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A crise dos refugiados pelo olhar dos voluntários

Voluntários contam suas experiências com refugiados na Grécia e falam sobre a xenofobia que cresce ao redor do mundo

A crise dos refugiados pelo olhar dos voluntários
Segundo a Anistia Internacional, cerca de 1.700 pessoas morreram na travessia do Mediterrâneo entre janeiro e abril de 2015 (Arquivo pessoal de Elizabeth Adams)

O que você faria caso a sua vida e a de sua família estivesse em risco? A Europa está recebendo o maior número de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Pessoas de diferentes países estão tendo que largar suas vidas e suas casas para ter uma vida mais segura, só que muita gente parece não entender o que é ser um refugiado. Por isso, o Opinião e Notícia conversou com uma brasileira e uma inglesa que resolveram se voluntariar para ajudar estas pessoas.

Grande parte dos refugiados é sírio, mas também há gente do Afeganistão, do Iraque, entre outros lugares. A Síria está em guerra civil há cinco anos e, para piorar, o Estado Islâmico deixa sua marca no país. A Turquia faz fronteira direta com a Síria. Não é a toa que ela se tornou a porta de entrada para muitos refugiados sírios. Só que um acordo firmado em março deste ano entre a União Europeia e Turquia tenta frear este fluxo de pessoas. Basicamente, todos os refugiados ilegais que chegam à Grécia são reenviados para Turquia e, em troca, a União Europeia oferece um dinheiro para Turquia e reassenta em países do bloco os refugiados sírios que vivem legalmente na Turquia. Estas deportações estão acontecendo na Grécia.

Segundo a Anistia Internacional, cerca de 1.700 pessoas morreram na travessia do Mediterrâneo entre janeiro e abril de 2015. De acordo com a Organização Internacional de Migração (OIM), 184.997 migrantes e refugiados foram para Europa entre 1° de janeiro e 20 de abril, sendo que 180.643 deste total vieram pelo mar. Além disso, a maioria destas pessoas foi para Grécia.

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Mapa com números de migrantes entre 1° de janeiro até 20 de abril (OIM)

Uma brasileira na Grécia

Stella Chiarelli, 27 anos, é uma brasileira que mora na Turquia há sete anos e meio. Ela conta que a crise dos refugiados começou a ficar mais evidente em 2014, com muitas famílias nas ruas pedindo dinheiro. Em agosto de 2015, Stella, que estava de férias na faculdade, foi fazer trabalho voluntário com alguns amigos europeus na ilha de Lesbos, na Grécia. A ilha que é famosa pelo turismo, começou a receber uma grande quantidade de refugiados na época. “A situação estava caótica, porque não tinha estrutura para receber os refugiados e as grandes organizações não estavam lá. Então, a única ajuda vinha de gente que morava na ilha ou de voluntários.”

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Refugiados ajudando a limpar o estacionamento (Arquivo pessoal de Stella Chiarelli)

Como ainda não havia campos, os refugiados ficavam num estacionamento a céu aberto de uma escola, que estava fechada por causa das férias. Os refugiados chegavam muito cansados, porque tinham ficado horas num bote lotado. Ainda assim, a maioria estava aliviada por chegar à ilha. Só que segundo ela, naquela época, muitos não sabiam que esse era apenas o início da jornada. Como estavam em Molyvos, no norte da ilha, eles ainda precisavam ir para o local de registro, que ficava a cerca de 70 km do estacionamento. Os refugiados não podiam pegar táxi nem ônibus público. Havia apenas uns três ônibus de uma ONG que faziam o transporte deles, mas ninguém sabia quando eles iam passar. Então, os voluntários sugeriam que os homens fossem andando, uma caminhada de mais ou menos três dias, o que equivaleria a ir andando do Rio de Janeiro para Petrópolis, uma distância de 68,5 km. Já para as mulheres, as crianças e os idosos, eles aconselhavam que esperassem o ônibus. Só que isso acabava separando famílias que não sabiam se um dia iriam se reencontrar.

Durante este período, boa parte dos refugiados era de classe média. A faixa etária era bem variada e eles vinham com famílias grandes. Algumas mulheres vinham sem seus maridos, porque ou eles já estavam na Europa ou eles já haviam morrido na Síria.

Stella passou apenas cinco dias em Lesbos, porque já tinha uma viagem marcada para o Brasil. “Foram os dias mais intensos da minha vida, foi transformador para mim. Antes de eu ir, eu não sabia o que ia fazer da vida. Quando eu fui lá e vi que as pessoas precisavam de ajuda, eu me encontrei com o grupo de voluntários, pessoas extraordinárias.” No dia que ela embarcou para o Brasil, o corpo do menino sírio Aylan Kurdi foi encontrado na Turquia, notícia que chocou o mundo. “Foi aí que o mundo inteiro começou a olhar para a situação.”

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Stella Chiarelli com parte de uma família de curdos (Arquivo pessoal de Stella Chiarelli)

No Brasil, ela fez um financiamento coletivo para poder voltar a Lesbos e ajudar os refugiados com suprimentos. A campanha foi um sucesso e, em novembro, ela estava de volta à ilha, onde passou dez dias. Só que apesar da quantidade de refugiados ainda ser enorme, a situação estava bem diferente, porque as grandes organizações e muitos voluntários já tinham chegado para ajudar. Então, ela resolveu voltar para Turquia e ver como estavam os refugiados no país.

Stella conta que alguns de seus amigos na Turquia não entendem o motivo pelo qual ela quis ajudar estas pessoas. “Pode parecer muito inocente da minha parte, mas eu acho que o grande problema das pessoas é que elas têm dificuldade de se colocar no lugar do outro. E é uma coisa que eu faço constantemente.”

Boa parte dos refugiados são crianças ou menores desacompanhados. “As crianças não estão indo para escola. Essa questão das crianças é um estrago que já foi feito. Quando uma criança não tem educação ou quando não tem pai e mãe, fica muito mais vulnerável a extremistas que querem recrutá-la.”

A brasileira conta que muito esquecem que os refugiados são acima de tudo, pessoas. “Têm pessoas doentes, têm pessoas com câncer, que estavam em tratamento na Síria e tiveram que ir embora. O câncer vai embora do corpo da pessoa porque ela teve que se refugiar? Não, ela vai continuar lutando. As pessoas não querem se conectar com isso. Muitas pessoas preferem fechar o olho e julgar os refugiados.”

Muitos críticos do acordo entre a União Europeia e a Turquia dizem que não é certo fazer com que estas pessoas retornem para a Turquia enquanto esperam ser reassentadas, porque este não é um lugar seguro para os refugiados. Segundo Stella, o país não tem estrutura para receber mais refugiados do que já tem. Além disso, a guerra na Síria não tem previsão para terminar e o Estado Islâmico também está deixando marcas no país. Para piorar, por estar recebendo muitos refugiados da Grécia, a Turquia está impedindo que outros refugiados passem sua fronteira.

Uma visão inglesa sobre a crise de refugiados

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Molyvos, na ilha de Lesbos, na Grécia (Arquivo pessoal de Elizabeth Adams)

A inglesa Elizabeth Adams, 36 anos, se voluntariou por duas semanas em abril na Grécia. Ela trabalhou em Molyvos, na ilha de Lesbos, para uma ONG norueguesa, chamada Drapen i Havet, e em Atenas, no The Schoolbox Project.

No trabalho da ONG, os voluntários faziam turnos durante o dia inteiro para ajudar os refugiados que chegavam à praia. Só que durante o período em que ela esteve lá, nenhum barco chegou a Molyvos. Muitos foram para outra cidade grega, Mitilene. Afinal, desde o acordo entre a Grécia e a Turquia, a vigilância ficou constante, e o número de refugiados da Turquia para Grécia caiu bastante. “Muitas pessoas morrem nessas jornadas, mais de mil morreram no Mediterrâneo em um ano. Ninguém faz esta travessia se não estiver desesperado.”

Elizabeth também trabalhou no Hope Centre, projeto de um casal inglês que vive em Lesbos há anos. Eles organizam roupas e mantimentos para refugiados. Como acreditam que a calmaria nas chegadas dos refugiados é temporária, o casal e outros voluntários estão reformando um hotel antigo, o Hope Centre, para acolher os refugiados quando precisarem. Já em Atenas, no The Schoolbox Project, Elizabeth trabalhou num campo com cinco mil refugiados. A ideia era entreter e manter as crianças ocupadas ao longo do dia.

Elizabeth acredita que a xenofobia ao redor do mundo contra os refugiados é uma questão de ignorância. “Este medo das pessoas foi estimulado pela extrema direita em toda a Europa. Bem, eu tenho notícias para aquelas pessoas: olhe Londres, olhe Paris, Berlim, olhe o Rio, olhe os Estados Unidos. Olhe para qualquer cidade grande do mundo. Nós somos de todas as cores e credos, muitos de nós somos migrantes, internos ou externos, e vivemos felizes lado a lado todos os dias. Apesar de usar roupas diferentes, comer alimentos diferentes, falar línguas diferentes, rezar aos deuses diferentes e seguir rotinas diferentes. Isso é progresso, isso é evolução, isso é o que sempre aconteceu no mundo e não vai parar.”

Sobre o acordo, a inglesa diz que esta não é a solução. “É francamente repugnante que em 2016, a União Europeia vire as costas para os refugiados e diga: ‘aqui Turquia, tome um dinheiro e apenas os mantenha fora da Europa, pode ser? ’ Estamos virando completamente as costas para os refugiados e tenho vergonha de ser europeia nestes dias.”

Para ela, a situação é preocupante. “Quando criamos muros, cercas de arame farpado ou acordos políticos, criamos divisões. Quando criamos divisões, criamos medo e ressentimento. Viramos ‘nós’ e ‘eles’, os dois lados, e eventualmente temos guerra. Precisamos resolver este problema.”

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Elizabeth Adams (à direita) com uma voluntária norueguesa (Arquivo pessoal de Elizabeth Adams)

A inglesa conta que um grego se queixou que os refugiados estavam deixando lixo no lado de fora de sua casa. “Se este é o único crime deles, eu acho que podemos lidar com isso. Não acho que ficaria muito preocupada em onde colocaria meu lixo se eu estivesse nesta situação. Onde está a compaixão? Cadê a empatia para com essas pessoas? Muitos dos refugiados são muito bem educados, tinham vidas comuns em seus países de origem antes que a guerra e o terrorismo causassem estragos. Não ouvi nada sobre roubo e outras coisas ruins em Lesbos, nem uma única palavra sobre isso.”

Elizabeth diz que quer compartilhar sua experiência para mostrar ao mundo o que é ser um refugiado. “Se não agirmos agora, estamos criando um exército enorme de crianças e adultos totalmente marginalizados. Eu não entendo que guerra pensamos estar lutando contra essas pessoas. O que está acontecendo agora é a falência moral das nações numa escala imperdoável.”

 

Caro leitor,

Você fugiria do país caso você e sua família corressem risco de vida? O que acha sobre o acordo entre a União Europeia e a Turquia?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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4 Opiniões

  1. Ludwig Von Drake disse:

    Se apenas minha família corresse risco de morte não era o caso de fugir, mas de escapar. A História ensina que fugir, nunca é a melhor escolha, embora seja a mais fácil.
    Se todas corressem risco, é o caso de ficar e lutar. Morrer é consequência direta da vida, não há que ter medo.

  2. Almanakut Brasil disse:

    Violência e criminalidade geram um recorde de refugiados na América Central

    A partir dos anos 80, o número de centro-americanos que continuam fugindo da violência e da criminalidade organizada na região alcançou cifras recordes. A denúncia foi feita pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). No ano passado, o México recebeu quase 3500 pedidos de asilo, a maior parte proveniente de El Salvador, Honduras e Guatemala, os países mais atingidos pelo fenômeno. (AP) (30/4/2016 Agência Fides)

    http://www.fides.org/pt/news/59928-AMERICA_Violencia_e_criminalidade_geram_um_recorde_de_refugiados_na_America_Central#.VykmhoQrK1s

  3. Markut disse:

    Situações extremas como essa não são inéditas, na história da humanidade.

    “O homem é o lobo do homem” , desde tempos imemoriais.

    Ninguem melhor que Nietzsche define o homem como a corda esticada sobre o abismo, entre o animal e o ser sublimado.

    Remember Hannah Arendt e o seu conceito da “banalidade do mal”.

  4. olbe disse:

    É muito bonito o que estas pessoas estão fazendo para ajudar mas é muito bonito no sonho porque a realidade é muito diferente: Ela mesma diz que os países não tem estrutura. Não é só dar comida e roupa, tem que dar moradia, trabalho e estudo. Pergunte a estas pessoas bondosas se ela aceitariam, na casa em que moram , receber mais 10 famílias? É impossível, pois é isto que está acontecendo. É preciso que o mundo todo faça esta guerra acabar e estas pessoas possam reconstruir seu próprio país onde nasceram e tem sua família, sua história e sua religião…fora dali serão sempre estranhos…já sofrerem demais BASTA DE MATANÇA!!!!

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