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SAÚDE

Cientistas criam técnicas para órgãos transplantados

Pacientes que recebem órgãos como rins e fígado precisam tomar medicações anti-rejeição. Porém, cientistas esperam ‘treinar’o sistema imunológico ao invés de pressioná-lo

Cientistas criam técnicas para órgãos transplantados
"As novas células T sinalizam ao resto do sistema imunológico para deixar o órgão funcionar sozinho" (Foto: Pixabay)

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Em fevereiro de 2017, Michael Schaffer apresentou uma hemorragia nasal que não cessava. Após cauterizar a ferida, o médico revelou algo que o homem, de sessenta anos, jamais esperava ouvir: “Você precisa de um transplante de fígado”.

Michael não esperava que o sangramento nasal significasse que seu fígado estava perdendo a função por uma doença hepática gordurosa, que não era ligada ao alcoolismo ou a infecções.

Apesar da doença não apresentar sintomas evidentes, mesmo quando o órgão já está em falência, a hemorragia nasal apontou que o fígado de Schaffer não estava produzindo proteínas o suficiente para a coagulação do sangue.

Após o ‘susto’, Schaffer foi questionado sobre ser o primeiro paciente a passar por um experimento que cirurgiões idealizavam a mais de 65 anos. Se desse certo, Schaffer receberia o fígado sem ter a necessidade de tomar fortes medicamentos para impedir que o sistema imunológico rejeitasse o órgão.

Antes de descobrirem as drogas que impediam a rejeição de um órgão, os transplantes eram inviáveis. A única maneira para fazer o corpo aceitar o “corpo estranho” é silenciar a sua resposta imunológica. Porém, por serem medicações muito fortes, elas podem causar danos e efeitos colaterais, principalmente o aumento de infecções, câncer, aumento do nível do colesterol , doenças cardíacas, diabetes e insuficiência renal.

Após cinco anos, 25% dos pacientes morrem após o transplante de fígado. Dentro de 10 anos, de 35 a 40% morrem.

“Mesmo que o fígado possa estar funcionando, os pacientes podem morrer de ataque cardíaco, acidente vascular cerebral ou insuficiência renal”, relatou Abhinav Humar, cirurgião de transplante do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, que lidera o estudo ao qual Schaffer se juntou. “Pode não ser inteiramente devido aos medicamentos anti-rejeição, mas os medicamentos anti-rejeição contribuem”.

Os rins em particular podem ficar mais danificados. “Não é incomum acabar fazendo um transplante de rim em pacientes que já tiveram um transplante de pulmão ou fígado ou coração”, acrescentou Humar.

Normalmente os pacientes sabem dos riscos causados por essas medicações. Porém, não existe outra alternativa, sem ser a morte, para quem realizar os transplantes e não tomar essas medicações.

Um vislumbre de esperança

No ano de 1953, o doutor Peter Medewar e colegas de profissão fizeram um experimento no Reino Unido, tendo um resultado tão impressionante que os proporcionou o Prêmio Nobel. Medewar mostrou que era possível “treinar” o sistema imunológico de camundongos para que eles não rejeitassem o tecido transplantado de outros camundongos.

O método não era exatamente prático, já que envolvia a injeção de camundongos recém-nascidos ou fetais com glóbulos brancos de camundongos não relacionados. Quando os ratos já eram adultos, cientistas colocavam enxertos de pele nas costas daqueles que receberam as células do sangue.

Os ratos aceitaram os enxertos como se fossem suas próprias peles, mostrando que o sistema imunológico poderia ser modificado. O estudo levou a uma busca científica a fim de encontrar uma maneira de treinar o sistema imunológico de ratos adultos que precisavam de novos órgãos.

Esta parte acabou por se tornar mais difícil, pois o sistema imunológico de um rato adulto já é desenvolvido, enquanto o de um filhote ainda está “aprendendo” o que é estranho, ou não.

“Você está tentando enganar o sistema imunológico do corpo”, disse Humar. “Isso não é fácil de fazer”.

A maioria das pesquisas científicas se concentrou em pacientes de transplantes de fígado e rim. Esses órgãos podem ser transplantados de doadores vivos, deixando as células dos doadores disponíveis para uso, na tentativa de treinar o sistema imunológico do paciente transplantado.

Muito mais pessoas necessitam de transplantes de rim do que qualquer outro órgão. Há aproximadamente 19.500 transplantes de rins por ano, comparados com 8 mil de fígados transplantados. Os rins transplantados raramente duram uma vida com grande espaçamento com as drogas imunossupressoras.

“Se você tem de 30 a 40 anos e fez um transplante de rim, esse não é o único rim que vai precisar”, relatou o Dr Joseph R Leventhal, dirigente dos programas de transplante de rim e pâncreas da Northwestern University.

Uma outra razão para focar o estudo no transplante dos rins é que “Se algo der errado, não é o fim do mundo”, segundo Markmann. Se uma tentativa de desmamar pacientes com drogas imunossupressoras falhar, eles podem fazer diálise para limpar o sangue. Outros órgãos transplantados pode significar a morte.

O fígado ainda intriga os pesquisadores por diversas razões. Ele é menos propenso a sofrer rejeição pelo sistema imunológico, porém, quando a rejeição ocorre, há menos dano imediato ao órgão.

Existe a possibilidade de uma pessoa já transplantada há anos, aceitar o órgão. Normalmente as pessoas transplantadas optam por interromper das medicações anti-rejeição por conta de despesas e efeitos colaterais.

Estima-se que de 15% a 20% dos pacientes com fígado transplantado tiveram sucesso nessa estratégia arriscada.

O Dr. Alberto Sanchez-Fueyo, especialista em fígado do King’s College de Londres, informou que até 80% poderiam parar de tomar remédios anti-rejeição . Em geral, esses pacientes eram mais velhos – o sistema imunológico fica mais fraco com a idade. Eles haviam sido usuários de longo prazo de drogas imunossupressoras e tinham biópsias hepáticas normais.

Porém, os danos causados ​​por drogas imunossupressoras são cumulativos e irreversíveis, e o uso por mais de uma década pode causar danos significativos. No entanto, não há como prever quem conseguirá se abster dessa situação.

Enganando o sistema imunológico

Quanto mais os pesquisadores aprendiam sobre a sinfonia dos glóbulos brancos que controlam as respostas a infecções e cânceres – e órgãos transplantados -, mais eles começaram a ter esperança sobre modificar o sistema imunológico do corpo.

Muitos tipos de glóbulos brancos trabalham juntos para criar e controlar as respostas imunológicas. Vários pesquisadores, incluindo o Dr. Markmann e sua colega, Dra. Eva Guinan, do Instituto do Câncer Dana-Farber, optaram por se concentrar em células chamadas de linfócitos T reguladores.

São glóbulos brancos raros que ajudam o corpo a identificar suas próprias células como não estranhas. Se essas células reguladoras estiverem ausentes ou comprometidas, as pessoas podem desenvolver doenças nas quais o sistema imunológico do corpo ataca seus próprios tecidos e órgãos.

A ideia é isolar células T reguladoras de um paciente prestes a ter um transplante de fígado ou rim. Então os cientistas tentam cultivá-los no laboratório junto com as células do doador.

Então as células T são infundidas de volta ao paciente. O processo, esperam os cientistas, vai ensinar o sistema imunológico a aceitar o órgão doado como parte do corpo do paciente.

“As novas células T sinalizam ao resto do sistema imunológico para deixar o órgão funcionar sozinho”, disse Angus Thomson, diretor de imunologia de transplantes do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh.

Dr. Markmann, trabalhando com pacientes de transplante de fígado, e Dr. Leventhal, trabalhando com pacientes de transplante renal, estão iniciando estudos usando células T reguladoras .

Em Pittsburgh, o plano é modificar uma célula diferente do sistema imunológico, chamada de células dendríticas reguladoras. Como as células T reguladoras, elas são raras e permitem ao resto do sistema imunológico distinguir o eu do não-eu.

Uma vantagem das células dendríticas reguladoras é que os pesquisadores não precisam isolá-las e cultivá-las em quantidades suficientes. Em vez disso, os cientistas podem estimular um tipo mais abundante de células – glóbulos brancos imaturos – a se transformar em células dendríticas em placas de petri.

“Demora uma semana para gerar células dendríticas”, disse o Dr. Thomson. Em contraste, pode levar semanas para desenvolver células T reguladoras suficientes.

As células T reguladoras também precisam permanecer na corrente sanguínea para controlar a resposta imune, enquanto as células dendríticas não precisam permanecer por muito tempo – elas controlam o sistema imunológico durante uma breve jornada pela circulação.

“Cada um de nós está aproveitando uma abordagem diferente”, disse Markmann. “Ainda não está claro qual é o melhor. Mas o campo está em um ponto fascinante ”.

E os pacientes que já tiveram um transplante de órgão? É tarde demais para eles?

“Eu recebo essa pergunta quase todos os dias que estou vendo pacientes”, disse Leventhal.

Por enquanto, a resposta é que é tarde demais. Esses pacientes não são candidatos a essas novas estratégias para modificar o sistema imunológico. Mas os pesquisadores esperam que a situação mude conforme eles aprendam mais.

“Alguém tem que ser o primeiro”

Quando Michael Schaffer, o paciente de Pittsburgh, foi informado de que ele precisava de um fígado e que ele poderia ser o primeiro paciente no teste clínico do grupo, ele deu de ombros. “Alguém tem que ser o primeiro”, disse ele.

O Sr. Schaffer começou uma busca para encontrar um doador vivo, um parente próximo disposto a se submeter a uma operação importante para remover um lobo do fígado – ou um estranho cujas células fossem compatíveis e que estivessem dispostas a doar.

Os cientistas de Pittsburgh lhe disseram como proceder. Pergunte a família imediata, depois parentes, amigos e colegas. Se isso falhasse, ele teria que começar a anunciar com folhetos e postagens no Facebook.

O Sr. Schaffer é um de oito irmãos. Quatro deles tinham mais de 55 anos, sendo considerados muito idosos para serem submetidos à remoção segura de parte do fígado. Já os três irmãos mais novos estavam com problemas de saúde.

Ele então procurou sobrinhas e sobrinhos. Três concordaram em doar, e um deles, Deidre Cannon, 34, avançou com a operação, que aconteceu em 28 de setembro de 2017.

Depois, Schaffer tomava 40 comprimidos por dia para prevenir infecções e conter seu sistema imunológico, enquanto seu corpo aprendia a aceitar o novo órgão.

Mas agora ele diminuiu para uma pílula, uma dose baixa de apenas uma das três drogas anti-rejeição com que ele começou. E os médicos esperam desmamar ele mesmo disso.

Seu caso pode ser intrigante, mas ele é apenas um paciente. Os cientistas planejam testar o procedimento em mais 12 pacientes e, se conseguirem, expandir o estudo para incluir muito mais pacientes em vários locais de teste.

Para o Sr. Schaffer, tudo valeu a pena. Ele está ativo, trabalhando com um neto adolescente para substituir os azulejos no chão da cozinha. Ele corta grama como um favor para seus vizinhos e ajuda a cuidar de seus netos depois da escola.

“Meu objetivo é chegar aos 100 anos e levar um tiro na cama por um marido ciumento”, disse Schaffer.

 

Fontes:
The New York Times-Scientists Are Teaching the Body to Accept New Organs

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