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ESCRAVIDÃO MODERNA

Estudo expõe condições insalubres de trabalho na Europa

Leste e sudeste europeu contam com diversas fábricas de marcas de roupas famosas mundialmente, mas que não respeitam as condições de trabalho

Estudo expõe condições insalubres de trabalho na Europa
Relatos de condições insalubres vividas pelas funcionárias de fábricas têxteis não são raros (Foto: Flickr/George Arruda)

Em um mundo movido pela dinâmica econômica, não é novidade que as pessoas necessitem de empregos para manter suas casas e famílias. Logo, para regular as atividades remuneradas, leis trabalhistas foram criadas para manter os trabalhadores em condições minimamente humanas.

Porém, não foi isso que um estudo da ONG Clean Clothes Campaign (CCC), que visa melhorar as condições de trabalho no setor têxtil, encontrou em um estudo feito no leste e sudeste europeu. Ele descobriu que marcas famosas como Prada, Louis Vuitton e Versace usam essa região da Europa para impulsionar a produção, com um custo reduzido e menor fiscalização das condições de trabalho em comparação ao oeste europeu.

“Isso é problema seu. E se você não aguenta isso, há pessoas suficientes esperando para ocupar seu lugar. A porta é logo ali!”. O relato é de uma operária do setor têxtil da Sérvia, que não quis ser identificada. As frases que ela narrou foram ditas por seu supervisor, após ela reclamar de falta de ar ao trabalhar perto de uma máquina, que esquentava demasiadamente a fábrica.

Relatos que expõem condições insalubres de fábricas do setor têxtil não são raros. Bettina Musiolek, coordenadora da CCC no leste e sudeste europeu, explica que, além dos trabalhos insalubres, as mulheres ainda precisam enfrentar o assédio sexual. Pedir demissão não é uma escolha. Na Sérvia, com o desemprego em torno de 16%, grande parte dos empregados tem medo de perder o emprego, por isso aceitam as condições desumanas de trabalho.

Ainda de acordo com o estudo, os empregados do setor de vestuário lidam também com a tirania dos superiores, alguns chegando a proibir que os operários tirem férias. Empresas bastante conhecidas mundialmente, como Benetton, H&M e Esprit, e marcas de luxo como Prada, Louis Vuitton e Versace fabricam seus produtos a baixo custo na região. “Para as marcas de moda globais, países do leste e do sudeste da Europa são paraísos com baixos salários”, explicam os autores do estudo.

 

Segundo o estudo da CCC, muitas empresas usam “Made in Europe” ou “Made in EU” nas etiquetas para dar credibilidade ao serviço de fabricação, porém “muitos dos 1,7 milhão de trabalhadores de vestuário da região vivem na pobreza”, inclusive sofrendo com a falta de comida, como revela uma funcionária de uma fábrica na Ucrânia. Um operário na Hungria revela também que o salário apenas cobre os custos do sistema de aquecimento nas residências e os serviços públicos necessários.

“É essencialmente uma zona livre de sindicatos. Ninguém representa efetivamente os interesses dos trabalhadores”, destaca Bettina Musiolek. O estudo não solicita o boicote dos consumidores às marcas de roupas, pois os trabalhadores “continuam dizendo que precisam desses empregos”. Mas Musiolek defende que os operários sejam pagos adequadamente, com as condições de trabalho atendendo aos padrões da União Europeia.

Realidade brasileira

As condições insalubres de trabalho, principalmente para estrangeiros e famílias de baixa renda, também são conhecidas no território brasileiro. Por vezes, denúncias aparecem e centros de trabalhos análogos à escravidão são fechados.

Em 1997, uma reportagem da Folha de S. Paulo revelou um grupo de bolivianos que vivia em São Paulo clandestinamente, trabalhando 12 horas por dia, em uma fábrica de confecções, ganhando cerca de R$ 0,25 por peça de roupas.

Muitos imigrantes já chegam ao Brasil com dívidas a serem pagas, pois são enganados por “coiotes”, responsáveis por fazer a travessia nas fronteiras. Esses “vendedores de sonhos” iludem os imigrantes, afirmando que o Brasil precisa de trabalhadores, e oferecem altos salários para trabalhar em diferentes tipos de serviço. Sendo assim, eles se oferecem para bancar toda a viagem do migrante.

Porém, ao chegar no Brasil endividado, o trabalhador é obrigado a prestar serviços com pouquíssimos ou nenhum benefícios, precisando, muitas das vezes, dormir na própria fábrica onde trabalha por não ter lugar para ficar. Em 2011, uma outra reportagem, dessa vez do Globo, falou sobre a transformação dos sonhos bolivianos em pesadelo diante da realidade brasileira dos trabalhos análogos à escravidão.

 

Em um dos casos mais famosos do Brasil nos últimos anos, o Ministério do Trabalho denunciou, em 2011, a marca de roupas Zara por uso de mão de obra escrava em suas oficinas de costura.

Fontes:
DW - O lado obscuro do "made in Europe"

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