as empresas são administradas para atender aos interesses dos acionistas, que em geral pressionam para que sejam usados todos os meios legais disponíveis para maximizar seus lucros.

Os executivos ingênuos acham que não conseguirão conciliar essas duas pressões. Os executivos mais sábios sabem que o valor para o acionista tem vários tons de cinza. Existem seis grupos corporativos distintos, cada qual com sua interpretação do significado de valor para o acionista. As empresas têm certa flexibilidade para escolher o grupo que querem pertencer.

Em um cenário extremo, os fundamentalistas corporativos têm urgência em aumentar os lucros e o preço das ações. As empresas criadas com base nesses objetivos poucas vezes têm um desempenho satisfatório por muito tempo. Valeant, uma empresa canadense do setor farmacêutico, é um bom exemplo. No período de 2011 a 2015 a empresa aumentou os preços, reduziu os investimentos, pagou poucos impostos e demitiu funcionários. Em 2016, foi alvo de escândalos e suas ações caíram 85%. Às vezes as empresas ficam tão fragilizadas que usam, por algum tempo, a tática fundamentalista para recuperar a confiança. A IBM está mantendo o preço de suas ações com cortes de custos drásticos e recompra de ações.

No contexto mais moderado estão os investidores corporativos. Essas empresas acreditam na primazia do valor para os acionistas, mas são mais pacientes. A maioria das empresas ocidentais se insere nesse contexto. Essas empresas são em geral bem-sucedidas, como no caso da Shell e da Intel, que fizeram um investimento no prazo de dez anos.

Os oráculos corporativos, o terceiro grupo, querem maximizar os lucros no âmbito da lei, mas com um artifício. Eles acham que a lei evolui de acordo com a opinião pública e, então, fazem ações voluntárias que poderiam ser adiadas. A maioria das empresas de energia adotou medidas antipoluentes, como uma forma de antecipar a mudança das expectativas do público quanto à poluição e à segurança. Os retardatários descobrem que os efeitos da mudança das regras do capitalismo podem ser devastadores. As ações de usinas nucleares e de carvão nos países desenvolvidos tiveram uma redução drástica. Os fabricantes de refrigerantes e bebidas não alcoólicas podem ser as próximas a terem prejuízo diante das críticas ao consumo de açúcar e do combate à obesidade.

Os reis corporativos ocupam uma posição privilegiada. Eles são tão bem-sucedidos em criar valor para o acionista que se permitem ignorá-lo periodicamente. Em julho, Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, o maior banco em valor de mercado do mundo, deu um aumento salarial aos funcionários mal remunerados, “porque assim mais pessoas começam a compartilhar os retornos do crescimento econômico”.

Fora das salas de reuniões das empresas ocidentais, o quinto grupo, os socialistas corporativos, é o mais comum. Essas empresas são administradas pelo Estado, por famílias ou executivos autoritários que detêm o poder. Na visão dessas empresas o valor para o acionista não é tão importante quanto os objetivos sociais como emprego, salários altos e produtos baratos. Mas reconhecem que os investidores institucionais têm alguns poderes legais. Assim, os lucros são definidos segundo um sistema informal de cotas, no qual os acionistas externos recebem apenas o mínimo necessário para não criar um clima de indignação.

Em outro extremo estão os apóstatas corporativos. Eles organizam-se de uma forma corporativa, mas não se importam com os acionistas. Em geral, essa atitude é resultado de uma disfunção política. A PDVSA, a companhia estatal de petróleo da Venezuela, financia grande parte da assistência social e do nepotismo no país.

Fontes:
The Economist-Businesses can and will adapt to the age of populism

Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não refletem a opinião deste site

1 Opinião

  1. Roberto1776 disse:

    O PT sabe como fazer isso: é só estatizar as empresas de maneira sub-reptícia e distribuir suas ações para os sindicatos dos trabalhadores, como é a caso da Vale do Rio Doce, em que uma canalha de sindicalistas tenta desesperadamente acabar com o empreendimento.

Sua Opinião

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *