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Movimentação de talentos

Fuga de cérebros: o que o país perde de fato?

Por Emanuelle Bezerra

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Diana Razera tem 25 anos e está na Suécia há quatro. Ela se formou em Ciência da Computação no Brasil e, em seguida, fez um intercâmbio em uma empresa de IT (sigla em inglês para Tecnologia da Informação), que a contratou ao fim do estágio. Diana é um dos vários casos de jovens qualificados que deixam o país em busca de experiência e oportunidades melhores no exterior. Países emergentes como o Brasil exportam para os  ricos parte da pequena parcela da população que chega ao nível superior, onde o mercado de trabalho é mais lucrativo. São médicos, professores, cientistas, engenheiros que não se sentem atraídos pelo que é oferecido a eles em suas nações. Mas os efeitos que a migração dos cérebros traz para esses países é a grande discussão.

A expectativa de conseguir um visto de permanência nos Estados Unidos, por exemplo, estimula os estudantes dos países pobres a investirem em educação, o que ajudaria no crescimento do país. Esta teoria, elaborada por Andrew Mountford, da Universidade de Londres, e Oded Stark, da Universidade do Bonn, é chamada de “incremento de cérebros” e se baseia no desejo dos jovens que têm como exemplo outros que já deixaram o país a se qualificarem e na baixa probabilidade de conseguirem o visto. Assim o país ganharia profissionais mais bem preparados, que se qualificaram para competir no mercado internacional, mas que continuaram no mercado regional.

Por outro lado, na opinião, do economista Roberto Fendt, vice-presidente do Instituto Liberal, a exportação de capital humano só seria benéfica para os países pobres se houvesse de fato uma circulação de talentos, se os países ricos também enviassem profissionais. Mas não é isso o que acontece. Fendt diz que, até o século XIX, quando não havia passaporte, a mobilidade de capital humano era muito comum. A fuga de cérebros era um fenômeno natural. As pessoas migravam de um lugar onde as condições não eram favoráveis para outro onde pudessem viver melhor. Atualmente isso só ocorre em esferas como, por exemplo, no estrato das pessoas de alta qualificação ou das que dispõem de dinheiro.

“Hoje a movimentação livre das pessoas é muito restrita em relação ao que já foi no passado. Este é um retrocesso muito grande, porque a movimentação é que permitiria uma melhor distribuição de renda em nível mundial. Países onde o trabalho é bem remunerado atraíriam pessoas e isso impediria que o trabalho ficasse cada vez mais bem pago nestes lugares. Por outro lado, se você tira uma parcela de pessoas de lugares onde o trabalho não é tão bem remunerado, o salário para os que ficam passa a ser mais alto. “De acordo com o economista, a dinâmica equilibra a economia. “É uma coisa boa em certo aspecto, mas ruim por outro. Essa movimentação é só de um lado, só sai e não vem. Só exportar não é bom. Um país que só perde capital humano perde também um fator que é essencial para o desenvolvimento do país”, completa.

O vice-presidente do Instituto Liberal acredita que a mobilidade ainda aconteça dentro do Brasil, mas que não funciona no Mercosul. Neste bloco, segundo ele, deveria haver uma circulação de profissionais, já que é uma área de livre comércio.

Fendt atribui a falta de entrada de profissionais estrangeiros no país à legislação trabalhista que impede que as empresas os contratem. O economista acredita que a grande questão da saída de brasileiros para o exterior também se deva à legislação brasileira. Ele diz que ela é muito avessa à livre negociação e muito rica em regulamentação. Isso impede que pessoas que estão dispostas a assumir o risco de deixar o seu país e começar uma nova vida no exterior — empreendedores — possam criar novas empresas e contratar pessoas em condições de crescer junto com as companhias. Desta forma, o mercado absorveria muito mais os novos profissionais, sem que eles precisassem entrar em uma grande empresa para terem boas oportunidades. “A Microsoft nasceu numa garagem e hoje está todo mundo bem e feliz lá. A legislação é contra os novos trabalhos. Ela é a favor de quem já está empregado, mas contra quem está desempregado, ou as minorias. A legislação dá margem para que toda sorte de preconceitos seja aplicada. As mulheres, por exemplo, ganham menos, mas ganham muito menos do que nos EUA e na Europa, porque as leis favorecem o emprego aos homens e desestimulam o emprego das mulheres, o que é muito prejudicial, já que a maioria da população é feminina”.

Este não é o caso de Gabriella Moreira, de 26 anos. A economista, formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, diz que quando deixou o país há três anos tinha um bom emprego. Ela mora atualmente em Nebraska, nos Estados Unidos, onde trabalha em um programa de intercâmbios da University of Nebraska – Lincoln. Gabriela — que ao sair do Brasil fez pós-graduação, atualmente faz mestrado em Agricultural Economics e está aplicando para o MBA em International Business — já coordenou a vinda de americanos ao Brasil no começo deste ano. Ela acredita que a experiência internacional é imprescindível para aqueles que querem alcançar o mercado global. Ela diz também que no exterior há maiores possibilidades de qualificação, já que a as bolsas oferecidas aos alunos são mais vantajosas e assim a pessoa pode se dedicar integralmente ao estudo. “Com meu visto não posso trabalhar, só estudar e “trabalhar” dentro da universidade. Tenho uma assistantship (tipo de bolsa de estudo), com a qual consigo viver bem”. Mesmo assim, a economista faz parte da pequena parcela de beneficiários que chegam às universidades públicas financiadas pelos impostos pagos pela população em geral e que decidiram não atuar no país. Para Fendt, este é o grande problema. O Brasil não tem o retorno do investimento que faz. Se a educação superior fosse toda privada, o país não perderia nada.

Mas, como na maioria da América Latina, o Brasil mantém o padrão do ensino superior baseado em uma grande universidade pertencente ao Estado e que pode receber de 200 a 300 mil alunos. O país tem o maior custo por aluno no ensino superior da região. O estudante brasileiro, segundo a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), custa dez vezes mais ao governo do que os estudantes chilenos ou argentinos, equiparando-se ao custo do estudante europeu. No entanto, não há como parar a saída de cérebros do país com políticas restritivas. Jorge Balán, no livro “A competição internacional por talentos”, deixa duas alternativas aos países afetados: a primeira é tentar aumentar a atratividade do mercado nacional, a outra é fazer com que os talentos exportados se integrem a projetos de interesse brasileiro e investir em políticas de retorno. Como é o caso do programa de bolsas de doutorado no exterior financiadas pelo Capes e pelo Governo federal.

Uma bolsa de estudo fora do país pode chegar a custar US$ 200 mil e, por isso, o Capes, além de analisar os planos do candidato e a universidade para onde ele pretende ir, avalia como ele pretende contribuir com seu trabalho e se projetar no Brasil. Gradualmente estas bolsas estão sendo substituídas por “bolsas sanduíche”, que enviam o estudante para fora, mas ele tem que retornar e defender sua tese aqui. Além disso, para Balán aqueles que conseguem se inserir no mercado internacional precisam ser estimulados a fazer a ligação entre o Brasil e o exterior.

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18 Opiniões

  1. Gisele disse:

    Esse texto é muito interessante e o autor soube abordar o tema de uma forma bem dinâmica, o que facilitou a compreensão.

  2. Douglas Batista disse:

    Texto bastante informativo que abre margem pra grande discussão. O problema não é a diferença de oportunidades entre o brasil e o mercado americando e o Europeu..a diferença está na estrutura que cada país oferece ao povo. No brasil tudo é bastante díficil em relação a Transporte, saneamento, segurança, saúde, juros altos, burocracia excessiva e etc. Resumindo, se o Brasil oferecesse a mesma estrutura para o seu trabalhador certamente essa fuga não aconteceria

  3. Fernanda Mouta disse:

    Texto interessantíssimo! Muito bem abordado pela autora. Parabéns

  4. Marcílio F. da Costa Pereira disse:

    Como medida paliativa, temos exemplos como o CTA que até concede especialização a funcionários, mas que exige que o temo de especialização seja convertido, após curso, em tempo de trabalho na empresa.

  5. Andressa disse:

    Muito interessante! Adorei ler a matéria sobre a fuga de cérebros.

  6. EDVALDOTAVARES disse:

    UMA NAÇÃO SÓ SE DESENVOLVE COM PARTICIPAÇÃO DE PROFISSIONAIS DE ALTA CAPACIDADE. Dá a entender que esta não é a visão que hoje reina no Brasil. Cidadão sem formação fundamental resolve ao alvorescer de 2009, para compensar o atraso educacional, cursar o ensino básico e médio, cada um com duração de seis meses, para se candidatar, em 2010, a uma vaga na faculdade de medicina. O curto-circuito dos anos de estudos, estratégia oportunística, visa o aproveitamento da política de cotas raciais, para se tornar, ao fim do curso de graduação e especialização, neurocirurgião. Ora, causa preocupação a fuga de cérebros de alta qualificação, porém, mais alarmante é a má qualidade do ensino em geral no Brasil. Uma análise criteriosa partindo do ensino fundamental indo até o nível superior, sem deixar de fora alguns cursos de pós-graduação, constatará uma falência na qualidade do ensino. Enquanto não houver uma política educacional séria, isenta de politicagens demagógicas, aliadas à iniciativas que premiem a qualidade profissional, profissionais de elevada capacidade alçarão vôos para países mais desenvolvidos em busca de valorização profissional. Além de melhores salários, conta para a satisfação do exercício profissional a qualidade da condição do trabalho e a possibilidade do aprimoramento cultural. Enquanto as autoridades governamentais e educacionais brasileiras persistirem em enfiar pobres e negros sem avaliação da capacidade de suficiência de conhecimentos nas universidades, como justificativa de facilitação do acesso de desfavorecidos à formação superior, além de baixar o nível do ensino desta formação, estimularão o êxodo de estudantes e profissionais qualificados para países mais desenvolvidos que ofereçam complementação de estudos de pós-graduação de alto nível, atraente valorização profissional e melhor mercado de trabalho. BRASIL ACIMA DE TUDO! SELVA! EDVALDOTAVARES. MÉDICO. BRASÍLIA/DF.

  7. Emilio çaMendon disse:

    O que se observa é que há uma grande perspectiva em áreas tecnológicas no mercado externo.
    No entanto, essa perspectiva impacta diretamente a economia brasileira, tendo em vista que a lógica do capitalismo consiste, dentre outras coisas, na agregação de valores, e caso o Brasil queira crescer economicamente não poderá se limitar à produção de bens primários e deverá produzir tecnologia também.
    Precisamos, portanto, de um novo processo de substituição de importações, como ocorrera na década de 30 à década de 70, e para que consigamos esse objetivo, precisamos sim de qualificação profissional nas referidas áreas.
    Como faremos, então, para mantermos os profissionais trabalhando para nosso país? Eis uma questão muito abrangente, envolve tanto questões financeiras como também questões de patriotismo.
    Deveremos trabalhar para que o brasileiro acredite no desenvolvimento de sua nação, coisa que, demanda por uma atuação conjunta do governo, dos meios de comunicação e da sociedade como um todo.
    Concluo que essa visão reiterada de que o país em que vivemos não é bom, tem causado impactos na economia e, possivelmente, tornando a referida crença realidade.
    O desenvolvimento do país é um trabalho para todos.

  8. Lenize disse:

    Concordo com o economista entrevistado que disse que a fuga de cérebros só acontece por que o páis não tem uma legislação que abrace estes profissionais. E, é claro, que a movimentação de talentos no mundo só seria benéfica se fosse recíproca.

  9. Victória disse:

    Aconstituição brasileira diz que todo o cidadão tem direito à educação. Então o país está fazendo o que tem obrigação de fazer ao financiar os estudos de uma pessoa.

  10. Cristóvam disse:

    A fuga de cérebros só acontece por conta das más condições de vida que os países pobres oferecem. A movimentação de talentos no no mundo seria normal, não preocuparia ninguém, se os países pobres, mesmo nesta condição cuidasse do seu povo. Desta maneira as pessoas iriam preferir continuar perto da família, dos amigos,e não aconteceria uma fuga de cérebros.

  11. marlon. disse:

    achei muito legal essa matéria…
    e creio que realmente as grandes oportunidades estão lá fora, mas não quero e nem estou desposto a vender meu "cérebro"..

  12. Vivian Teixeira disse:

    É lamentável observa um país que ao mesmo tempo oferece formação de nível superior de qualidade,não tenha uma política que favoreça a permanência dessa mão de obra nele.

  13. P riscilla Santos disse:

    A fuga de cérebros irá sempre acontecer enquanto não houver uma política eficiênte para absorver estes talentos no país. Fora que as pessoas não estavam visando apenas dinheiro, mas qualidade de vida, o que não se encontra no Brasil.

  14. Gizele Gomes disse:

    Não adianta as pessoas irão sempre sair do país enquanto ele não melhorar. Principalmente se há possibilidade de crescer e yter uma vida melhor. somos indivíduos e pensamos primeiro no nosso umbigo, não na economia do país como um todo.

  15. kelly bezerra disse:

    Texto excelente, ambrange opinioes e pesquisas respeitadas. Sou a favor que pessoas busquem um reconhecimento adequado ao seu trabalho, o importante é, depois,investir em seu pais de origem.

  16. Debora disse:

    Esse fenômeno não é recente. Existem vários fatores que levam uma pessoa a deixar seu país de origem. Dentre eles a busca por melhores oportunidades de trabalho,"tentar a vida", aventuras etc.
    Gostei da abordagem do tema!
    Sugiro um artigo sobre tráfico de pessoas para fins de trabalho forçado.

  17. Bruno dias disse:

    o brasil cresce mais la fora do q dentro do proprio territorio…..otimo texto bem elaborado

  18. gisele disse:

    muito bom!!!

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