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Como George Orwell escreveu o romance ‘1984’

Orwell, cujo nome real era Eric Arthur Blair, estava doente quando começou a escrever um dos romances que definiram o século XX

Como George Orwell escreveu o romance ‘1984’
Eric Arthur Blair, nome real de George Orwell, morreu aos 46 anos (Foto: Flickr/Cassowary Colorizations)

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A editora norte-americana de George Orwell gostava de dizer que o título do livro 1984 era simplesmente os dígitos finais invertidos do ano em que o escrevera, antecipando um futuro não muito distante em que superestados totalitários brutais dominavam o mundo.

A explicação é conveniente, mas nunca foi confirmada por Orwell, cujo trabalho não chegou a ser impresso até 8 de junho de 1949, uma data que significa que este fim de semana marca sete décadas desde a rebelião de Winston Smith contra o Big Brother e sua sociedade de pesadelos de pensamentos.

Orwell, cujo nome real era Eric Arthur Blair, estava doente quando começou a escrever um dos romances que definiram o século XX. Porém, já era conhecido com o sucesso de seu livro, Revolução dos Bichos, de 1945, antes de lançar seu livro no estilo “conto de fadas” sobre a União Soviética.

O amigo e editor de Orwell no Observer, David Astor, sugeriu que ele passasse um tempo em uma propriedade na remota ilha escocesa de Jura. Astor conhecia o proprietário das terras, que estava precisando de um inquilino para sua casa de fazenda chamada Barnhill.

Entusiasmado, Orwell partiu com sua bagagem e pouca mobília, em companhia de sua irmã Avril, em maio de 1946. Ao se mudar para a ilha, deixou seu emprego como revisor de livros e correspondente no jornal e, com relutância, seu filho adotivo Richard, que ficou com a babá em uma casa em Islington.

Barnhill era uma casa de quatro quartos situada na parte norte da ilha. Não tinha eletricidade, acesso a telefone público ou aos correios. O hospital mais próximo ficava em Glasgow, e era uma jornada perigosa no mau tempo. A única conexão de Orwell com o mundo era o rádio à bateria.

Quando ele se sentia bem, passava a maior parte de seus dias trabalhando em um romance, que chamava de “O Último Homem na Europa”, na sala de estar de Barnhill, ou escrevia em sua cama, com um cigarro e um bule de café frio ao lado.

Orwell escrevia sobre seus temas de ditadura, o abuso de poder e as possibilidades de manipulação em massa através da linguagem desde a Guerra Civil Espanhola, mas disse que suas ideias foram realmente cristalizadas pela Conferência de Teerã de 1944, na qual ele viu Joseph Stalin, Winston Churchill e Franklin D. Roosevelt esculpindo o mundo em antecipação à derrota da Alemanha nazista.

Enquanto escrevia a história de Winston Smith, Orwell sofreu um acidente que acabaria por matá-lo. Caminhando ao longo da costa de Jura, em um barco a motor durante um dia de verão em agosto de 1947, ele e seu grupo quase se afogaram quando a embarcação virou em meio ao notório redemoinho de Corryvreckan. Orwell foi sugado pelas águas geladas, mas conseguiu nadar em segurança, embora não sem o choque, causando danos permanentes aos seus já fracos pulmões. Tossindo alarmantemente a partir de então, para consternação de seus entes queridos, absteve-se de procurar ajuda até que finalmente desmaiou depois de completar o primeiro esboço do que viria a ser o livro ‘1984’ em 7 de novembro.

Pouco antes do Natal, Orwell finalmente consentiu em ser levado ao hospital Hairmyres, em East Kilbride, onde foi diagnosticado com tuberculose fibrótica crônica na parte superior dos pulmões. Ele foi mantido sob cuidados até julho de 1948, antes de retomar o trabalho no outono seguinte.

Tendo feito “uma bagunça horrível” em seu manuscrito original, Orwell cuidadosamente redigitou seu trabalho com uma média de 4 mil palavras por dia, sete dias por semana, de acordo com o biógrafo Dorian Lynskey.

Ele terminou de escrever o romance em dezembro e depois passou a residir em um sanatório em Cranham, Gloucestershire, no início de janeiro de 1949, um passo que ele teria sido aconselhado a tomar muito mais cedo.

“Tudo está florescendo aqui, exceto eu”, escreveu ele a Astor. Ele foi novamente mantido afastado de seu filho, desta vez por medo de infectá-lo.

Os livros ‘1984’ chegaram naquele verão a grande aclamação, mas o próprio Orwell faleceria em janeiro do ano seguinte, embora não antes de se casar com Sonia Bronwell – sua inspiração para Julia no livro – em seu leito de enfermaria no University College Hospital. Astor serviu como seu padrinho.

Eric Arthur Blair, morreu aos 46 anos e foi enterrado no cemitério de Sutton Courtenay, em Oxfordshire. Seu romance, é claro, vive como parte de nosso discurso político e social, alcançando uma nova relevância no século 21 da pós-verdade, desde a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos. 

“Acho que papai teria se divertido com Donald Trump de uma maneira irônica”, disse Richard Blair ao Guardian em 2017. “Ele pode ter pensado: ‘Lá vai o tipo de homem que escrevi sobre todos esses anos'”.

Fontes:
Indepdendent-1984: How the dying George Orwell wrote his searing totalitarian dystopia on a remote Scottish island

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