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Em busca da salvação de Londres

O Reino Unido abriga a capital mundial, mas não lhe dá o valor merecido

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Protestos contra banqueiros oriundos do movimento de ocupação de Wall Street, de Londres, e de qualquer cidade na qual um banqueiro tenha a ousadia de ganhar dinheiro, apimentaram as sombrias notícias econômicas do último ano. Ainda assim, a hostilidade não está confinada aos esquerdistas.

Até mesmo os supostos aliados dos banqueiros estão se revoltando, e isso vem acontecendo especialmente no Reino Unido. David Cameron prometeu “acabar com excessos” em Londres, e seus ministros têm se vangloriado de seus esforços para “reequilibrar” a economia, afastando-a das finanças duvidosas e aproximando-a da manufatura honesta. Sir Mervyn King, chefe do Banco da Inglaterra, se habituou a criticar de maneira feroz a cultura de “lucros para a semana que vem”, do centro de Londres.  Na Europa continental, Londres é vista com uma mistura de ódio (por ser considerada responsável pela crise do euro) e mesquinharia (segundo a ideia de que os espertos banqueiros franceses e italianos deveriam, na verdade, concentrar seus negócios em Paris e Roma).

Os protestos dos líderes europeus, pelo menos, devem trazer um resultado positivo: sua hipocrisia e seus interesses deveriam servir para lembrar os britânicos do que está em risco. Londres é, sob várias medidas, o maior centro financeiro do mundo, e seu enfraquecimento não interessa a ninguém, muito menos aos britânicos. Uma melhor regulação dos bancos certamente é necessária, especialmente para proteger os contribuintes britânicos. E até agora, a campanha contra a cidade tem sido apenas retórica. Mas derrubar uma dos mais bem sucedidos centros comerciais do planeta é loucura – e com certeza não é o legado que Cameron quer deixar para seus sucessores.

As finanças – o afunilamento das economias para seu melhor uso – é um setor vital. O Reino Unido é muito forte nessa área, liderando o mundo em vários mercados financeiros, incluindo câmbio estrangeiro e derivativos diretos. Nenhum outro país, nem mesmo os Estados Unidos, são capazes de igualar o equilíbrio comercial dos britânicos no setor financeiro. E com sua economia doméstica tropeçando, o Reino Unido precisa de todo o poder de exportação que puder concentrar.

Ainda assim, duas ameaças pairam sobre Londres. Mesmo com políticos mais espertos, o centro financeiro da cidade precisará reduzir seu tamanho nos próximos anos. O número de empregados no setor está 7% menor do que há três anos e a previsão comercial é a pior em anos – talvez décadas. Uma regulação mais rígida também representa lucros mais baixos, e deve haver obstáculos nas negociações com as economias emergentes, cujos governos tentam desenvolver seus próprios centros financeiros.

Ainda assim, a Ásia também representa uma oportunidade. A China e a Índia têm mercados financeiros pouco desenvolvidos, enquanto o Reino Unido detém o know-how. Se Londres pode se tornar um centro global para o câmbio do dólar, por que não se tornar o centro de câmbio do yuan também. O pouco desenvolvido mercado de finanças pessoais da Europa continental deve ser outro alvo.

Mas Londres só poderá competir com sucesso com outros centros financeiros se o Reino Unido tiver as políticas certas em relação à regulação fiscal e imigração, e há um temor compreensível de que um gigantesco setor de serviços financeiros signifique um gigantesco risco para os contribuintes.

Os políticos e responsáveis pelas regulações têm todo tipo de desculpas. Abolir o índice fiscal de 50% é politicamente perigoso no momento, e os imigrantes são impopulares. Além disso, os riscos de ataques ao centro financeiro são pequenos, pois suas vantagens são difíceis de serem replicadas. Os dias de trabalho em Londres formam uma ponte entre o fechamento dos mercados asiáticos e a abertura do mercado nova-iorquino, fazendo da cidade um ponto conveniente para o comércio global. Mas mesmo os mais fortes são vulneráveis à competição, e cada decisão de abrir um escritório comercial em outras áreas se soma à perda da massa que sustentou Londres como um centro financeiro de ponta.

As economias funcionam melhor quando refletem as vantagens competitivas inatas de seu país. O Reino Unido deveria, portanto, abrigar um grande setor financeiro, e os legisladores deveriam celebrá-lo ao invés de condená-lo. Se eles continuarem com sua política de negligência maligna, o Reino Unido irá um dia acordar e descobrir que perdeu um dos mais bem sucedidos centros de negócios do planeta, e a melhor esperança que a próxima geração tem para assegurar uma vida decente.

Fontes:
The Economist - Save the City

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