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ECONOMIA

Falência de fábrica ilustra crise econômica da Rússia

Antes um símbolo do poderio industrial russo, a Ormeto-YUMZ hoje reflete o estrangulamento econômico vivido pelo país

Falência de fábrica ilustra crise econômica da Rússia
Longe do glamour de Moscou, o cinturão industrial da Rússia está em apuros (Foto: ormeto-yumz)

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Evgeny Sidorov percebeu que as coisas iam mal quando o aquecimento na fábrica onde trabalhava foi desligado em pleno inverno russo. Na época, a temperatura rondava os – 15ºC e a fábrica havia perdido muitas de suas vidraças.

Desde então, as coisas só pioraram na Ormeto-YUMZ, uma fábrica localizada na cidade de Orsk, na província de Oremburgo. A fábrica foi efetivamente fechada em setembro. Com os salários de cerca de 3 mil funcionários ainda atrasados e afundada em dívidas, muitos acham que ela jamais tornará a operar. “Não há mercadorias, não há dinheiro, não há clientes. Não há nada, eles não ligam para nós”, diz Sidorov.

A fábrica já foi um símbolo do poderio russo: um polo de produção de maquinários para fábricas, vendidos para todo o país e para o exterior. Agora, ela é um exemplo da degradação econômica da Rússia, que tem um Produto Interno Bruto (PIB) girando na casa dos US$ 1,7 trilhão, sofre com escassez crônica de investimento, lentidão nas reformas, um estado inchado e sanções ocidentais que, aos poucos, vão estrangulando o setor financeiro.

Longe do glamour de Moscou, o cinturão industrial da Rússia está em apuros. A expectativa de crescimento econômico deste ano, projetada em 1,7%, seria muito menor se excluída a renda proveniente do setor de óleo e gás, o que sugere que outros setores da economia russa estão estagnados ou em retração.

O Kremlin teme gerar agitação popular com reformas e geralmente recorre a medidas paliativas, como o financiamento por parte de bancos estatais a negócios em risco de falência. Como resultado, embora o desemprego no país esteja em 4,7%, um patamar historicamente baixo, os cortes nos ganhos reais salariais vêm sendo profundos. Os rendimentos reais no país vêm caindo desde 2014. Em 2017, eles encerram o ano 11% mais baixo que o registrado no final de 2014.

“Somente as pessoas que trabalham com petróleo pensam que as coisas vão bem na Rússia. Nós somos deixados aqui, com o pouco que resta. As autoridades só estão interessadas em seus próprios bolsos. E eles só buscam oprimir e reprimir a indignação popular”, disse Vladimir Gudomarov, líder da bancada de Orsk no partido comunista russo.

Enquanto investimentos são feitos em projetos de extração de gás no Ártico e em estações petroquímicas na Sibéria, fábricas russas de outros setores estão dispensando funcionários em massa nos últimos meses.

Tal fato representa um desafio para o presidente Vladimir Putin, cuja popularidade despencou desde que aprovou uma reforma que aumentou a idade para aposentadoria no país este ano. Uma pesquisa realizada este mês, pelo Levada Center, um instituto de pesquisas independente da Rússia, mostrou que 61% dos entrevistados consideram Putin pessoalmente responsável pelos problemas do país.

Os fortes laços diplomáticos com China, Índia e Arábia Saudita permitiram ao Kremlin manter sua influência no âmbito global, apesar das sanções ocidentais aplicadas ao país, após a anexação da Crimeia em 2014. Porém, a indignação no cenário interno diante das condições precárias de trabalho e subsistência será mais difícil de contornar.

“Há um sentimento de crise em toda a cidade. Falta dinheiro, emprego e esperança. É um cenário muito perigoso para o governo ter 3 mil pessoas furiosas nas ruas”, disse ao jornal Financial Times uma fonte que não quis se identificar, cuja família trabalhou na fábrica Ormeto-YUMZ por gerações.

Fontes:
Financial Times-Factory demise symbolises rot at core of Russian economy

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