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EDUCAÇÃO

A promessa educacional de uma start-up para a África

Com mensalidades baixas, as escolas Bridge prometem revolucionar a educação em países pobres. No entanto, as críticas ao modelo são muitas

A promessa educacional de uma start-up para a África
Os instrutores recebem os planos de aula através de seus e-readers (Foto: Bridge International Academies)

Em Kawangware, uma populosa favela em Nairobi, no Quênia, crianças com uniformes verdes entram na Bridge, uma escola diferente. A companhia americana com fins lucrativos foi fundada em 2007, por Shannon May, seu marido Jay Jay Kimmelman, e o amigo Phil Frei. A promessa era revolucionar a educação em lugares pobres.

A Bridge opera 405 escolas no Quênia, da pré-escola até o nono ano. Os pais têm que desembolsar entre US$ 54 e 126 por ano, dependendo da localização da escola. Grandes nomes como Bill Gates, Omidyar Network, a inicitiva Chan Zuckerberg e o Banco Mundial investiram na companhia.

No dia a dia da sala de aula, os instrutores, que não precisam ser certificados, têm que seguir à risca um plano de aula montado por outras pessoas. Desta forma, qualquer instrutor da Bridge, em qualquer unidade, estará dando a mesma aula e passando o mesmo conteúdo. Além disso, as escolas são feitas com materiais de construção baratos, gerando menos custos.

Os instrutores recebem os planos de aula através de seus e-readers. Apesar de muitos enxergarem a ideia como a solução para escolas com problemas, críticos dizem que isso é uma espécie de “McDonaldização” do ensino. Segundo eles, os planos de aula podem ser confinadores. Em algumas aulas nas escolas Bridge, os alunos fazem perguntas, mas os instrutores ignoram, porque precisam cumprir o roteiro do dia.

Em 2003, o governo queniano aboliu oficialmente as taxas na educação pública primária, mas depois viu que não tinha condições de construir escolas o suficiente para os alunos matriculados. As escolas públicas, que recebem dinheiro do governo para os salários dos professores e para manter os prédios, ainda cobram uma pequena taxa dos pais para materiais e lenha. Todos os professores das escolas públicas são certificados. Contudo, 70% dos alunos do quarto ano não conseguem fazer tarefas do terceiro ano.

Os quenianos com melhores condições financeiras ou os estrangeiros mandam seus filhos para escolas particulares, onde as crianças são ensinadas em inglês. Os trabalhadores pobres, por sua vez, mandam seus filhos para escolas particulares locais ou paroquiais, que cobram taxas um pouco maiores que as públicas. No entanto, 60% das crianças pobres em idade escolar não vão para a escola porque seus pais não podem pagar nem mesmo a menor das taxas disponíveis. E esta é outra crítica ao modelo Bridge. “Eles têm que pagar taxa de matrícula, uniformes, e almoço”, disse Chritopher Kirchgasler, que passou 10 meses estudando as escolas Bridge em Nairobi, para sua dissertação de doutorado. “Para nós, uma questão de poucos dólares não é nada, mas para estas famílias muito pobres, pode ser um obstáculo monumental”.

Os pais contam que a escola manda as crianças de volta para a casa caso as taxas não sejam pagas. Os executivos da Bridge se defendem, dizendo que as escolas dependem dos pagamentos. “Aqueles que se engajam no discurso de fazer as pessoas mais pobres da África pagarem US$ 6 por mês para a escola, não fazem a mínima ideia do que é viver abaixo da linha da pobreza”, diz Keith Lewin, professor emérito de desenvolvimento e educação internacional da Universidade de Susex.

Em 2013, além das centenas de escolas Bridge no Quênia, abriram 63 na Uganda e 23 na Nigéria. Em fevereiro de 2017, um tribunal de um condado no Quênia decidiu fechar 10 das 12 Bridge, porque inspetores do governo disseram que as crianças estavam em locais sem condições sanitárias. A companhia entrou com recurso e as escolas continuaram abertas.

Em uma escola Bridge em Mukuru, uma favela de 600 mil habitantes em Nairobi, as condições estavam longe de ser ideais. No pátio da escola, havia uma trincheira profunda de lixo com sacos podres de fezes. Quando os moradores não podem usar as latrinas comuns, eles usam o chamado “banheiro voador” (defecam em um saco plástico e o jogam o mais longe que conseguem).

Para manter suas salas cheias, a Bridge investe pesado no marketing. Os instrutores recebem de três a seis semanas de treinamento em pedagogia, gerenciamento de aula e tecnologia educacional. Eles recebem entre US$ 95 a 116 por mês, menos do que professores de escolas públicas ganham no Quênia, mas mais do que professores em escolas informais geralmente recebem. Sob pressão do governo queniano, a companhia começou a empregar mais professores certificados, e a empresa diz que agora mais de 50% de seus instrutores são certificados.

No ano passado, o governo da Libéria começou a trabalhar com a Bridge. Desde então, os pais não precisam pagar pela escola Bridge, é o governo quem faz isso. Será que o modelo é a resposta para países pobres ou apenas mais uma forma de enlatar o conhecimento?

Fontes:
The New York Times-Can a Tech Start-Up Successfully Educate Children in the Developing World?
The Atlantic-Is It Ever Okay to Make Teachers Read Scripted Lessons?
California Magazine-‘Academies-in-a-Box’ Are Thriving—But Are They the Best Way to School the World’s Poor?

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1 Opinião

  1. Markut disse:

    Obviamente, enlatar o conhecimento não formará qualquer coisa que se assemelhe à cidadania .
    Outras razões mais prosaicas haverá , quanto mais, quando , atrás disso, poderosos grupos do capitalismo predador entram em cena, para “ajudar” a construir esses Bridges lucrativos.

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