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Como Veneza gerencia a pior crise turística da Europa

Iniciativas locais começam a reverter o processo de degradação cultural e ambiental de Veneza, uma das cidades que mais atraem turistas na Europa

Como Veneza gerencia a pior crise turística da Europa
Outros grupos também se esforçam para preservar a culturas locais (Foto: Pixabay)

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Sexta-feira, 15 de março, foi um dia atípico em Veneza. O número de venezianos reunidos em frente à estação de trem Santa Lucia era superior ao dos turistas.

Jovens venezianos saíram das escolas para participar do movimento de proteção ao meio ambiente, que reuniu jovens em vários lugares do mundo. O movimento tem um significado especial para Veneza, cuja sobrevivência está ameaçada pela elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.

Apesar da ameaça da mudança climática, o turismo de massa representa um risco mais imediato à sobrevivência da cidade. Veneza recebe 25 milhões de turistas por ano e, segundo estimativas, esse número deve atingir 38 milhões em 2025.

De acordo com dados da Organização Mundial do Turismo da ONU, a Europa recebeu 713 milhões de turistas em 2018, um aumento de 8% em relação ao ano anterior. Oturismo é uma fonte de renda importante, como no caso de Veneza, que tem uma receita anual de € 2 bilhões decorrente do turismo. Mas o turismo de massa em cidades como Barcelona, Amsterdam e Dubrovnik está causando problemas sérios de hospedagem, de danos ambientais e de perda de qualidade de vida dos moradores locais.

Em 2016, os habitantes de Dubrovnik ficaram furiosos quando o prefeito lhes pediu que ficassem em casa para evitar o tumulto das multidões de turistas que desembarcavam dos navios de cruzeiro. Diante da indignação geral, o novo prefeito, Mato Frankovic, limitou o desembarque de turistas a dois navios por dia, cortou o número de lojas de suvenires em 80% e reduziu a ocupação de espaços públicos por restaurantes em 30%.

Problemas semelhantes causaram protestos populares em Palma de Maiorca, San Sebastián, Praga e Salzburgo. Mas o que causou mais impacto foi o protesto, em 2016, de moradores de Veneza, que bloquearam com seus pequenos barcos de pesca a entrada de seis enormes navios de cruzeiro no canal Giudecca. Agora, o governo planeja construir um novo porto em Marghera, fora da lagoa de Veneza, para abrigar navios de grande porte.

Essa iniciativa faz parte de uma série de medidas para  preservar o frágil equilíbrio entre a lagoa e o comércio ao seu redor. A lagoa de Veneza teria assoreado há 500 anos, se não fosse o esforço do governo com a proteção ambiental, a intervenção técnica e a regulamentação comercial rigorosa.

Uma nova geração de cidadãos e de empresários lidera o movimento de preservação da cidade. Todos os dias, funcionários municipais de limpeza pública recolhem o lixo das casas e o coloca em barcas onde é transportado para uma central de reciclagem de resíduos sólidos. Os funcionários esforçam-se para manter a cidade limpa na alta temporada do turismo, quando as lixeiras ao redor da praça San Marco precisam ser esvaziadas a cada meia hora.

A família Romanelli, proprietária dos hotéis boutique Novecento e Flora,eliminou as garrafas de plástico de água mineral servidas aos hóspedes. Um folheto com um mapa das famosas fontes de água de Veneza incentiva os hóspedes a usarem garrafas de metal em seus passeios pela cidade. “Não temos a pretensão de fazer um trabalho tão ambicioso como o de Leonardo DiCaprio em sua fundação de proteção ao meio ambiente, mas achamos que pequenas ações também contribuem para reverter o processo de mudança climática”, disse Gioele Romanelli.

Segundo a família Romanelli, essa iniciativa pode resultar em uma redução no consumo de 36 mil garrafas de plástico por ano. Se outros hotéis e restaurantes seguirem o exemplo, Veneza deixará de consumir milhões de garrafas de plástico por ano. “Nossos filhos têm aula de preservação ambiental e levam garrafas de metal com água nas mochilas. Então, por que não deveríamos fazer o mesmo?”, disse a esposa de Romanelli, Heiby.

Além da preocupação com a reciclagem do lixo, empresários locais criaram o site Fairbnb reservado à hospedagem de turistas em casas de moradores da cidade. De acordo com as regras do site que será lançado em junho, os inscritos no programa contribuirão com metade da taxa de reserva de 15% para projetos sociais.

A criação do site é oportuna. A partir de 2015, o número de turistas que alugou casas e apartamentos por meio do serviço online de hospedagem Airbnb em Veneza aumentou de 2.441 para 8.320. Cerca de 80% desses imóveis pertencem a agências de turismo ou a investidores estrangeiros.

Outras cidades europeias também estão adotando medidas para solucionar problemas semelhantes. Barcelona está processando os donos de apartamentos, que não têm permissão para alugá-los e tem acesso aos dados do cadastro do Airbnb para controlar o movimento dos aluguéis. Em Madrid, a hospedagem só é permitida em casas com entradas independentes. Palma de Maiorca proibiu o aluguel de imóveis para turistas por períodos curtos.

Com o objetivo de atrair a atenção dos turistas para aspectos típicos da cultura local, o site Venezia Autentica de Valeria Duflot e Sebastian Fagarazzi sugere visitas a empresas de Veneza que apoiam a economia sustentável da cidade, como gravuristas, fotógrafos, e fabricantes de mosaicos e remos.

Em várias cidades da Europa, outros grupos também se esforçam para preservar a culturas locais. Em 2017, o movimento social Morar em Lisboa publicou uma carta denunciando a excessiva dependência de Lisboa em relação ao turismo e à especulação imobiliária. Em maio de 2018, Veneza, Lisboa, Malta e algumas cidades da Espanha criaram a Network of Southern European Cities em protesto contra o turismo de massa responsável pelo aumento dos aluguéis, poluição, prejuízo do comércio local e oferta maior de empregos mal remunerados.

Em razão da estratégia de turismo baseada em sustentabilidade, inovação e manutenção da integridade cultural e ambiental, a Comissão Europeia concedeu o prêmio European Capital of Smart Tourism deste ano a Helsinque, capital da Finlândia.

Segundo o analista de dados Fabio Carrera, essa estratégia de turismo é um modelo a seguir em Veneza.  Assim, decidido a preservar o patrimônio histórico e cultural da cidade, Carrera trabalha há 30 anos no Centro de Projetos de Veneza,dividindo seu tempo entre o Instituto Politécnico de Worcester, o Instituto Santa Fé e Veneza. Ao longo desse período, ele supervisionou 250 projetos, mapeou todas as pontes, campanários, poços e ônibus aquáticos da cidade.

A partir da análise do fluxo do turismo, pesquisadores do Centro concluíram que a capacidade máxima de transporte de Veneza é de 55 mil turistas por dia, ou 20 milhões por ano, de acordo com os padrões de segurança da União Europeia.

Os novos recursos tecnológicos oferecem algumas soluções para melhorar o transporte. Na start-up SerenDPT, alunos do Centro desenvolvem projetos de aplicativos de transporte inteligentes e de controle automatizado do trânsito.

Na opinião de Carrera, nenhuma cidade europeia é tão afetada pelos problemas decorrentes do fluxo intenso de turistas como Veneza. Mas a cidade tem características especiais que lhe permite pôr em prática iniciativas inovadoras voltadas para o turismo sustentável. Além disso, a nova geração está conectada com que há de mais moderno no mundo e contribui com suas ideias para o projeto de preservação da cidade.

Fontes:
The Guardian-

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