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Como lidar com um passado corporativo obscuro

Nem sempre os princípios éticos motivam as empresas a revelar seu passado condenável

Como lidar com um passado corporativo obscuro
Pouquíssimas empresas investigam o próprio passado, muitas vezes fortemente atrelado à escravidão (Foto: Flickr)

“Pensávamos que conhecíamos nossa história e sabíamos que tinha um lado sombrio”, disse Maurice Brenninkmeijer, presidente da Cofra Holding, proprietária da C&A, uma empresa de varejo de roupas holandesa fundada há 175 anos, com mais de 2 mil lojas no mundo inteiro. No entanto, o relato do comportamento do lado alemão da família na Segunda Guerra Mundial “é extremamente doloroso”, acrescentou.

Os antepassados de Brenninkmeijer, conhecidos por sua cordialidade, virtude, pelos princípios católicos e discrição foram grandes colaboradores do regime nazista. Antigas cartas revelaram ligações íntimas e corruptas com Hermann Goering. A partir de 1942 a C&A e a Siemens, uma empresa de engenharia alemã, exploraram os trabalhadores do Leste Europeu na Alemanha, mantendo-os em um estado tão deplorável, que muitas mulheres e crianças morreram de desnutrição. A C&A aproveitou o movimento de “arianização” promovido pelo nazismo e se apossou de empresas e propriedades de judeus aterrorizados. Talvez ainda pior, explorou o trabalho de alfaiates e artesãos que trabalhavam com couro judeus, que viviam em Lodz, um gueto terrível na Polônia. Das cerca de 200 mil pessoas que moravam no gueto em condições inumanas, só mil sobreviveram à guerra.

Esses detalhes tão sombrios foram divulgados por Mark Spoerer, um historiador de Regensburg especializado em pesquisa em arquivos antigos para ter acesso ao passado de algumas empresas, inserindo “o comportamento imoral” no contexto histórico. Seu novo livro C&A: A family business in Germany, the Netherlands and the United Kingdom 1911-1961, foi encomendado pela família Brenninkmeijer conhecida por sua extrema discrição. Ao longo de cinco anos e com recursos financeiros generosos, Spoerer teve acesso irrestrito a arquivos privados, realizou entrevistas com total liberdade e teve o direito de publicar todas as informações que descobriu.

É raro que uma empresa mostre um passado reprovável de uma forma tão aberta, sobretudo porque a C&A não sofre pressão de parentes das vítimas, de jornalistas ou de outras pessoas fora do seu círculo de contatos. Em geral, as empresas expõem seu passado quando têm uma presença internacional forte e lidam diretamente com clientes, disse Spoerer.

Outro historiador especializado em pesquisas corporativas, Lutz Budrass, examinou 100 empresas que prosperaram na Alemanha em 1938 e ainda existem. Segundo suas investigações, só 30 empresas haviam feito uma avaliação acadêmica séria sobre suas atividades no período da guerra, enquanto 40 tinham ignorado o assunto, entre as quais cinco empresas com um “profundo envolvimento” em crimes nazistas.

A Siemens fez apenas um esforço parcial para avaliar seu papel durante a guerra. No setor automobilístico, a Volkswagen, a BMW e a Daimler revelaram seus contatos íntimos com os nazistas, mas outras não deram declarações.  Budrass tem uma opinião especialmente crítica em relação ao setor de aviação alemão. Em 2002, a Lufthansa lhe pediu para escrever um livro relatando parte dos 75 anos de sua história, sobretudo quanto ao uso de 8 mil trabalhadores em regime de trabalho forçado em 1944. Mas a empresa recusou-se a publicá-lo e só concordou este ano, porque Budrass escreveu outro livro sobre o passado da companhia aérea.

Ainda de acordo com Budrass a Airbus, a fabricante de aviões europeia, que incorporou antigas empresas, como a Messerschmitt, uma grande usuária do trabalho de presos dos campos de concentração, não encomenda um relato sério de sua história “por ter medo de seu passado”.

Fontes:
The Economist-How to confront a dark corporate past

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1 Opinião

  1. Roberto1776 disse:

    Urge que algum historiador reúna as canalhices das firmas mancomunadas com o patê desde 2003 para termos uma ideia do que acabamos de nos livrar.

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