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Como o petróleo e a carne bovina moldaram a história americana

Livros analisam como os dois setores ajudaram a transformar os EUA em uma nação rica, mas com consequências prejudiciais para o meio ambiente e a política

Como o petróleo e a carne bovina moldaram a história americana
Livros analisam transformações no século XIX e início do século XX (Foto: Library of Congress)

Os Estados Unidos são fascinados por histórias sobre suas origens. Pelo fato de o país ter sido colonizado por imigrantes, é tentador para os historiadores contarem sua história por meio de um movimento ou de um grupo específico.

Desde o conceito da “tese da fronteira” de Frederick Jackson Turner, em que um dos maiores historiadores americanos afirmou que a expansão dos EUA em direção ao oeste foi a base dos ideais que caracterizam a sociedade americana, a Edmund Morgan, um autor especializado em história colonial americana, que destacou a influência dos puritanos na formação cultural e social do país, muitos livros descreveram o impacto das subculturas no desenvolvimento da sociedade dos EUA.

Em uma época em que muitos se preocupam com a influência de alguns setores empresariais, como dos bancos após a crise financeira e da concentração de empresas de tecnologia do Vale do Silício, é natural que novos livros se dediquem a explorar o papel de um setor empresarial forte na formação do cenário físico e cultural dos EUA nos séculos XIX e XX. Dois novos livros examinam setores que ajudaram a transformar os EUA em uma nação rica, mas com consequências prejudiciais para o meio ambiente e a política.

Em Red Meat Republic, Joshua Specht analisa a transformação no século XIX e início do século XX da carne bovina, antes um alimento reservado a ocasiões especiais, em uma refeição cotidiana e seus reflexos na cultura, na política e no meio ambiente do país. Por sua vez, em Anointed with Oil, Darren Dochuk acompanha a evolução do setor de petróleo e gás desde as descobertas iniciais, durante a Guerra de Secessão, até o boom da exploração do gás de xisto.

Dochuk, professor de história da Universidade de Notre Dame, nos EUA, tem um estilo fluido de escrever, e seu livro relata os altos e baixos da exploração do petróleo, do mundo dos aventureiros que em sua busca por petróleo não mediam riscos e dos poderosos empresários da década de 1890, como John D. Rockefeller e seu irmão William que fundaram a Standard Oil Company, a maior companhia de petróleo do mundo na época.

“O poder do petróleo ao longo do tempo é um fato inegável. Muito mais do que uma commodity em torno da qual circula a economia dos EUA, o petróleo é uma marca na alma dos Estados Unidos”, escreveu Dochuk.

O livro também enfatiza o papel da religião, sobretudo da divisão entre o fundamentalismo seguido pelos empresários independentes e a influência controladora do protestantismo defendido por executivos que queriam regulamentar o setor, como John D. Rockefeller.

A leitura do livro Red Meat Republic é mais pesada, porque se baseou na tese de doutorado de Specht e mantém um tom acadêmico. Porém, sua análise da história dos criadores de gado mostra a importância deles na formação da sociedade americana nas regiões centro-oeste e sudoeste do país, enquanto os indígenas eram expulsos de suas terras. Specht também descreve a ascensão e decadência das cidades, que se beneficiavam com a migração dos rebanhos de gado, à medida que as ferrovias passaram a ser o principal meio de transporte dos EUA.

Specht, que leciona história na Universidade Monash, na Austrália, começa seu relato com a descrição da vida dos pequenos agricultores e vaqueiros, que não conseguiam competir com os poderosos compradores de gado. Em seguida,  menciona as terríveis condições de trabalho nos abatedouros em Chicago e a luta pela sobrevivência dos açougueiros das pequenas cidades da Costa Leste diante da expansão da indústria frigorífica.

A descrição de Specht sobre a exploração da mão de obra não qualificada e dos açougueiros locais em dificuldades financeiras pela indústria frigorífica ainda tem ecos no mundo atual. Publicado em 1906, o livro The Jungle de Upton Sinclair descreveu a vida de imigrantes que trabalhavam em um frigorífico em Chicago. O impacto do relato das jornadas extenuantes de trabalho em meio à sujeira dos abatedouros forçou o governo americano a criar os primeiros órgãos reguladores da higiene na produção de alimentos. Mas o lobby dos produtores de carne bovina conseguiu evitar a aprovação de outras regulamentações.

Os dois setores, de petróleo e gás, assim como da produção de carne bovina, desempenham um papel importante na economia do país, além de fortalecer a imagem dos EUA como uma terra de abundância e oportunidades. No entanto, o incentivo à redução do uso de combustíveis fósseis e a crescente popularidade das dietas vegetariana e vegana ameaçam sua estabilidade.

Fontes:
Financial Times-How oil and beef shaped America

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